segunda-feira, 30 de abril de 2012

XVIII

Intrigado,



*Sam the Kid, Pacman, Carlão e SP.




 Pacman:

"Meu deus como pode ser tão bom esse mal que tu me fazes
Que me obriga a ir a jogo sem figuras nem ases
Sabendo que não vou ganhar como nunca ganhei
Sabendo que não consigo parar como nunca parei
Como podem magras mãos ficar tão grandes assim
Que as gentes esgravatar cabem dentro de mim
Só pode ser verdade o que me conta a poesia
Eu gosto de gostar e sinto a tua falta todo o dia
Que posso eu fazer se me fazes tão bem/mal
Desafiando as leis da gravidade, a minha moral
O prazer da tua carne tornou-se essencial
Para a minha sanidade, física e mental
Fatal fatalmente o coração sente
E a minha boca mente em ritmo displicente
Escrevo para ti em papel de carta
Tinta preta como a cor dos teus cabelos
Envoltos em tons de violeta
Palavras que nunca direi à tua frente
Aprendi a ser humano haveria eu de ser diferente?
Eu só amo e não reclamo um prémio sem cautela
Fechado numa cela sem chave nem janela
A coisa mais bonita deste planeta
Beleza rara no meio de uma sarjeta
Amor impossível como o Romeu e Julieta
Ao menos sonho contigo e podes crer já não é cheta
Amor não dá, não dá, não dá..."


Rotina


   Ergo-me por irredutível necessidade de me mexer para perceber se ainda respiro, outros sentados em cadeiras velhas com ninhos desenhados a lápis de cera nos ombros observam das sombras, sorriem perante minha batalha, contorço-me em movimentos de inocência lasciva, arrasto-me pelos lençóis, fios de baba caem e molham aquilo que mantém longe olhares pudicos, barba interligada, unida com liquido gelatinoso semi (ainda) molhado, arrasto-me encarquilhado sobre mim mesmo enquanto o sol rasga minha pele com calores paridos de luz inserida nesta minha metafisica catastrófica, neste meu acordar desprezado mas inexorável, ergo-me perante o protesto bradado por ossos e músculos, estico uma mão ainda de olhos cerrados por remelas redondas de cores tristes, acendo o cigarro numa tentativa de apressar o oblivio, pelo primeiro segundo desde fui acordado sorrio pelo envenenar progressivo de meu corpo, enquanto fumos de alcatrão deambulam soltos de amarras por minhas canalizações, me inundam os órgãos internos, sorrio pelo relaxar do corpo, pelo acalmar das vozes de protesto, pelo suavizar das articulações pelo adormecer dos meus sentidos a cada arfar em que mais desperto fico mas menos sinto empiricamente, porra que chão frio, ainda o sinto?, em pé, nu, inundando por súbitas ondas de inocência busco uma toalha para me sondar a cintura e corro para a casa de banho com cigarro a criar um rasto de fumo tal e qual uma locomotiva alimentada a carvão,
    - espelho meu existe alguém mais acabado que eu?,
    olheiras pesadas, crateras criadas por debates internos deitados janela fora pela noite dentro, enrolado sobre mim mesmo numa cama larga e ébria, olho o tecto pejado de insectos mortos de outros tempos mais quentes, batalhas épicas contra meus visitantes nocturnos e eu em cima da cama em saltos marados e destituídos de nobreza com um guardo chuva quebrado, salto em cargas caóticas untadas de barbárie para estilhaçar aqueles pequenos bastardos, e penso, quando tento dormir, penso, e repenso, o quão velho estou, quantos anos me pesam e me curvam a mente, me toldam o espírito, ideias e problemas, questões pertinentes ou levianas, é irrelevante em toda a medida, aqui e agora revejo a cara de um homem torturado por tudo o que de mundano existe, que se revê na dor de outros sem a entender,
    - espelho meu porque não paro de pensar?,
    quero descanso, quero vazio existencial, ataraxia?, hoje?, talvez amanhã, que hoje depois de me despertarem, de me atirarem para esta arena de gladius na mão não existe vazio que me consiga conquistar, minhas ideias são somente minhas, não as posso por sentido de responsabilidade social partilha-las por incautos, possui-me o temor que os atirarei para uma insanidade desenhada com estradas de um único sentido, com dez entradas e uma saída, a saída existe, mas nunca a encontrarás,
    - espelho meu porque não me permites sorrir de vazio?,
    quero sorrir, mas temo, quero caminhar, mas corro, quero viver, mas tudo se move a um ritmo displicente, tudo em aparente aleatório reviver de outras memórias que não as minhas, serei o único que quando acorda pensa no quão bom era dormir?, serei o único estupor que quando revê o mundo, ignorando quiçá o cavalo de porte, treinado para batalhas de outras horas em que se encontra, pensa,
    - mediocridade latente, estupidez presente.

 

 
*este texto não segue o pretenso acordo ortográfico.

