quinta-feira, 31 de maio de 2012

Bom dia


    Roupa suja num canto, velha, encarquilhada pejada de crimes de paixão, inundada de detritos urbanos, uma mesa escura que suporta minhas folhas, minhas canetas, meus livros também ela suja de cinzas rebeldes que se recusam a amarar no cinzeiro ou simplesmente caiem de tão cheio que ele está, eu, imposto o acto pela minha mente de abrir os olhos, semeados de umas olheiras de arrepiar, ouço aquilo que escolho para me sentir bem, sorvo para despertar do torpor café escuro, forte, negro, assim como eu gosto, sem açúcar, a cada gole mais longo é como se sentisse uma droga fraca a inundar-me os membros, descalço, pequenos tufos de pó colam-se à sola dos pés, numa atracção digna de íman, o sol espeta-se lá ao fundo, vejo suas unhas amarelas revelaram-se misteriosamente, uma força que desconheço o empurra para a superfície, parece rasgar a crosta da terra naquele ponto em que mais eu não consigo ver, mas acredito que se corresse na sua direcção respostas iria encontrar: uma cratera enorme no chão e de lá, cautelosamente, passo a passo, na lentidão de quem sabe o que faz, na boa génese do: "depressa e bem não há quem," o sol continua a erguer-se, sob alicerces de materiais desconhecidos, invisíveis a olhos de todos expecto estes meus imbuídos na certeza que existe algo mais que uma mera metafisica de tons cinzentos, imbuídos na certeza que tu minha Puta de Transcendência que me guias e proteges não és mais uma ninfomaníaca depravada em busca de boémia gratuita, ergue-se hoje, como ontem e como amanhã, nesta relação simbiótica, e com ele empurra, rasga, viola, desflora esta minha noite fresca, minha noite de loucura, minha noite de amores, minha noite de tesões de paixão, leva-la para onde?, deixa-a a ficar por favor, suplico-te, prostro-me aqui perante ti de olhos lassos, de lágrimas salgadas a pintarem sulcos selvagens pela minha face e sussurro-te deixa ficar a minha noite, minha capa, meu cobertor, somente ela me dá guarida dessa tua luz que me queima a pele, que me revela aos outros como o bicho Kafkiano que sou, como escondo agora minhas oito patas?, e meu tronco de bicho, de insecto?, lombardas desorganizaras de livros no meio do caos que uns dias faz sentido, outros nem por isso, quanto ao agora ainda não me decidi, musicas fatelas de outras casas me começam a invadir esta bolha actimel que é o meu espaço, musicas fatelas, musicas que estão nas listas dos mais vendidos, arre que até o clã carreira me viola, parem com isso, parem de me atacar com vossos gostos tão diferentes, ide, deixem-me só, mas ninguém me escuta, ambulâncias passam em tons agudos, ao longe ouço-as passam na minha rua mas não as vejo, pessoas falam, Miguel Relvas para aqui, Miguel Relvas para ali, shaudenfreude domina e conquista uma manhã quente ao sol, mas fria à sombra, e eu penso no quão bom seria uma eterna noite em que todos dormiriam sem tecto à vista, no quão bom seria ataraxia doutrinalmente aplicada, somente para me aperceber que nada disso interessa neste momento, tenho o quarto dessarumado, isso sim já é pertinente, já é normal, é melhor arrumar antes de continuar em cadeias existenciais com órbitas elípticas.



*Não segue o mui ilustre acordo ortográfico.

XXXVII

Rendido,


obrigado Eli,





*Mono, Moonlight

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Poeiras numa engrenagem que se requer perfeita


