sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Penumbra

  Nos limites da existência, na sombra que partilha meu sorriso, meu choro, meu grito, meu amor e meu ódio, onde a sombra me invade e apaga todos os resquícios de civilidade, onde o ódio me inunda e me atira para lá do que conheço, aqui regozijo entre cadáveres pútridos e putas abandonadas, aqui engordo de mal alheio e de crias do desespero, aqui de robe escarlate aberto, de tromba pendente e flácida me flagelo em penitência.



*Sem acordo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

LXIX

Te Saúdo,





* The Message, Grandmaster Flash & The Furious Five

Impossibilidade

  A Alice e o Tim Burton fumam paivas cumpridos, mal enroladas, com tarolinhos fofos mal queimados, 
  - parecem cheerios, - alguém atira da plateia, uma mulher loira com demasiada maquilhagem, sim, sim, daquelas que parece um quadro perfeito quando te deitas e quando acordas parece um rascunho de Van Gogh,
  - e a orelha dele?, - coerência, vá, vamos manter este comboio nos trilhos, vamos manter a coerência dos assuntos, não podemos começar agora a deambular por questões tão desmotivantes como a abertura ao ocidente da Cuba comunista; onde ia?,
  - a Alice e o Tim, - pff, já sei, 
  a Alice e o Tim Burton jogam a bisca lambida numa cidade lá no oeste, daquelas onde podemos ter o luxo de dar um bom banho à Texas,
  - desculpa?, - plateia cheia de questões, isto só a mim, vocês não sabem nada, será a ignorância tudo o que vocês trazem nessa bagagem de vida, José Mário Branco quando deambulava pelo FMI e por um zás um Manuel Alegre no Mário Soares não tinha aturar estes redundâncias cíclicas aparentemente infinitas,  - o que é um banho à Texas?, - questiona com tacto uma menina, uma mulher, morena, com salto alto que não consigo ver, mas decido imaginar: camurça vermelha, reviro os olhos impaciente, mas aqui em cima sinto-me machão, sinto-me cavalo, e sinto-o a roçar o velcro enquanto se desenvolve naquilo que os bichos do zoo usam para comer amendoins, um pendente sem fio que se segura pelo equilíbrio precário que encontra um declive entre aquilo que me prenda a vista,
  - aí que cão, - sussurra o assistente da linha lateral, não consegue ver nada, cataratas que crescem, dentes amarelos que ressoam na noite como o colete do gajo da brisa que limpa as beiras nas scuts, rói-te de inveja Chico, eu consigo ver a miúda com decote, morena, que segura um pendente como o gajo do circo faz malabarismos,  - cala-te meu palerma e regressa à tónica desta nossa sui generis metafísica, 
  - minha cara um banho à Texas pode ser definido como um acto que se executa com os primeiros tons de laranja que um qualquer sol envia para esse fatalista Estado, vamos dizer para bem da constatação da equação que ter ergues às seis da manha, nua como ovelha tosquiada, abres a porta da tua quinta e procuras um declive suave, cheio de erva, relva, coisas verdes e lanças-te a rolar como um barril, assim como um professor de matemática que outrora me abria os horizontes para a vida, enquanto rebolas sem contenção, sem âncora que te salvaguarde, teus seios a embaterem um no outro e ainda assim o pendente não cede a sua posição pitoresca, ancas abanam-se, glúteos que saltam, pedaços de corpo moldados com pele morena movem-se por todo o lado, mas enquanto catastroficamente desces o declive o orvalho lavar-te-à, ficarás fresca como as tripas depois da matança, ficarás fresca como os putos no rancho do Michael Jackson, percebeste?,
  ela anui, abana o cabelo para cair na perfeição à volta da face oval, molha os lábios com a ponta da língua, puxa os ombros para trás, enquanto espevita os seios contidos dentro de um corpete de outrora, e senta-se de perna cruzada, arre posso continuar?,
   a sala resume-se a um silêncio de quem estava ali para ver o lirismo fraco de Tony Carreira interpretado de forma desapaixonada pelo mesmo, mas aquele cabelo faz milagres, infelizmente tem que se aguentar comigo, com este monólogo acerca da importância para sociedade e cultura actual de Alice, Tim Burton e Quentin Tarantino, 
   - não queres antes enterrar-te dentro de mim, não te escondas que se nota, - e não é que se nota mesmo, o raio da morena tinha razão.



*Sem acordo.