domingo, 29 de abril de 2012

XVII

No fim do dia,





*Kill Bill:Vol 1, 2003, realizado por Quentin Tarantino

Balada a um só trago


     – Trago-vos um conto – começa – uma epopeia de alma retirada das maiores profundezas do próprio apocalipse interno de um qualquer Jasmim. Há muitas luas nascia numa terra perdida, num recanto de marasmo, recheado de todo um mar de bacoquismos típicos um imberbe jovem desvinculado de vícios e pertinências, ele nascera como nenhum outro: largado, qual lixo, numa qualquer duna durante a maré baixa, o furor de tal acontecimento em línguas jorrou por toda a estação continuamente, ninguém esquecia tal imagem: um bebé enrolado num lençol de lã, na cova de duas dunas, num profundo sono, embalado pela doce canção cantada pela maresia oriunda do imenso mar. Rumores saltavam de boca em boca; como o caso do corno manso do vizinho do Sr. Manuel; uns diziam entre rarefeitos esgares de estupidez que era Leviatã, outros corrigiam e diziam que era profeta, todos concordavam que coisa boa não seria com garantia. Com anos passados incauto momento foi esquecido. Vivências e ocorrências ocuparam a mente do desnorteado povo, povinho diriam os mais duros de voz, com os anos o infame bebé em jovem tinha desflorado: a idade amadurecido a face e o corpo – carne tenra inda – diria mais a Sra. Alzira. Quando idade para compreender o atingira, fora-lhe contado por quem guarda lhe deu o seu estranho surgimento ao mundo, jovem de bases riu-se de tal verdade e tal idiotice popular, mas em verdade vos digo não por muito tempo, pois meu caros, sem destoar da estória com um ou outro preciosismo de história, uma maldição ocupou o coração de nosso jovem pára-quedista de vida, numa vida tudo é relativo, nosso Jasmim compreendeu o mundo que lhe fora apresentado, mas nunca nada o preparou para os pesares do coração, e como ele pesa meus caros com a violência do martelo na bigorna do ferreiro da praça, isto vos digo em boa verdade: Jasmim, nome lhe dado na iluminação da Transcendência por seus pais incoerentemente apaixonou-se, natural dizem vocês, concordo, mas cedo percebeu que nada era mais duro do que a dor de coração, mais uma vez, os anos arrastaram-se e com eles as frustrações do peito do nosso jovem, frustrações por uma mulher atirada para ele por uma fiandeira do destino, que entre intervalos de luxúria se ria da dor que causara, arre invalida Transcendência, com o ditar do tempo sem nada esperar; quer dizer, qualquer um se não rendido a tão mirabolante mulher saberia, mas não Jasmim: para tudo demais cego, para tudo sem vista, quase cem olhos não chegariam para tamanha cegueira, no entanto, com a violência do relâmpago de Zeus tudo terminou abruptamente, arre dores de um outro mundo, arre transtornos disléxicos de todo um turbilhão de emoções, o que antes fora coração aberto numa pedra de lava seca se tornara, numa viagem, num apocalipse interno Jasmim arrancara seu próprio coração ardente de paixão e queimara-o na cascata do rio que nunca desagua e deambula para cair no próprio inferno, arrancado da base de seu amor-próprio, cedeu à célere batuta popular deste mundo e do outro: dançou com Hades na barca do rio do esquecimento, em carnavais de mascaras participou com o próprio Set, de menino doce a jovem negro parco tempo correra na montra do mundo, desgarrado de sensações, separado de si próprio e preso à maldição que caminha com ele, traçada por seu próprio povo, meses duros neste planalto passam, Jasmim esgotado, seu peito nada acolhera a não ser ódio, amor sem ódio não vive, a linha é ténue, no entanto muitas vezes basta um olhar para cruza-la, mas num peito sem coração só ódio subsiste alimentando-se da carne envolvente de um homem esgotado, derrotado, sem norte, sem vontade para de novo respirar. Um dia como tantos outros inexoravelmente nasce na petulância do raiar da manha, com ele – quando termina? – Proferido de dor que o marcava a fogo e tons de laranja, ele compreendeu à custa de muito nevoeiro e horas de buscas sem grado o poder que as mulheres têm sob esta metafísica: mulheres desviam histórias, desviam rios, param marés, constroem mundos e destroem homens, nunca poderemos viver sem elas, tal a sua perfeição, quando as temos desejamos que elas fujam durante breves momentos e escondemo-lo na nossa mente, quando não as temos é como um jorro de sangue que nos enfraquece e prostra de joelhos para sermos levados para uma próxima vida, Jasmim sem norte deambula numa qualquer noite igual a tantos centos de outras, empapado de suor, sente o coração a bater mais uma vez, sente a dor a fugir como um Maiar tomado pela luxúria do orgasmo, nos céus a estrela do norte surge petulante e brilha com uma pujança nunca antes vista, em largos meses nunca sorrira, a ampulheta virou incontáveis vezes nunca a felicidade, no entanto, entrara no rosto polido em mármore do insano Jasmim, mas perante tal hino, um mundo novo se rendera a ele, virou as costas a tudo o que fora e abriu os braços a tudo o que será, sem reticencias, sem pertinências, sem hesitações, sem reminiscências, medo? Um milhão por defeito, mas perante o puro jorro de alegria da sua mera visão, a perfeição de um sorriso, qual Fénix Jasmim renasceu, acredita agora piamente. Tudo isto interessa para quê? Para nada, o que realmente importa é que o coração bate novamente desenfreadamente, que a mente se perde na lascívia do encontro de lábios, que o tempo pára impotente perante um só olhar de tal pertinência, que um novo paraíso grita agora para ele. Paixão surge, aproveita, enquanto a fatídica vela não surge no horizonte.

 

 

 
*este texto não segue o tal acordo ortográfico.

 

sábado, 28 de abril de 2012

XVI

Delicio-me,








*Palavras da autoria de Viriato Ventura no álbum Praticamente de Sam the Kid.

Bifurcação

    - Quem é?, - ninguém responde, lá fora somente o vento que embate em rebuliço contra as persianas mal penduradas, a porta ginga e grunhe em sons que lembram coelhos recém nascidos, incha na minha direcção, eu cedo e espreito, da penumbra ergo o olhar por curiosidade insatisfeita, enrolado entre um cobertor cheio de pó, e uma gata farfalhuda, com uma cauda que não desiste de me coçar o nariz, faz-me lembrar um daqueles espanadores espampanantes, - quem é?,
o vento ulula insatisfeito com algo, a chuva trepida com ganas de conquista, os relâmpagos oferecem-me lampejos de luz não procurados, ninguém me responde, nada cede,  nenhuma personagem de filme marado surge para me oferecer paz, nenhum demónio parido da obra de Dante, nenhum ser nascido do caos de Holliwood, nada nem ninguém sai da penumbra externa, conquista o vento, evita a chuva, se esconde da luz dos relâmpagos,
     - quem é? – insisto irrequieto, a roer unhas amarelas e gastas, acendo um cigarro, um Ventil, desvio a gata, afasto o cobertor, levanto-me, furtivo, caminho rumo à porta, penso perguntar de novo, mas acobardo-me, agora talvez alguém respondesse, algo se mostrasse a mim e eu não quero convidados a esta hora, quero ataraxia conquistada e merecida através de um mar de dores e maleitas físicas e mentais, arre, - quem é?,
     Silêncio macabro, o vento suprimido, a chuva já não se sente, ouço, no entanto, o gotejar sistemático da ocasional gota da caleira para chão, da persiana para o chão, dos recônditos esconderijos escarafunchados na porta de madeira para o chão. Paro ante a porta, nada se sente, nada se ouve, os ouvidos estalam numa frequência desconhecida, detecto sons que nunca antes encontrara, o esfregar contínuo das moscas que dançavam à minha volta, param, sentam-se para uma xícara de chá, mas antes esfregam as patitas em movimentos ascendentes e descendentes, curiosamente pareciam orar, talvez ao Lord of the Flies de 63, movimentos rápidos de outros bichos e bichas retirados de argumentos de filmes de terror que surgiam nas pequenas bolsas de luz à minha volta, encadeadas corriam para a escuridão, o guinchar sôfrego de ratos e ratas, centopeias e percevejos no sótão, e eu parado ante a porta, em espera por algo, mas nem vento, chuva, ou relâmpago me elucidam o quê,
      - quem é? – o medo vence-me ou conquisto-o?, tranco a porta, e vou dormir, - que se fodam os oprimidos, daqui não saio, gritem o quanto quiserem.