    Tenho perfeita noção da minha mortalidade, certos dias, pares presumo, chego a casa, abro o portão mascarado pela ferrugem, caminho pelo escuro guiado pelo farol da minha janela, sirvo-me de uma dose de uísque rasca, aquele de galinha na capa, que de tão mau arrepia-me os pelos dos braços, descalço-me, andei o dia todo de meias rotas?, pego no quer que esteja a ler, sento-me numa cadeira na sala, daquelas que dançam, encontro um ventil na cigarreira empenada e gasta, acendo-o e perco-me em vaga introspecção, ignoro o que de mais violento imerge, sou um cliché ambulante?, esquece, avança, tenho perfeita noção da minha mortalidade?, sim tenho, temo-a?, não, que corajoso que sou já viram?, a esposa dança na cozinha em rituais desinibidos de pressupostos sociais, o cheiro desagua pé ante pé, tenta sem fruto surpreender o meu olfacto , sorvo-o faminto, mas cansado em demasia para roubar a panela, sim, sim, não a temo, pelo menos em dias pares, o tempo que passo aqui é demasiado curto para me perder entre afagos de espírito destroçado pela mero vislumbre da noção que irei perecer quando a data de validade expirar, larga o cigarro, dizem-me, porquê?, tanta coisa e entregaste a hábitos que simplesmente te irão atirar para Dante mais cedo, enfim, dá-me um ano, trezentos e sessenta dias perdidos entre meandros falaciosos de literatura vulcânica, encontrem-me um Lobo Antunes em forma de fêmea, tudo salpicado com cubas livres, ali ao fundo, que eu aceito, trato com Mefistófeles, eu aceito meu caro, um ano vivido sem preocupações absolutamente redundantes como, onde vou arranjar dois tostões para pão?, um ano somente perdido entre orgias sensoriais alimentadas pela mera luxuria de espírito, um ano vivido ao máximo segundo meus mais secretos segredos e desejos, troco-o por toda uma vida de supressão cognitiva, de não comas isso que te faz mal, que se fodam bitaites de saúde, que se fodam joggings matinais, dá-me mais um fino e abstém-te que não entendes, que mania de tornar tudo um debate agora, sou absoluto e irresoluto, não temo perecer pois é o meu destino, já pensei que quando a senilidade começar a dar à costa dizer-lhe para se por a andar, e leva essas fiandeiras nojentas contigo, que eu trato do meu próprio fim, marco com BB King e com a Lucille e vamos os três a cantar mulher gorda pela rua abaixo enquanto bebericamos calmamente dióxido de carbono rumo a um outro lugar, que se fodam os pressupostos, amor anda a comida está pronta, pões a mesa?, sim querida, quero ser cínico ou não?, tenho que pensar, mil e um, mil e dois, mil e três, não, não quero eu gosto da companhia e da mesa, abro uma garrafa de um maduro de má casta perdido no armário mas ainda sem o pó como símbolo de qualidade, o dia correu-te bem?, sim, que fizeste?, sentei-me num parque que não sei nome, não o quero saber, e olhei o céu toda a tarde enquanto ouvia a doce invicta a respirar, olhar impávido, e dinheiro amor?, ganhas-te alguma coisa?, não somente um processo em tribunal parece que é crime, o quê?, olhar por baixo das saias do céu, e tenho praticamente a certeza que tem sífilis, porra homem já fazias alguma coisa em vez de passar o dia a escrevinhar coisas tontas em papeis amarelos, papeis?, folhas de papel?, isso queria eu, agora só me restam areias soltas e folhas castanhas, para já ainda não taxadas, tudo o resto são poeiras numa engrenagem que se requer perfeita, o quê?, a comida está óptima, novo tempero?, sim, achas?, o molho está bom?, óptimo querida, óptimo, recuo de novo para um sitio inalcançável, fazes café querida?, levanta-se de pantufas em forma de Smurfs e roupa de lã larga, o ombro nu revelava a pele tingida de cacau com falta de sol, ainda que de formas suprimidas pela roupa larga e desleixada revelava-se com uma mulher bela, suprimida por cordas invisíveis de moralidades, atada para não se revelar como uma leoa de charneca minha, beberico-o como é suposto, acendo um cigarro de marca amberleaf que ventil é só um por dia, ouço a voz estridente de John Stewart no Daily Show enquanto minha companhia revira os olhos e pensa no quão bom seria ver a fox gaja, querida queres que mude?, silêncio interrompido pelo raciocínio de prós e contras, se diz sim eu fico aborrecido, se diz não ela fica aborrecida, ainda bebia o café, ela sabe o quanto detesto quando parte e eu estou a bebericar o café ainda, não amor, deixa estar, ela ama-me, indubitavelmente, nestes pormenores lê-se o amor de forma tácita, amar aqui e agora não é rasgar-lhe a roupa e possui-la numa qualquer esquina como num cliché pornográfico banhado levemente por musica de elevador, amor reside nos pequenos solavancos da estrada, nos pormenores, gostava de ser mais para ela, gostava de ser mais que um mero pedinte entregue a uma doutrina criada a fogo por mais ninguém que eu próprio, um rumo que sem duvida foge ao planeamento de fiandeiras nórdicas, ou assim me fazem crer, o que é irrelevante, mas que no fim da equação me arrasta para uma morte prematura, para um quarto no casa dos tolos, pois eu sou um deslocado entregue, querida podes mudar a sério, concedo, entregue à minha própria destruição, e faço-o com uma violência quase religiosa, converte-te ou decapito-te digo-o para mim próprio, de vela de estai inchada como uma cadela com cancro de fígado, empurrado por monções fora de época aí vou eu, passo a passo, irredutível, aproxima-se o desfecho pois eu não nasci para viver aqui, eu não quero viver aqui, eu quero uma cerca de estantes pejadas de livros de pretensos eruditos, quero reunir-me em conversas cíclicas com quem nada diz e passa dias a fio em busca infrutífera da sua própria cauda, quero acreditar, acredito que onde estou não é o real estar, quero estar onde me possa perder em folhas brancas livres de troca comercial e preencher a lacunas profundas e inerentes ao meu espírito, temo magoa-la, ela merece melhor, mas no fim o que me resta, viver com algemas?, prefiro, e agora o momento zen, cala-te Stewart, prefiro não estar cá, prefiro não existir, ser uma sombra, prefiro, amo-te garota, olhos lassos atiçados em fogos brandos, faúlhas dançam rumbas exóticas dentro daquela íris, vamos para a cama?, deixo-a levar-me para afagos de uma outra espécie que me farão adiar o inevitável,