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Está frio lá fora

  Que frio, está frio hoje, mas eu sou um escravo, não, por favor parem de revirar os olhos, não vou deambular por rumos tantas vezes tragados por mim, não vou começar a choramingar como o maricas que sou,

  expressões que fogem como cães condenados do inferno e eu como seu arauto berro que parem, que regressem, que comandem meus dedos por caminhos ainda vivos em fauna e em flora, se Régio se lançou através de falhas tectónicas em busca de florestas virgens, eu também busco algo para meu tornar, meu legado, uma merda legado, nada mais tenho a oferecer na minha contingência de nada que uma alma inebriada de tons, cores que dançam dentro da minha mente sem parar, todas as cores que abalam o que eu sou para formarem algo novo só lamento que seja tão tarde, só lamento que esta certeza não tivesse nascido mais cedo, que só agora saiba o rumo que devo tomar, lamento tanta coisa mas acima de tudo e mais importante lamento o vazio que te possui, sim tu, que me olhas do outro lado do espelho com olhos vazios, sem emoção, em busca de um significando qualquer mais profundo que o acto de respirar para o que é esta vida, quando me encolho perante o fim termino a abrir os braços e avanço para ele confiante que o amanha longe daqui será melhor, confiante que o vazio que te possui, não a mim, a ti!, pois eu enquanto danço entre estas palavras estou vivo, mais vivo do que nunca, agora neste momento o eu que me possui ruge como um leão no topo de uma montanha, de músculos tensos, de pescoço esticado, de cicatrizes distorcidas,  ruge, ruge?, rujo de alegrias que mal contenho, rujo de um mundo que desvendo a cada busca pelo ébrio que transforma o meu eu, que me divide em dois, três, quatro eus, uma para cada dia, um para cada hora, um para cada momento, um para cada companhia..., um para cada ideia solta e são milhares de ideias selvagens, indomadas desconhecidas ao homem que abalam os alicerces do que sou agora, do que sou quando me olho ao espelho e a dúvida do que serei, como parar?, para quê parar?, o amanha tão distante é o amanha de daqui a pouco e a inexorável falácia da vida ri-se para mim com lábios gretados de dentes gastos por café de saco e tabaco mascado, que devo temer?, o oblívio?, o inabalável fim?, o amanha e o esquecimento que traz com ele?, legado?, não existe, atrevo-me a dizer que poderia se eu não me tivesse deitado a tentar perceber o padrão de migração das nuvens, 

  - tão escuro, tão desfasado, porque não te sentas e escreves algo que respeita a gramática e a pontuação, porque não te sentas e fazes algo decente para variar?.



*Sem acordo

Prémio Dardos

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  A Eli atribuiu este troféu a este blogue,
  
  nas palavras da mesma: " Pelo que percebi, este prémio começou com uma intenção nobre. O Prémio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambade que, em 2008, concedeu no seu blog, Leyendas de el pequeno Dardo, os primeiros Dardos, destinados a quinze blogues, que, por sua vez indicariam outros 15 blogues. O prémio espalhou-se e tem como objectivo reconhecer o empenho e o valor de quem escreve na blogosfera mas, como é impossível conviver ou participar sem que tenhamos que obedecer a regras, cada nomeado, que queira participar e aceitar o convite, terá que:"

 
1 - Exibir o selo;
2 - Exibir a hiperligação de quem o premiou;
3 - Escolher outros blogues para indicar o prémio;
4 - Avisar os escolhidos.
  

Sem qualquer ordem específica as minhas escolhas,
  4 - Avançando
  5 - Chez George Sand 
  6 - Devolvo a atenção, O amor acontece?


   Infelizmente a minha lista de autor não pode ser alongada, não visito mais casas com a regularidade necessária para me sentir confortável, penintencio-me por isso, mas contingências impedem-me de passar mais tempo a deambular e a sujar tapetes de outros, todavia o meu gesto para enriquecer a cadeia de uma ideia rica e nobre encontra-se aqui mesmo que eliminado por não o oferecer a quinze outros,

cumprimentos,
JD
 
   

terça-feira, 6 de novembro de 2012

LXVIII

.