*este texto não segue as regras do novo pretenso acordo ortográfico.

 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

XV

Canto,


Flagelo Pessoal


    Nada de real, tudo em ritmos de filme noir, não tenho onde me agarrar a não ser em alguns casos dispares um,
    - foste tu que fumas-te na sanita – em tom infantil e irritante de bichos e bichas que mergulham na minha metafísica e parecem retirados do fundo de um caleidoscópio de macacos e macacas antiquados que ainda elevam o dedo mindinho para tomar o chá, em velocidade frenética em alguns dias, em velocidade pastosa outros, olho em redor para compreender que a verdade que me visita agora, pode, melhor nunca poderá ser a verdade que me guiará naquele destino predestinado por vós ó fiandeiras desfloradas, em minha volta contextos surgem, novos rumos no argumento onde eu sentado e acomodado com perninha cruzada em clara conotação homossexual, mas confiança suficiente para ser irrelevante, revela-se a mim uma tela recheada de miragens existenciais, preso onde não quero estar com a mesma velocidade que observo e cuspo para o que o vejo, odeio-me na mesma perspectiva que me considero no limiar da loucura, mas será uma pessoa que se odeia ou no limiar da loucura capaz de se aperceber de ambas as plenitudes, as duas faces da moeda,
    - és mesmo mau! – Outra voz, seguida de uma segunda igual à outra,
    - mau!,
    mau porquê? Porque o mundo que ergui à minha volta desapareceu em prol de uma visão sociológica que me dá vontade de rebentar os miolos a cada três dias? Por isso é que sou mau? Afinal sou um ser humano ou um dejecto, serei merda com pernas e não saberei? Perguntas e mais perguntas, perguntas para as quais nunca encontrarei uma resposta digna.
    Atirado para uma metafísica que me rebenta as costuras, rumo e rumo tentando encontrar um deserto na Amazónia para bater com a cabeça em rios pejados de jacarés. Não sei por onde pesquisar, não sei onde entrar agora ou nunca, não sei que rumo devo perseguir, mas a cada dia que passa, cada vez que tento engolir o filho da puta do orgulho e me desvincular da necessidade de morrer que me inunda mal abro os olhos constato a única realidade possível,
    - de quem caralho é esta metafísica, pois com certeza não é a minha – nada do que me rodeia eu quereria nem que amaldiçoadas com o toque de Midas, nada do que tenho quero, mas como hábitos de antigo promíscuo são difíceis de destruir, a verdade é que não vejo maneira de me desvincular dela, como destruir um sitio cujo alicerces parecem sólidos e simpáticos, mas o resto do barraco foi usado e decorado por outro, esse outro que nem tem uma mínima pista de como funciona quem começou a coisa.
    Um ciclo horrível, vicioso, uma demanda sem nexo que me obriga a entrar em círculos cada vez mais largos proporcionais à onda de auto flagelação que vai surgindo e quebrando bem forte na minha mente, bem no meio do centro de emoções,
    - quem vos convidou foda-se? – Arre – quem te mandou embora minha solidão? – Não sei, não sei, não sei. Só sei que nada sei, cliché? A sabedoria popular nunca sai de moda.
    O grito ecoa por aqui, meu, teu, vosso, nosso, arre se me importo só me pergunto quem pegou em meu mundo e o desconstruiu de tal forma que tenho que correr feito louco até estourar os pulmões para um mero vislumbre do que antes tinha, sexo não paga os sacrifícios.
    Amor é um mito, é um estado de espírito, uma necessidade supérflua. A enrascada só obtêm proporções absolutamente académicas quando eu percebo que em toda a medida me encontro totalmente atado onde estou agora, não me posso mexer nem um milímetro, se quiser no entanto posso me libertar mas se o fizer destruo o pouco me resta e os alicerces caem e com eles tudo o resto: o que eu quero e amo, o que eu já não quero, tudo numa mescla de cães, gatos e coelhos para jamais ser recuperado, para se tornar uma mera sombra.
    Nas sombras vivo eu, a verdade de mim próprio, aquele que realmente aparece quando a necessidade ou o flagelo de nadas que me rodeia o chama com a devida veemência, não sei para onde rumar, não sei que caminho seguir, não sei se desisto ou aguento, mais uma vez e juro-vos que não será a última, só sei que nada sei.
    Sei que ainda cá estou. 




*este texto não segue o pretenso acordo ortográfico.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

XIV

Um cravo para ti,



*Charlie Haden

quarta-feira, 25 de abril de 2012

XIII

Rendo-me,



Pacman

Gatos gordos


 
      Ontem entreguei-me ao paiva,
    - uhhh – apupam conservadores de direita enclausurados em freguesias imersas em pó, cercados de móveis pesados que à primeira vista, neste olhar de quem nada sabe, diria com sapiência crua estampada, inócua no final da recta,
    - parecem barrocos,
    - uhhh – apupam ainda mais alto, veteranos de guerra civil entre bairros, coxos com dentes mal lavados, com gengivites e mau hálito, com escorbutos crónicos, sífilis e outras demais para fechar o ciclo,
    entreguei-me docemente ao paiva,
    - ,
    - calem-se – interrompi eu,
    não quero saber da vossa critica, da vossa cara cheia de bexigas,
    - ontem vi-os deitados a jogar às cartas e a fumar tabaco estrangeiro num palheiro cheiro de percevejos,
    acredito, acredito que esses pobres que ao longe parecem árvores de natal de orfanato, erectas em falsa nobreza, com os ramos castanhos nas pontas e largar agulhas, enquanto se coçam como as cadelas com cios perversos, equipadas de carrapatos e pulgas, acredito caro amigo que se estivessem a deliciar com caro tabaco importado, comprado por duas coroas da parca pensão que o estado social lhes providencia, somente para os manter calados e agarrados a coisas de alta sociedade, coisas que não entendem, mas seriamente pensam que sim,
    - tás a ver?,
    - sim,
    como vida, como respirar, sentam-se de cu branco e descaído em fardos de palha comprimida e erguem o pé, a bacia chia queixosa, levada ao limite da sua engrenagem, e coçam com força, mui bem, impetuosamente a mancha castanha com um forte odor a bedum, ao longe parece rum seco, arre que afinal cheira a rum, mas coçam e coçam sem pararem, até o castanho dar em vermelho, até cabeçinhas vermelhas de sangue parido da fricção começarem a arrebitar, a brotar atrás das orelhas,
    - isso faz-te mal, reduz-te a capacidade como cidadão activo, tás a ver?
    - o quê?, o paiva?,
    - sim, isso faz-te mal e o cigarro também, mas é melhor, mais seguro, estes ainda não dizem que mata, eu até acho que me fazem bem ao sangue, circula melhor, tás a ver?
    - Juca isso é o vinho,
    - é?
    - pelo menos foi que o meu médico de família me disse lá na casa de saúde,
    - pronto, pronto, mas isso rapaz faz-te mal,
    sentados no meio de pirilampos sujos, de vacas magras, de bois moribundos, de ovelhas nuas, nem me apetece retorquir quero lá saber,
    - um prazer, meu prazer, prefiro partir antes e reter meus prazeres do que viver mais e proibir-me deles, destruir-me é o meu maior prazer – estupefacção estampada, isqueiros perto de palhas secas, fósforos de marcas nacionais a fumegar em montes de palha estaladiça, cinzeiros esquecidos com beatas ainda mal apagadas – adoro legos,
    - legos?
    - sim aqueles coisas amarelas ou doutras cores que encaixam umas nas outros,
    - ah, tou a ver, faz-te melhor do que isso que tens na boca,
    - não interessa, mas sabes porque gosto de legos?
    - não tou a ver,
    - porque depois de construir posso destruir,
    - ,
    - não me interrompas por favor, que já são onze e tenho onde estar daqui a pouco, meu corpo, meu templo, meu maior prazer são inerentes, são primos, tás a ver?, aqueles vícios que me destroem, me conspurcam, destronam a saúde do seu trono intocável, percebes?, quero lá saber de anos, dos vindouros, que se fodam os vindouros, eu quero ser feliz agora, portanto chego a casa, visto o robe escarlate, instalo-me numa poltrona cor de pele, gasta pelo anos de hemorróidas em roça roça com o tecido, aquelas poltronas que fazem aquele som de peido, de pantufas farfalhudas, com o Publico numa mão, com um copo de licor na outra, com a televisão no Câmara Clara e destruo-me, muito lentamente entrego-me ao oblívio, tás a ver, de paiva na boca, mato-me aos pedaços, pedaços visíveis pelo olho humano, mas no fim é minha escolha, meu prazer e ainda não me podes tirar isso,
    - uhhhh – continuam a apupar.

 



*não segue o acordo ortográfico.

terça-feira, 24 de abril de 2012

XII

Uso propício,








*Pulp Fiction, 1994, realizado por Quentin Tarantino

Aspegic


    Uma folha em branco, igual a tantas outras, semelhante que igual não é com certeza, aparto-me da necessidade intrínseca de me entregar a feras líricas, más líricas, rudimentares líricas, presumo nada de derrames aleatórios movidos pelo caos, mas afinal o acaso não é mito?, é e não é, em dias pares digo-o que sim, que somente nada existe por revelar, que fiandeiras em mui vastas casas ornamentadas de tons dourados, de cortinas da mais rica caxemira violeta, dentro de desafogadas salas nuas de pragmatismo se desmontam em presunções e consequências, em acto e contrariedade, sentam-se em bancos acastanhados, alampa-se, espregiçam-se, as mais rudes, de pés chatos e grossos, e pelo no pescoço, de sovaco negro como breu, de narinas largas e empinadas, bufam dores macarrónicas e estalam ossos para depois se juntarem a suas irmãs e tecerem, meu, teu, vosso destino, acto consequência, inacção consequência, sim consequência, não consequência, tudo muito bem alinhavado em quilómetros de pano oriundo das Rotas da China, antes da China ser da bitola popular como loja dos trezentos, em dias ímpares, todavia, atiro minhas próprias doutrinas para janelas de sexto andar, pregando impróprios, dizendo a elas e a mim,
    - espero que chegue a puta da queda,
    nesses dias acredito no acaso como mero acto aleatório que formula a consequência aleatória, que promove por sua vez todo um dominó previsível pela consequência genérica em si, jamais pelo seu conteúdo, sim e não brotam com a mesma sorte de homens atirados borda fora no mar encrespado de Bering.
    Com tanta inconsequência perdi o rumo, mas também o ignoro.
    O dia cinza que se atreve a entrar pela janela, e faz peito o filho da puta, fecho a persiana por ódio passivo, mas ele infiltra-se como leite em pó e chateia-me, toca-me no braço,
    - que estás a fazer, estás a ler?
    arre, inconsequência casuística, mera demanda por sanidade, nada mais, somente ar me aparece a ultrapassar pela direita, esta demanda por sanidade, mas como é possível?, quando somente o insano me parece digno de atenção, alguém diz e não fui eu,
    - dói-me a cabeça, tomei uma aspirina, mas tal como o Carlos do Castro prefiro-a em pó – silêncio – nem me dói a cabeça, só queria mesmo dar esta,
    eu rio-me, tem mal?, mas rio da sátira horrível e nojenta, agressiva, mas por meros segundos amo-a e depois guardo-a para partilhar com quem a queira,
    - estás-te completamente a cagar para a metafísica dos costumes,
    - uns dias diria que sim, outros não, - arre no que ficamos então, quero ir embora, procuro espelhos, para os evitar, pois temo que reflexos me arrastem para um circo macabro, onde realmente alguém me obriga a responder,
- o que raio pretendes no fim deste rosário que toca o eucarístico? – não resisto, mordo o lábio com força, inspiro e pensa em borboletas a correr na planície africana, sim a correr, concluo,
- não está a resultar, - inspiro de novo conto dez segundos, mil e um, mil e dois, mil e três – merda, pergunta lá o que queres,
- o que estás para aí a dizer pá?, - já sabia onde isto ia desaguar, citando de novo alguém que não eu, o mesmo de à pouco, em verdade, retruco com um sorriso traquina onde ainda se consegue encontrar uma sombra da minha e só minha condição humana,
- é merda pá o que haveria de ser, agora põe-te andar que esta lareira é minha.