*Eminem, Dr. Dre, I Need a Doctor

Só hoje

  As mesmas sinceras desculpas por tamanha presunção, por tamanho desfaso da norma social, mas hoje não me encontro de joelhos diante de vós ò mania do consuetudinário de estar sóbrio, em perfeito controlo das minhas emoções, de sair de casa às sete da manha com o frio de amarelar os dentes, hoje não quero saber do fato feito por medida que me aguarda, daquele sorriso que desenho toscamente nos meus lábios enquanto digo,
  - bom dia caro doutor, como está?, a família está boa?, ainda bem meu caro, logo vamos assistir a um jogo de golfe enquanto degustamos um vinho de rara casta e ouvimos Beethoven?, - para o caralho com a mania de ter que andar com ananás enfiado no dito, de enterrar na sarjeta a criatividade, de ter que esconder todas as ideias que se afloram nesta pele morena dia após dia,
  - meu caro doutor não acha que essa barba não está muito grande?, meu caro esse cabelo precisa de ser escovado, essa camisa está mal engomada trate disso pode ser?, esse tabaco de enrola não tem o status quo necessário comece a comprar este que é enrolado à mão por mulheres pretas, mulheres que são fodidas à vez por capatazes com a bandeira da União tatuada nos genitais, em terras sem nome, de unhas negras como a noite, por mulheres de seios ao léu, lá naquelas terras onde tabaco é melhor, compre este para a próxima ou então podemos necessitar de cancelar a sua assinatura neste nosso mui pródigo clube da mão fria, - o meu sorriso toscamente desenhado com lápis de cera importados, dança rudemente, ameaça desfalecer e revelar mil vagas de raiva dignas da Indonésia, de cansaço, só me apetece despir o fato e mandar tudo e todos para o caralho, 
   
   (as minhas sinceras desculpas pelo caudal insensível que aflora a este meu corpo, tento como tantas centenas vezes contê-lo, colocar uma rolha, de onde saem as palavras, da mente que cria esta raiva, tento fechar os olhos e recontar os números que já sei, iguais à ultima vez, mil e um, mil e dois, mil e três, mil quatro, que se foda, grito, como macaco ergo-me digno e orgulhoso do que sou quando sou e como sou, lanço palavras vis ao dia em que cedi à necessidade de estar aqui a fazer o que me disseram que era bom a fazer, e os cabrões orgulhosos das suas ideias me disseram com confiança mentirosa nas suas expressões de quem suposto me ama,
  - e vais ser feliz a fazê-lo, - meus amores também vos digo,
  - para o caralho convosco,)

  hoje encontro-me tão longe, o filtro natural que me faz pensar antes de dizer, antes de escrever, aquele filtro que homens vestidos de preto colocam na mente depois de fazeres oito anos, que te faz pensar mas não dizer, que a cada curva prende tua língua bífida atrás dos dentes, hoje removi-o, o juízo de tê-lo foi substituído pela necessidade da loucura que dia após dia bate na minha costa, bate e arrebita latente, preciso dela presente, porque hoje não quero saber do lugar montado para mim nesta megera de sociedade, não quero saber do caudal de merda que desagua em mim pelo que profiro, por isso te digo de peito eriçado, de peito inchado, grito aos ventos de forma mais alta que consigo,
  - vai-te foder sociedade, 

  não me interessa o que tenho, o dinheiro que todo o mês tilinta na minha conta podes ficar com ele, a casa que coloquei sobre a minha cabeça podes derrubá-la, o carro que dança por estrada entre riscos contínuos penhora-o minha puta, porque eu, porque eu, porque eu, nada mais tenho a conter, corrijo-me, nada mais posso conter, corrijo-me, nada mais quero conter, cansei-me, só hoje, cansei de ser mais um carneiro neste mundo em que os pastores dançam entre mulheres que se despem, cansei-me de ser um mero número, desisto de desenhar falsas expressões, de dizer olá quando penso morre, de dizer ainda bem que a gripe já lhe passou, quando tudo o que sonho é ver-te palerma a dançar sem a cabeça como as galinha na casa da minha avó naqueles dias em que nada me filtravam, à tantos anos,

   suplico o vosso perdão, de olhos marejados de lágrimas salgadas que sabem a mar morto, lamento que vossa visão avance por esta cavalgada, mas vossa ofensa podem pegar nela e colocá-la onde bem sabem, a vossa ofensa, tão digna, vocês montados em cavalos de belo porte, no alto de de montanhas naturais, alimentados de tetas nascidas do chão como couves, onde me julgam, e resmungam, não quero saber, não me importo, a vós vos digo,
  - nada mais interessa se serei mais um, nada mais quero saber se isto é o que é, estou aqui o quê?, umas miseras oito décadas, seis quiçá capaz de pensar claramente, e não posso fumar porque mata?, idiotas, não comes carne porque mata?, idiota, não fodes porque mata?, palerma, nada mais tenho a dizer, deixem-me fumar, alimentar minha cirrose e fornicar como um coelho com a doença das vacas loucas pela simples razão que o tempo que estou aqui é tão pouco porque não ter um pouco de diversão, quando no fim, se fizeres a aritmética a factura equivale a uma ou duas décadas que irias passar com a próstata inchada, a fazer diálise, e a ver o Goucha a insinuar que é homossexual
  - já sabemos, sempre soubemos,