*não segue o acordo ortográfico

segunda-feira, 23 de abril de 2012

XI

   "Pensa Porque é que me enervo tanto, porque raio é que me enervo tanto com os outros por nada? De repente, sem aviso, sem controle, uma onda de fúria dentro de mim, os testículos incham, as tripas torcem-se de gases, um formigueiro esquisito atinge-me os dedos, e principio, sem motivo, a gritar.
   - Cão que ladra não morde - diz a Tucha como que deformada por um desses espelhos ondulados das férias, num fundo de gargalhadas e guinchos. - Se não sais tu saio eu - acrescenta tranquilamente a enrolar um charro. As pernas bem feitas continuavam cruzadas na posição do costume, as pálpebras descidas alargavam meias-luas de sombra nas bochechas. Pensa És tão bonita. Pensa O que é que os meus pais vão comentar disto tudo?"


*Excerto retirado da obra Explicação dos Pássaros, de António Lobo Antunes.
 

X

Comido por mim próprio tal e qual bicho quando acaba a maça,



Taxi driver, 1976, Martin Scorsese

Minha Valquíria


    Minha Valquíria, minha guerreira amansa-me aqui e agora em vaga introspecção.
    A cada acordar ainda sem despertar, invicta que me aquece sob tímidos raios noviços que a moldam na forma que tomará com o passar dos minutos do ainda hoje, um sol que ainda fresco crescerá avassalador, aterrador e eu também como ele acordo ainda não desperto: olho-me da janela em busca da mim mesmo de saias, em busca de vós, não tu minha Transcendência, em busca dela: minha Valquíria, o cheiro dela que me atormenta como cão condenado a viver sem coleira, como John Coltrane sem saxofone, como BB King sem Lucille,
    - preciso de ti, anda ter comigo entre afagos de ternura triste como a masturbação a frio por aquele orgasmo que chega como onda de rio,
    - hum que me vim, tão bom – sacudidela de desdém enfia-la nas calças de ganga azul e resmunga sem dó de pio – que merda preciso de vós – não por meu ou seu sexo, não por luxúria quente, não por raquítico desejo adolescente, preciso de ti minha Valquíria porque sem ti não existe renovação parlamentar que faça sentido, não existe semântica platónica: nada me vale daí, nem cair em vicissitudes românticas, nem quero mesmo procura-las,
    - Caralho – minha guerreira, minha dominadora de homens, minha conquistadora de além, quero-a para ser minha sem pedestal onde a eleve, somente para minha ser, para olha-la, come-la com olhos de quem tem quem quer desejar, toldo-me na jaula deste quarto impregnado de gemidos opacos de noites de sexo colado por ausências de emoção que me valham além do descarregar de esperma física entre orgasmos entrecortados por arfares disléxicos e esgares de prazer tonto, de elevares de bacia em arco de descontrolo corpóreo, de coitos sós, de garrafa de uísque que teima em descer, de cigarro que se come sem lassidão, de cinzeiro nauseabundo acumulado de cinzas e paivas meio queimados de impaciência de quem só, mesmo com visita apaparicada nua, sentada no colo empalando-se de lança minha, mesmo aí: só, que me adiantam as mulheres, as marés, o uísque, o cigarro, o pénis, os orgasmos quando não tenho minha Valquíria para comer com os olhos, para amansar com a boca, para percorrer com a ponta do dedo indicador, naquele toque que arranha algumas vezes, não muitas, quando a ponta da unha amarela de cigarro adere a sua pele morena e tensa,
- onde estás? – Pessoas de mãos dadas com o despertar da invicta banhada de luz branca puritana, pessoas altas, baixas, assim-assim, brancas, pretas, amarelas, sãs, doentes, ricas, pobres, nojentas, atraentes, enfim: uma mistela de sabores irreais, de sabores de gelado que se come de olhos cozidos com guita, mas afinal de ti nem sinal: minha mulher, meu sexo,
    - então pá? – Camaradas de borrasca que se aproximava de nosso e meu sagrado barlavento num amor de explosões e fogo de desmaterializarem burocracias onde engordavam gatos já balofos de entre os de nós: mui ilustre povo lusitano, olho em volta para tal requintado grupo de ideias de ponta esquerda com um toque de aristocracia monárquica e não é quando um contacto visual destoa de tudo resto e como-a, como-a com uma fome de gato, agora, magro em época de cio, a luz lambia-a com uma sensualidade quase tenebrosa oriunda de fogueira tesa de ímpeto entre faúlhas carnavalescas, o céu abre-se em dois vales só para mim, ou assim imagino, até ao Baco adornei uma reza de ateu, acho que no entanto me esqueci de um JC não? Ou JB é isso. Emborquei o líquido como membro de clube de mão fria e avanço para onde coração marcava compasso: encontrei-a minha Valquíria, meu doce limão, meu azedo morango, meu pedaço em falta.
    Finalmente no ribombar da madrugada em que todos sairemos à rua a horas marcadas encontrei-te, mesmo, sem ser a primeira é sem dúvida a primeira vez que realmente significa algo para mim, quando adorno em Godinho ao dizer – este é o primeiro dia do resto da minha vida.

 

 
*na redundância, este pedaço de coisa não cumpre o sagrado acordo ortográfico.

domingo, 22 de abril de 2012

IX

Trinta e três voltinhas por minuto,



Munich, 2005, realizado por Steven Spielberg.

Sistema Representativo


     Na semântica própria de um sem arauto, de uma insignificância extrema desligado de possessões mundanas e em claro desmazelo de corcundas de Notre Dame, desmazelo não por mim mas por todos os outros que não se cuidam: não visitam o oftalmologista mês sim, mês não, para dentro procurarem corcundas de Notre Dame e outras maleitas físicas ou de alma, ou meras alminhas; os olhos são o espelho da alma reza o tão imposto cliché em mundo que roda sem eixo, meu mundo não tem eixos nem rodinhas como aquelas que os putos têm para aprender como equilibrar aqueles montes de ferro os quais nunca soube denominar,
- mas o mundo sem eixos realmente é o quê? Cheira a quê? – perguntam vossemecês arribados de cus brancos como mármore polida, arribados em casas de banho senhoriais, em casas de colonos, casas de banho de pura porcelana importada dos mais excelsos importadores de porcelana, mas mais importante, tão ou mais importantes que tudo o que aqui segredamos em tom bífido: são importadores de porcelana para casa de banho somente, assim sendo meus caros não são como aqueles outros importadores não especializados em porcelana para casa de banho porque fazem de tudo um pouco, não são como aqueles mesquinhos mestiços pretos e vagabundos que importam tudo e que parecendo não é porcelana de casa de banho, vossemecês nobres alapados de cu majestoso acompanhados de um sol que arrebita de pródiga janela manuelina, em suas casas de banho principescas, únicas, olhais-me de deleite irrisório, de ignorância noviça, de pena calculista, olhais-me como quem olha a plebe e só de olhar já vos cheira a plebe mal cheirosa: que fedor até a mim que cá estou, sim, formatado ou não, quiçá, me cheira a plebe e putas desvirtuadas, também eu fedo a putas, a lixo sem paixão, a sexo de bebé, a sexo de bate e arrebita como a onda a partir na areia húmida da praia do rio do João mestre, cheiro a desvinculado, a amor de mim mesmo, cheiro a incongruências de vós,
- Lobo Antunes? Saramago? Marquez? – quem será meu pai porque tu minha Puta de Transcendência, tu que me ofereces este mundo sem eixo que me valha a santíssima merda para não rodar na mesma, pois vossemecê assim como tu mundo sem eixo não mereces um chavelho pentelho em agradecimento: pentelho ruivo, preto, louro, violeta nem um minha grandessíssima cabra.
    Cansado de nobres: de cães que comem de tachos a merda que nós precisamos, cansado de todo um sistema corrompido por ou sem ideal nunca soube, corrompido até ao âmago,
- representação onde?
    - No cu de Judas – grita alguém, ora aí está, pessoas: velhos, novos, velhos cultos ou burros que nem portas que nunca abrem ou fecham ao contrário, porque as outras até sabem da poda, este nosso canto à beira-mar, este nosso filete linguarudo que gato europeu se achega e snifa, snifa, torce os bigodes naquele trejeito de que não cheira assim tão bem, com montinhos ao largo no temível atlântico pegado ainda de Adamastor, duas línguas agora pelo menos não? Filhas de cão de focinho fofo, felpudo como recém-nascido que se preze e lhes disseram em linguagem de canino,
–leite é que está a dar, vamos modernizar isto – investimento de vigor de homens sem ouro negro, ano passa,
- quotas? Onde estão? Não estão, ora foda-se – leite rua abaixo que neste planalto de existência, neste nosso pináculo metafísico não existe fome, pobreza ou dor, leite borda fora porque quotas são mais que vida,
- país de merda,
- cala-te Jacinto, tento na língua,
- jamais. Mais tento? – nunca digas nunca, mas eu digo numa cedência de sons hipnóticos, desvairados, desarticulados mas tão melodiosos como o impacto entre pénis sedento e vagina húmida já alargada para vos receber a vós, a mim, a nós, pronta para ser fodida, comida, engolida, bebida, o que me der na real gana.
Se sou porco paciência. Sou um porco sedento de sangue suor e lágrimas,
- avé Churchill – gato nesta noite tão distinta, nesta noite em que o berro ecoa pelas terras habitadas por divindades ocultas, nesta merda de país com sistema representativo meus amigos: uns, dois, três, só para citar os que me lembro – mas representativo onde?
- Disciplina de voto porquê?
- Foda-se tens razão, vou preocupar-me para quê então? Não há nada a fazer – upa e sai mais um a enterrar-se desesperado em pernas de mulher abertas que como água que desenha para mim gatafunhos na areia da praia e buraquinhos que surgem de onde desterram-se bichos e bichas estranhas, aquela boca de fornalha infernal sorri-lhe sequiosa,
- sorri porquê? – mistério de Fátima.
Pronto a prostrar-se da maneira que eu ordenar do alto do meu cavalo e para ser tolhida por pénis longe de chocho ou de pindérico de pegas de peles moles, sinto-me passivo,
- de quatro e sem guincho que seja – ela escarafuncha, trinca a língua até sangrar, enfia a cabeça na almofada, puxo-lhe os cabelos arranco-lhe uma molhada e entro mais fundo, mais fundo que parece que encontro luz ao fundo do túnel,
- aí nosso senhor jesus cristo – dizem as irmãs carmelitas enquanto rompem os joelhos na madeira sem ninguém por trás, ninguém que lhes faça trincar a língua, padres demasiado ocupados assim como sistema representativo a contar as esmolas e a engordar com bolachas de dízima batidas em castelo.
Tudo podre. Tudo a cair aos pedaços. Tudo com cheiro de bolor: todo um sistema representativo onde quem escolhemos caga em nós e ama, bajula seus santos iluminados líderes partidários,
- e a vontade da plebe pá que os escolhe – formatados, agarrados a tachos com bifes com bom molho lusitano, em clero que ainda rouba famílias impunemente tão ou mais como eu quando ultrapasso o limite de velocidade, como eu me traio a mim próprio entre putas que me destroem para remontar de seguida de barriga onde eram pés e pés onde eram orelhas,
- devíamos rebenta-los,
- devíamos estar unidos,
- devíamos parar,
- devíamos sair daqui – devíamos, devíamos, devíamos e porque não fazemos: uns, dois e três porque não?
- Não sei,
- não sei,
- não sei,
eu digo-vos meus caralhos,
- porque o fácil é alapar os nossos aristocráticos, fedorentos cus nas casas de banho de outros bem mais cheirosos e mergulharmos a nossa cabeça na merda que escorre pastosa como magma, como Vivaldi ao ouvido, pila mole em vez de a elevarmos a berrar unos como não formatados, desligados de tudo o que se diz normal e berrar: hei seus institucionalizados em gabinetes de prata com ar condicionado e outros afins igualmente necessários: como carro de ministro que desvia ambulância, ide para o caralho nós vemos o que estais a fazer, queremos ser escutados, ou pelo menos tenham a decência de fazer de conta, queremos agora ou, - pernas de mulheres e traçadinhos e eu choro, não me perguntem porquê ou como mas amanha rebentamos esta merda de canto a canto,
- hurra – berram rostos rebeldes,
morte que ecoa por meu intestino grosso, tripas que me remoem no cheiro a sangue suor e lágrimas, um amanha sangrento, um amanhecer vermelho como nosso sangue que procura alimento no eco de descontento que se aflora a nossas gargantas.

 

 

 
*este texto não segue as regras do absolutamente fantástico, que mui bem protege e ressalva o ilustre peito lusitano acordo ortográfico.

sábado, 21 de abril de 2012

VIII

"Gosto das pias baptismais, dos armários, do Alto de são João, que vejo da cozinha e que se me afigura uma notável combinação do Portugal dos pequeninos com o cemitério dos cães do Jardim Zoológico, em honra do ciclo do azoto. E depois que alívio, percebe, não se vê o mar, não existe o perigo de os olhos se alongarem para o horizonte em busca de ilhas à deriva ou dos inquietantes veleiros de aventura interior, sempre prontos a aparelharem para a Índia de um sonho."


*excerto retirado da obra Os cus de Judas, de António Lobo Antunes.