  perguntam-se vocês, enquanto se questionam pela minha sanidade física e mental,
  - qual é o teu ponto?,
  - não existe cambada de bacocos, todos os dias me ergo para fazer aquilo que é suposto fazer, enquanto o que eu quero é o oposto, alimento-me do que o capitalismo me proporciona, tudo o que quero em troca de anos e décadas é uma semana livre de vós megera de sociedade, livre de vós preconceitos, livre de vós moralidade vigente que me capas o tesão, me agarres pelos testículos e me fazes ganir, tudo o que eu quero é dizer boa noite, quando o sol nasce, e santinho quando te devia dizer olá, tudo o que eu quero tirar a máscara e entregar-me ao caudal que corre sob esta minha pele, sem interrupções, ideias, palavras que se desenham, hieróglifos que parem da cópula apaixonada entre meus neurónios, tudo o que eu quero é um pedaço de papel e uma caneta, tudo o que eu quero é a minha solidão, tudo o que eu quero é uma queca para descarregar frustrações, tudo o que eu quero é o que tu puta de sociedade não me deixas ter porque para te fazer feliz tenho vestir a capa e dizer, bom dia doutor,

  se o mundo não muda, e eu não mudo este braço de ferro termina inexoravelmente comigo enfiado numa cave a dançar sem vida de corda no pescoço enquanto insectos se alimentam do que antes fora meu invólucro, mas onde quer que me sente e olhe te digo também sem tacto,
   - vai para o caralho!


*Sem acordo


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

LXVII

Utopicamente encantado?,




*Ernesto Guevara, UN, 1964

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Palavras

     - Amo-vos palavras, - brado-o, continuo, - desde da manha até à noite cair passeiam por mim, desenham-me sorrisos nas suas conjecturas de sem sentido, acordam-me para as pertinências da rotina, dão-me a mão e levam-me para longe onde nunca  a monocórdica rotina me encontrará, os seus embalos mágicos, a sua construção transcendente: tornar uma frase num ditado, numa lenda, num mito, numa lei, num aglomerado de consuetudinário, são arcanas, são mágicas, são mirabolantes, exprimir tudo o que nos vai na mente por doces e encantadas expressões é como amar alguém que ser quer: tudo parece correcto, tudo encaixa na perfeição, é como ser fragata de linha em época de monções, só no sagrado barlavento eu e elas, nada nem mais ninguém se atravessa na nossa metafísica, nós contra o mundo, a megera da sociedade pode lançar tormentos assassinos, dores, tempestades, censuras, não interessa porque tenho o meu dicionário profundamente mesclado na minha mente e brado impróprios desleais, palavras ao vento que qual pombo as leva e vos atira nelas minhas presunções, - odeio palavras, estragam tudo, quero um mundo de olhares, afinal diz o cliché: que os olhos são o espelho da alma, - todo o meu ser concorda, o nosso mundo,  nossa existência é um oceano de hipocrisias, de nada adiantam profundos ideais, é mudar ou ser morto com uma âncora presa ao pescoço, atirado para as profundezas do esquecimento do frio mar, penso isto como que possuído, parte de mim desgarra-se em espasmos e arrepende-se de proferir aquilo que todo o meu eu entende como uma blasfémia, a nossa alma pensa e cria livre e desvinculada, pura, sem pressões, mas nós quais ovelhas em pele de pastor colocamos açúcar para que o dito não brade dor aos céus, somos tolhidos pelo touro da sociedade, envolvidos em seu abraço, rendidos às suas necessidade, não duvidem meus caros a sociedade é uma megera, uma ninfomaníaca depravada, ela possui-nos e suga toda a nossa independência até que formatados estejamos, o primeiro sintoma são as palavras: em jovens gritamos sem pudores tudo o que nos visita, agora quantos de nós rendidos às amarras do destino bradam aquilo que sabem deve ser escutado, o grito de revolução, o berro de pátria ou morte perdeu-se, mesmo aqueles que persistem nem que seja numa esfera tácita a ser do contra dão por sim, subjectivamente ou não, a segurar a língua bífida atrás dos dentes amarelos, palavras matam, palavras magoam, palavras provocam, palavras movem metafísicas,
       afinal eu amo as palavras, são a nossa arma, o nosso trunfo, mas elas fogem engolidas pelo nosso ego, doce ironia, tão doce como a chuva que bate e rebate na persiana desta noite igual a tantas outras, mas da qual subsiste algo sublime, o pequeno sabor que surge e se mantém, sem norte, numa torrente incontrolável, hoje ideias nascem como a brotar da fonte onde bela e formosa o cântaro encheu, odeio e amo, doce, doce, doce metafísica, em horas pares rendo-me ao teu corpo e amo-te como se esta noite fosse a última da minha existência, nas horas ímpares espumo de raiva, subo a árvores e esmiúço terras só para ti, cerro os dentes e mordo-te imaculada Transcendência, abomino-te em todo o sentido lato da coisa, mas nada realmente importa, o ar começa a ficar mais leve à medida que o tempo passa desde o último cigarro e a minha mente mais toldada com o descer da garrafa, encontro-me a concluir que ataraxia nunca mais, loucura agora e sempre porque caros amigos, paixões, noites como esta cambiam tudo e em nada tudo se perde, mas em tudo, tudo se pode ganhar nem que seja um enorme nada.
     O calor abafado conjugado com uma chuva aparentemente tropical criava um odor que impregnava o quarto e os meus sentidos, um sono incontrolável invadia-me, caio na cama, mais pelo cansaço de não viver, de não existir do que pelo sono real, fecho os olhos sentindo nos ossos que o amanhã em nada seria diferente do hoje.