VII

Auréolas de fumo para o ar,

 


*Cinematic não incluída (pelo que eu vi) no RPG Dragon Age II

Ode ao suplício suícida


    Três e quarenta e dois da manha sentado ao frio nesta minha velha amante de hemorróidas: minha cadeira, minha companhia – foda-se que me apetece fumar – não tenho tabaco – foda-se que me apetece um uísque – não tenho uísque – foda-se que me apetece uma cerveja fresca – não tenho cerveja fresca – foda-se que me apetece uma cerveja – não tenho cerveja – foda-se que me apetece galgar mundos de fantasia num qualquer RPG onde me posso perder – foda-se não tenho portátil – sabes uma coisa Puta de Transcendência? Foda-se para ti também.
A casualidade da situação deve-se à minha própria derivada imberbe ò passiva de me armar em cabrão, penso por vezes que sofro de disfunção eréctil mas não serei muito novo para isso? Ou será porque vivo uma mentira? Será porque me convenço que amo o que profundamente me irrita? Quantas vezes não dou comigo escondido na casa de banho como ratinho a fugir de gato siamês a resmungar entre dentes para aquele voz estridente que conta com o espanto da idiotice coisas completamente parvas e ilusões de retórica demagógica – cala-te caralho – digo para meu próprio reflexo.
    Uma garrafa de Eristoff vodka vazia, duas de Highland Clan uísque também eles vazias – bardamerda – empurro seus gargalos secos para dentro de minha desejosa como vulva em cio boca e sugo quaisquer gotas que inundam como resquícios esquecidos os invólucros de vidro, olho-me em reflexos mentais e vomito golfadas de merda.
    Assusta-me o quão cru escrevinho estes dias, sem cuidados em esconder preciosismos da gíria lusitana entre palavras de profunda conexão ao erudito chuto para vós como homem a quem não interessa minimamente vossa opinião estas bitolas de ilusionismo semântico e comam meus caros comam esta merda bebam-na como sémen de cavalo de cão condenado.
     - Ide para o caralho meus grandíssimos filhos da puta, ide não voltem, podeis todos morrer nos quintos dos infernos de minha própria transcendência, não estou nem ai. Sois cabrões todos vocês, sois uma cambada de putas de merda, melhor não quero ofender as putas honestas, sois umas putinhas de merda que abrem a pernas porque já tendes o vício, seus cabrões de merda, chulos e cabrões. Arre porra, alguém me encoste uma Glock à têmpora e acabe a merda deste suplício.





*isto não segue o pretenso acordo ortográfico, nem as regras de boa educação aparentemente.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