*Não segue o acordo ortográfico

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sol em dias de chuva

  Nuns dias, pares presumo, acordo, ainda nu abro a persiana, abro a janela, brisa e sol, frio e quente, assim como tu, tanto me aquece quase ao ponto de ebulição como me refresca ao ponto do arrepio, assim me disponho numa janela virada para a rua às nove da manha, olho em frente enquanto me banho, nesses intrínsecos momentos de bacoquice matinal, em que o cérebro rumina entre sonhos que não recordo, ainda em estado vegetativo, desperto mais pelo cansaço de dormir do que pela necessidade, nestes momentos raros como ouro no chão da cozinha, questiono-me, dou trinta e três voltinhas por minuto matutando na exacta mesma questão,

  - porque te prefiro noite?.


*sem acordo

LXVI

Reminiscências,







*Last Resort, Papa Roach

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Comprimido para dormir

  Prefiro não estar aqui a está-lo para ser mais um mero número, mais uma fórmula na equação, numa rotina desfigurada de grados, onde somente me posso agarrar aqueles brados que solto durante as noites que agora sim são do meu gosto: frias, longas, chorosas, negras sem facho que as alimente de luz, brados que solto de cigarro enfiado na esquina da boca, brados que solto de cigarro enfiado entre minhas toscas mãos, dedos amarelos deste meu cigarro, unhas baças deste tabaco que arde e me alimenta a alma à medida que me destrói o corpo, este meu invólucro escravo de um sexo que entesa pela manhã, pelo dia, pela noite, especialmente durante estas noites frias mesmo ao meu gosto em que tu minha mulher, minha morena de cabelos encaracolados dormes só, nessa cama mesmo ao meu lado, mesmo aqui enquanto emito círculos de  fumo para o ar e desenho barcos, vagas, e aviões, ouço o teu dormir, o teu peito que sobe e desce a um ritmo certo, como se um maestro te desse com a batuta, agora inspira, agora expira, agora inspira, agora expira, umas vezes olho-te frontalmente e teus seios sobem em perfeita harmonia como quando olhamos as ondas que chegam naquela nossa praia, outras espreito-te pela esquina do meu olhar e mesmo assim ele entesa, meus testículos encrespam-se e em nada mais penso do que te acordar com meus dentes a trincarem teu ombro, com minhas unhas amarelas e roçarem tuas costas, com minhas mão a agarrarem, a puxarem, com minha boca a sugar-te, onde tu quiseres, e avanço para uma morena que dorme em minha cama em busca de também eu soltar-me das amarras da insónia e dormir comigo perfeitamente encaixado dentro de ti, 
  - não - que dizes mulher?, não?, - ainda não - então quando?, permite-me antes que eles de tão encrespados expludam como um armagedão precoce, porque me empurras?, - prova-me antes - agora entendo-te minha leoa, agora já sei, porque não te explicas melhor, tua bacia eleva-se ao mesmo tempo que em carnes tenras passeio minha língua, sem muito tempo passar sou eu que digo não,
   - não - não me olhes assim, tira essa cara que insinua que se não me enterrar no teu sexo me vais capar com a faca de trinchar o frango, não me olhes assim que não adianta, eu quero dormir, eu acordei-te porque quero dormir, quero deixar de amar esta noite, quero deixar de cantar serenatas a esta noite, sento-me naquele sofá no escuro, a fazer cigarro atrás cigarro, a tragar uísque daquele com a galinha na capa, hora após hora, enquanto tu nua dormes a um ritmo tão certo, tão perfeito, tão fácil, tão semelhante ao relógio em forma de pato que te acompanha em dueto na cabeceira, também eu quero dormir e para o ter, a ele, ao sono, tenho que ir para dentro de ti, perfurar-te carnes tenras, colar nossos peitos, morder-te no ombro, primeiro devagar, enquanto suspiras cada vez mais, cada vez mais alto, mordo com mais força, mordo até furar pele,
  no fim da noite adormeço, mesmo naquele momento em que o cabrão do sol chega para uma vez acabar minha noite, mas que interessa?, adormeci, vazio adormeci, tu cheia adormeceste e dormimos, nem que seja por dez minutos dormimos, abraçados como deve ser minha morena.


*Sem acordo
JD

LXV

Indubitavelmente,





*Hip Hop Lives, Krs-One & Marley Marl.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aquela garota

 Aquela garota desapareceu, ali onde  o firmamento encontra o que me parecem ser terrenos de sal, aí onde os dois dão mãos e partem para onde quer que esse tipo de gentes vai de férias, por ali, vi-lhe as costas, desenhei-lhe os ombros, mas a pergunta perdura porque ela partiu?, aparentemente partiu para não voltar, mas o cerne das mil perguntas que ecoam na minha mente é indubitavelmente: quem é essa garota?, de onde essa garota veio?, ela escreve umas linhas, e alguém disse, acho que se chamava Internet, não a garota mas quem me disse, que dá aulas num sítio qualquer, acho, não tenho a certeza, aprendi com o tempo, enquanto desaparecia, ela (a garota), não eu, que certezas só têm os palermas, as certezas estão sempre erradas, e mesmo que porventura hoje estejam certas que me adiantam?, qual é a piada sem aquela fracção na equação, sim, sim, a fracção denominada incógnita virtuosa, essa puta de incerteza que tal como sal dá aquele gostinho extra à refeição, a mim e só a mim não o saber alimenta-me a vontade de saber, um ciclo interminável em que somente procuro a minha cauda, a meu rabo branco, para nunca mais encontrar, porque pela esquina do olho vejo-o, mas depois viro, e záu, certeza de o ter visto, esvai-se, urro de frustrado, mas sorrio de: porra tenho algo para fazer, mas fujo ao ponto, como o Mefistófeles dos regadores automáticos de relvados com a incerteza que possa ser água benzida pelo falso santo padre, já agora caros incautos e incautas peço imensa desculpa que tenham sido apanhados no meio deste caos de predicados, agarrem-se às virgulas que não sei quando termina, no entanto se por acaso o sono vier, ou o suspirar de enfartamento perante tal sem sentido, sintam-se livres de se porem a mexer, pode ser?, e não deixem que a porta vos bata no rabo, fugi a sete pés ao cerne da questão, arre engrenagem que emperra, muda de direcção e acelera outra vez para bater numa porta de metal reforçado que me impede de sentir mais do que desapontamento quando digo: aquela garota desapareceu, quem era aquela garota, de onde veio aquela garota, quando partiu, e porque partiu, à porra de vida que quando um pouco de luz me faz sentir quase tão bem quando sol está alto, como me sinto quando a lua me recarrega o sexo, uivo, eu uivo tá?, de tesão feito uivo para as luas, como cão condenado a pisar merda em sarjeta de outras, porque quando me rio pela companhia anónima, fecho os olhos para passar pelas brasas e quando acordo o que vejo?, a garota desapareceu,

  sinto o teu odor puta de transcendência, tem tua mão não tem?, porque a levas-te?


*sem acordo
 JD

LXIV

 - Mil perdões,
 - então porquê?,
 - por isto: puta que pariu a nostalgia,
 - ora?,
 - ando por aqui a deambular pelos tempos do "Contas",
 - doces tempos.



 



*Fuck the System, SOAD

*Sem acordo

Capítulo I. Dia 1 de um amanhã



  Tu és minha boa pastora,

  És uma estrela que me guia,

  És o norte na minha bússola,

  - Odeio-te,

  Como posso ser um perdido?,

  Um abandonado?,

  Quando tu me guias e proteges?.