VI

Transcendência,



*Braveheart, 1995, realizado por Mel Gibson

Adorno Belicista


     Prega-se a carnificina, o caos perdido no meio de um espaço desorganizado de real semântica, tudo se destitui de sentido, não existe uma concessão de lógica real, não existe uma criação somente destruição devassa, desnecessária, para muitos tão necessária como a simples das mais singelas decisões humanas, guerra, como se justifica a luta armada, como se compreende a necessidade de pegar em mil homens e envia-los para a morte certa, como se aplica a necessidade ao mundo real sem cair no âmbito da destruição humana, como se pode em alguma era amar a guerra e o que dela sua a custo, como onde e quando algum dia poderemos abençoar a dor, sangue e lágrimas que parem do meio de suas pernas enegrecidas pela fuligem de corpos que ardem em valas comuns, como amortecer a raiva que se irá alimentar do ódio de quem mata e viola o que e quem amamos, como enterrar o ciclo, como quebrar a dinâmica que se cria à volta de um pequeno acto belicista, quando devemos pegar nos fuzis e marchar a uma só voz, quando? Quando? Não interessa, o porquê esbate qualquer outra necessidade, o porquê ergue-se na pirâmide para chegar bem alto, tenebrosamente alto, o porquê é o que realmente importa, o porquê é a real questão, a única pertinência que se ergue e se levanta no horizonte, nada mais interessa, tudo se deve a esta esquina, se a dobramos, se viramos a esquina e caminhamos sem olhar para trás uma só vez o caos subsistirá, a morte e destruição proliferarão e possuirão esta nossa metafísica que à falta de constatação cientifica será a única, quero acreditar que o caminho que trilhamos é o justo, mas do outro lado vejo homens e mulheres os quais não teria nenhum problema em jantar e mergulhar numa belíssima conversa sobre os limites do raciocínio humano, homens e mulheres que agora me juram morte e vingança, homens e mulheres que agora me olham com olhos marejados de lágrimas de ódio e raiva, que nunca esquecerão, que nunca desistirão, que me irão perseguir em vida e sonhos até os seus últimos fôlegos em busca dos seus próprios conceitos deturpados por dor e sangue, mas que no fim são seus conceitos de justiça. Justiça sem verdade não será justiça será quiçá no melhor conceito da premissa um acordo de cavalheiros, um acordo em que ambas as partes procuram campo cinzento onde arrumar suas desavenças com uma jogada de compensação, mas a verdade como constato não existe, verdade é tão real como tu minha puta de transcendência, não deixo no entanto de te dirigir a palavra, de conversar, de te abençoar, de te amaldiçoar, mas não sei se és real, arre Jasmim, sei que não existes, és um mero fruto da minha necessidade inerente à megera da condição humana de acreditar em algo mais, em algo que supra, que me ultrapasse, que me guie e oriente, mais uma vez descambamos nos porquês, e aqui é tão simples e linear: pois a verdade, como tu bem sabes minha puta, é que acredito em vós pelo mero conforto de quando tudo correr mal, quando de repente a catástrofe me cair no colo te posso culpar e lavar as mãos em agua límpida e cortada, em chafarizes de praça de uma qualquer cidade, posso limpar-me da culpa, pois eu não erro, cometo enganos devido ao que me dizes porquê afinal constata-se que a condição humana é tão perfeita como viver em dia sol, com brisa e água por perto num perfeito triunvirato, não acredito que o digo, o escrevo, vos impinjo esta golfada de vomito lógico silogístico, sei que funcionamos com directivas muito simples, sei que são tão simples que nos abrem portas para acções que afinal não computam no que raio andamos aqui a fazer. Guerra precisa-se, purga precisa-se, limpeza da despensa cheia de ratos moleiros ainda oriundos de belas fragatas de linha do século XVII, compreendo a necessidade, a vontade não é muita no entanto, a vontade por mais motivos que me moldem e me levem a tentar, mas a verdade é que não quero ver do outro lado da barricada homens e mulheres tão ou melhores que eu, com os quais entraria em disléxicas conversações desconectadas e deliciosas em todo o caos linguístico que três mentes ungidas por uma dose farta de bebidas espirituosas conquistam, deambulações por convenções e as suas refutações pela mera delícia de as ver ruir, e agora com o mundo em fragor vejo-os com tendências homicidas por minha pessoa. Não quero amor nem ódio, quero ataraxia profunda e real. Dêem-me isolamento e eu atiro a toalha ao chão, dêem-me uma hipótese de partir numa nave alienígena e eu partirei para bem longe e mando-vos todos à merda, fujo para bem longe, tão longe que o sol parecera aqui ao lado no quarteirão vizinho, pois no fim da triagem eu não quero a puta desta responsabilidade, a necessidade de renovar este mundo.
    Guerra é bela. Não questiono afirmo, guerra encantado por relatos de cavalheirismo, por relatos de heroísmo, relatos de escudo e espada da junção de duas ideias opostas num único momento, na sua resolução num banho de perícia, coragem, inteligência, força e números, numa simbiose de genocídio para a conclusão de um assunto onde sangue jorrou e milhares de homens não regressam para beijar suas esposas, para ensinar seus filhos, para sorrirem uma vez mais debaixo do sol incessável, caem como tordos aos primeiros segundos do clamor, caem vazados por flechas longas e distantes que descem mortais sob seus corpos moles e os atravessam, magoam, destituem de vida como cabeças de fósforos em chama.
    Guerra não é bela nunca poderá sê-lo, nunca jamais, não quero que o seja, não me impede de pensar o quão gostaria de caminhar em carga em rumo a uma morte certa, não me impede de sonhar em acreditar que bom seria viver feliz por dois segundos enquanto caminhava seguro e agressivo pronto para resolver todos os meus e doutros problemas com um arco de minha célere e fiel espada curta neste escudo defensivo mortal, avanço para morrer, sou carne para canhão, sou um kamikaze, estou pronto para entrar na barca e partir para outra e sinto-me feliz por fazê-lo e nunca mais esquecerei aqueles momentos de epifania, aqueles momentos de lembrança, aqueles segundos antes da minha cabeça ser separada de meus ombros,
    - God hates us all – cada vez mais concordo, cada vez mais acredito nele embora o negue a mim próprio para ainda conseguir sorrir, acredito em vós minha puta e sei a quão perversa consegues ser, sei tudo o que consegues fazer quanta tortura me podes impor, conheço as tuas nuances, o teu curto pavio, a tua falta de misericórdia, tudo se desenvolve em preto e branco para ti, não sei se te odeio ou amo, sei que não te temo, e isso enerva-te deixa-te fora de ti, revolta-te dai me atacares baixares a calças e me tragares como se me conseguisses comprar. Deus existe camaradas, deus está aqui e é um grandíssimo filho da puta incapaz de limpar a merda que fez, incapaz de nos olhar nos olhos e na cara pedir desculpa por ter criado uma merda tão horripilante e nojenta como nós, não consegue compreender onde a receita estava mal, não quer admitir que ele criou a destruição em vez de vida.
    Mas não desanimem, não atirem a toalha ao chão, não somos em final de rosário todos assim tão horripilantes, eu admito o meu defeito nesta situação concreta: generalizo, quantas e quantos não tombam esquecidos em ajuda ao próximo, quantos não se desvinculam dos bens materiais para levar o sorriso a famílias que nunca viram perdidas num caos que me exigem, agora também, para nosso filete perto da costa, quantos e quantos não honram o intuito da criação, quantos não elevam a condição humana a uma esfera completamente diferente, quantos meus irmãos não acreditam que tudo o que fazem é nada mas se compararmos com tudo o resto que conseguimos vislumbrar em verdade é tanto que juntamos mil pessoas e esse só elevou a solo mais a condição humana.
    Somos dejectos oriundos da perversão da evolução humana, somos uma quantidade imensa de bosta sem capacidade para brilhar sem aproveitar uma mínima percentagem do que poderemos fazer, então eu pergunto-me porque me pedem uma guerra,
    - disciplina de voto não,
    - representação parlamentar onde?
    - Papado rei do inferno.
    - Desfasamento económico,
    - fome,
    - dor,
    - raiva,
    - queremos o fim,
    - queremos o novo começo,
    - queremos ser escutados,
    - queremos queimar o que temos para de novo nascermos,
    para quê, tudo irá ser igual, tudo se tornará no mesmo que temos agora, nada será diferente, não irão alterar nada a longo prazo o trilho já à muito se encontra elaborado, de nada adianta adiar o inevitável, de que me adianta procurar o ódio de massas de conformados, enfrentar avalanches de fúria, destruir casas, famílias, vidas por uma causa que não terá continuação, porque o que interessa no fim do dia são moedas, são tostões para comprar pão, jornal e cerveja, para descansar no sofá gasto de pés embutidos em meias rotas descansando em cima da mesa de carvalho quebrado pela idade.
    Nunca se erguerão por nós aqueles insatisfeitos, nunca sairão da megera cíclica que os cerca mas pelo menos no sofrível eles encontram o conforto do que é normal, nunca sacrificarão o parco que possuem por uma mera miragem utópica em repetição, nunca marcharão,
    - claro que sim,
    - como Riques?
    - Basta foder suas mulheres,
    sorrio. Como se espera, podemos foder tudo num homem, tirar-lhe o emprego, o carro, a casa, pisa-lo, massacra-lo, atira-lo aos leões e mijar-lhe e noventa e nove em cada cem comem e calam, mas fodemos as suas mulheres e eles erguem-se como guerreiros esquecidos da mitologia, elevam-se ao estatuto de possuidores da essência da lâmina e dançam entre nós com duas espadas curtas numa dança élfica recheada de velocidade e agilidade para acabarmos de caralhos pendurados na ponta da lâmina.
    Um nascer do sol vermelho. Um nascer de fúria, uma onda que se ergue imperial em seu reino e caminha a passos largos para quebrar perto do meu, teu, vosso jardim, um nascer do sol vermelho de sangue derramado em mentes fechadas, enclausuradas num único pensamento convicto, numa única marcha de realidade translúcida, um pensamento imparável moldado através de ideologias imparáveis, uma verdade condigna, uma concessão de verdade pútrida pronta a ser rasgada, num abraço de guerra para um novo caminho, uma mudança de vela redonda para latina, desfraldam as lonas em suas casas, em suas varandas e apoiam quem têm que apoiar mas a convicção não desaparece ao primeiro choro, não foge quando alguém desiste e cai baleado por víboras de más intenções.








*este suposto texto não segue o pretenso acordo ortográfico.