Quantas vezes não me disseram que isto era um diário, quantas e quantas, indeferidas, redundantes, vazias vezes mo disseram, sem dó nem piedade que isto era um romance, quantas verdades poderiam ser recontadas entre alusões a uma qualquer metafísica, mas sem dó estes homens e mulheres que rastejam num chão imundo me encontram de cântico na garganta,
- é diário?,
- não, – redundante, suplicante, destituído de qualquer formato real, nunca saberei o que é até ao dia em que perecer, nunca ninguém o saberá até ao dia predestinado: aquele em que navego no Lete, antes desse exacto minuto ninguém saberá, nem mesmo eu, o que isto, na falta de melhor vocábulo, é, no entanto sem querer ser mais um daqueles que só concluem inocuidades: é tudo menos um diário,
- é romance?,
- não, – não se calam, insípidos observadores cegos, – não é romance, – destituído de grande parte da minha força de espírito já nem sei o que digo, ergo o maxilar e olho-os, olho-vos, como um homem, despido de alma, não perdida, mas afogada numa avalanche de enfado cognitivo,
do nada pergunta um mundo em uníssono,
- isso é o quê?, – arre, raivas mal contidas brotam de poros aleatórios, que habitam nesta minha pele cheia de pós nas pregas que teimosas pendem, quando uma pergunta tem uma resposta óbvia, a resposta surge mesmo com pólvora molhada, sem cesso, sem olhar para trás, aqui e agora meus caros, a solução ao enigma é: uma incógnita virtuosa, porque em verdade vos digo que sem deixar de ser algo totalmente inócuo, atrevo-me na loucura que me inunda, parida desta raiva que não contenho, a insinuar que este isto é algo muito maior que meu mero diário, ou meu mero romance,
olho para os molhos de folhas na minha frente, em minha secretária, que não é mais que um monte de terra molhada toscamente moldada por minhas rudes mãos tão pouco calejadas, neste vislumbre de realidade pálidas como se censuradas, sem povo para tal penúrias, habituadas às dores de mimos, pouco habituadas ao trabalho de escriba, galguei meio mundo numa demanda egoísta, através de desertos, senti durante o caminhar uma necessidade inerente a qualquer ovelha tresmalhada, a qualquer mamífero sem tecto: dar uma de pensamentos, reunir imagens e sons e coloca-los toscamente em algo que se assemelhe a um manuscrito,
não sou escritor,
se o fosse qualquer tosco com uma caneca ou um pedaço de carvão se denominaria Camões, escrevo como falo, como digo, como conto, sou o que sou, e assim me tornei o que sou nem que o seja somente na retórica que prego ao mundo, amigos, conhecidos, a verdade é que sou um jogral, um contador de estórias, um prodígio de palavras, pobre em vocabulário, mas rico como Judas em ideias, quem me conheceu e está a passar os olhos por este musgo linguístico sorrirá ironicamente, nos seus sofás, esticados como gatos capados, em poltronas de pele, a fazerem aquele som que roça o peido e que assusta a fauna, perto das suas lareiras, de pantufas e robes enfiados, a expelir fumo para o ar, com uma estante de livros atrás, livros que nunca lerá mas sempre terá, tudo isso aliado a um ar de erudição passiva, aquele ar de quem sabe mais do que todos os outros, eles irão rir porque superficialmente me conhecem e com um ar pomposo atiram uma bola de espesso fumo para o ar e entre dentes,
 – inventas cada uma,
assim sendo meus caros, na religiosidade própria de um cão condenado de nada me adianta acreditar em Vós, nada espero da Vossa magnânima presença, nada me será oferecido, mesmo assim não Vos questiono divindade, Ignoro-vos, ferozmente e sem eloquências prodigiosas ignoro-A, desfaso-me de meandros horripilantes e atiro-A para a sarjeta, não penso em Si como um gato chamado Jack não pensa de onde provêm a sua comida, não quero saber, não me interessa, pois eu vivo para perecer, embora não seja homem suficiente para enfiar um balázio na têmpora e acabar com o suplício, ou quiçá seja um pouco mais do que me desenho, pois desistir seria fácil, demasiado fácil na sua dificuldade intrínseca, deveras simples terminar empapado em sangue e meus próprios dejectos, numa cave esquecida, servindo de banquete para ratos e outros que tal, não sou, no entanto, desligado de tudo o que me rodeia, dou comigo sumptuosamente conectado aos pequenos caprichos que equaciono enquanto procuro um sentido, irritante Transcendência esta que me guia, mas que eu ignoro com veemência, sou a chacota das fiandeiras do destino, manco em corrida, fugo da brasa que me queima sem nada adiantar porque onde pisarei amanhã chamas brotam do chão hoje,
desde que emancipei de Vós doce Transcendência embarquei em caminhos que abandonei ao primeiro sinal de emboscada por parte do destino: tentei entoar cantos revolucionários, desmistificar suposições Tolkianas, encantar palavras imbuídas na mesma fonte do arcanismo macabro inerente a  mundos de fantasia, de nada me adiantou, no entanto, trilhar os caminhos outrora abertos por mentes muito mais vastas, ricas e cultas que a minha, de nada me adianta agora, embora sonhe com virtuosismos sou um poço de nefasto, entoei sonhos em menino: cargas prodigiosas de cavalaria apontadas a escudos de infantaria, o sonho de vencer o impossível, muita coisa me foi dita, muitas querelas assombraram meu espírito enquanto divagava na crista de sonhos perdidos mas nada escutei,
– quem és tu?, – perguntam-me com símbolos homens e mulheres através de um espelho baço, no entanto o que se deve questionar e eu faço-o a mim próprio, sem dúvida a derradeira pergunta que me aterroriza nos meus mais macabros sonhos é simplesmente,
 – para onde vou?, – será que sou assim tão diferente dos carneirinhos que possuem este mundo, presumi, ainda presumo que sim, vivo agora, como sempre o fiz: com desejo de respirar noutra época, fecho os olhos por um momento, levo assim a minha mente a trespassar o cheiro a sarjeta no ar que cobre esta já hedionda metafísica, dou por mim muito longe: entre lutas de falanges, onde honra e glória eram a faísca do viver, encontro paisagens que transcendem muito a realidade onde a sarjeta impregna o ar, muitos dizem-me, talvez devesse acatar e simplesmente dizer que sim,
 – nasceste fora de época, – ou então, – nasceste na realidade errada – aquiesço sem nada dizer, continuam, – o teu lugar era no meio de uma horda Viquingue,
 – será?, - fugiu-me, para meu espanto,
imagino, sinto a minha pele arrepiada só de surripiar o vislumbre imaginário que a minha mente cria, o som da tromba a ecoar pelo vale, o toque de carga, mas quem no seu perfeito juízo poderia sonhar estar no meio de tal barbárie?,de algo que pode ser definido como suicídio?,
aparentemente..., mas bem, afinal a vida é a merda que os deuses dispõem,
agora estou velho, com um pé na barca do Letes e outro ainda em terras mortais, quem me cerca, quem procura a minha sapiente, imagino eu, companhia diz-me, com um tom de quem pensa que me pode ordenar,
 – devias pensar em escrever as tuas memórias velhote, – tolos que só sabem martirizar o meu descanso, interrompem-me sempre quando estou a seduzir o velho barqueiro com uma garrafa de uísque, a arma de caça, ou alguma pólvora para a fogueira, tão cansado de ser inquietado, em desespero, dei comigo a acenar em concordância, sempre fiz o que o meu instinto me ditou: mandei à merda pareceres judiciais, sintaxes mórbidas de autoridade e opiniões de estranhos, considerei a moralidade a maior megera, a autoridade de um estado  maior anedota, a força do executivo um hino à fraqueza, ironicamente fui chamado mais vezes do que consigo relembrar de anarquista, mesmo agora, só consigo sorrir, pois nunca soube como definir a palavra anarquista, nunca soube o que sou, não vou começar agora na praia da senilidade,
Arre,
por estas e tantas outras razões incontáveis ou intransmitiveis pelos meus parcos atributos literários nunca tentei iniciar um manuscrito, sempre achei que iria começar a andar em círculos, iria enxovalhar tudo e perder-me no meio de predicados marados,
 – a tua experiencia de vida, – dizem aqueles que são família, – daria um bom livro, – eu sorrio e tento, de novo, embarcar no rio do esquecimento, agarram-me e dizem, – não, – aqui estou e fico para não partir, o tempo escoa muito lentamente e cedi, na velhice cedi, tento agora escrever o que não pode ser passado para papel: um sem número de sensações de um vasto leque de cores, não conseguirei, se, hipoteticamente, tal divague recheado de vicissitudes morais saísse para olhos incautos lerem, em verdade vos digo, além de morrer bacoco e espezinhado, morreria um herege prostituto, um macaco sem galho, um revolucionário sem revolução, um humanista homicida,
arre Vós ò Transcendência,
mas por mais que tente somente encontro incoerentes nefastas memorias, nada de concreto se aflora, tento sofregamente apaziguar as ondas oriundas desta pedra que atirei para o charco da minha mente, preciosismos ou não, como descrever cada acontecimento com a devida precisão?, não sou escritor e não penso em mim como um, sou um mero homem sem nenhum dote em especial, um homem que viveu cada ano da sua vida sob a égide: este é o ano em que tudo cambia (1),
cada história, enfim, deve pelo menos começar pelo princípio, mesmo que arranque pelo fim, o princípio surgira no meio para o meio ocupar a conclusão e a conclusão remeter-nos-à para o início que é o fim, fui claro?, assim sendo começarei pelo inicio, tentarei ser linear, não sou escritor como já referi, o inicio será o principio daquilo que me lembro e do que me recordo, a partir daquele momento que embora não seja o primeiro da minha existência, é talvez o primeiro que recordo e onde pensei e respirei por mim e não como um autómato,
espero sinceramente estar morto quando alguém ler esta camada de musgo e não me podia interessar menos a vossa opinião, simplesmente quero partir, ir para não mais voltar.



*1. Dealema

*Sem acordo