 
esgotado em tons cinza adormeço para um acordar que inexoravelmente será igual ao outro.

 

 

 
*sem acordo.

 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Palavras


    Palavras e mais palavras todas despejadas a um ritmo frenético para um qualquer lugar vazio de razão ou propósito, não sei bem pelo que faço, talvez e cada vez mais nasça em mim a voluntas para deixar um legado rico em tamanho mas nu de qualidade, quanto mais penso nisso todavia mais concluo que caminho por paisagens erradas, sei no meu intimo, dificilmente sobressai no meu espírito, mas sei que quando despejo a incoerência cognitiva que me entope e deturpa o corpo logo no após é inevitável a sensação de liberdade, por escassos segundos consigo voar, durante três batidas de coração sou oco, redundâncias cíclicas em forma de dispostos morais e sociais atirados para mim em queda livre batem numa armadura de vazio existencial, todavia, tão depressa acaba que somente fica a saudade e a vontade de uma vez mais criar o que denomino na falta de qualidade lírica como merda pastosa tal e qual Vivaldi no ouvido.
    Psicólogos deixem-se de tretas eruditas, eu só com as minhas palavras de pouca qualidade, material chinês para exportação com toda a certeza, com carvão e o tecto nu de uma gruta perdida num espaço e tempo diferente consigo perceber mais pormenores meândricos sobre o meu eu, que vós com vossos tratados e sacrossantos conceitos doutrinais,
    arre que me apetece um cigarro.

 

 
*Não segue o acordo ortográfico.

XXXVI

Estalinhos com a língua,






*Welcome home, Apocalyptica.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

sábado, 26 de maio de 2012

XXXV

"...

Não tinha qualquer intenção de me tornar aquilo em que eles me viam, aquilo que, no seu modo especial de luxúria, eles me invejavam, a oportunidade de me tornar um voyeur dos males do mundo e das perversões sociais. Senti, como muitas vezes antes tinha sentido, uma oposição, uma irritação e um rancor que me fazia querer gritar ridiculamente: quero viver!, quero ver pessoas que me interessem e me divirtam, pretas, brancas ou doutra cor. Quero ser eu a tomar conta das minhas relações com os homens e as mulheres que entram na minha vida, e não me importar com abstracções de raça e política. Quero viver! E vocês vão todos para o diabo!

..."


*Excerto retirado de Um Mundo de Estranhos, de Nadine Gordimer, prémio Nobel em 1991.

XXXIV

Aprecio,






*NBC, SP e Wilson, musica: Marceneiro.

Poder


        Meus passos ressoam ao longe, arranjaram-me estas botas pesadas e já enlameadas por natura, e eu avanço num passo catastroficamente pesado, ecos meus propagam-se antecipando o meu surgir, encontro quem os ouve em pose dura de reconhecimento de olhos muito abertos prontos a tragarem minha verdade de forma incontestada e absoluta,
    - que idiotas, - encontro-me a dizê-lo baixinho, - arre que isto não é melhor que o ontem, - substituímos os pastores com que objectivo?, somente para outro surgir, um novo possuído de ideias despóticos e ilusões de conquista e imperialismos, e este camuflado?, que é isto?, porque tenho eu que andar com isto quando nunca verei uma trincheira, limitar-me-ei na minha vontade inquestionável com gestos doces de uma mão a enviar centenas para linhas metafisicas ao longo de províncias caquécticas para serem explodidos como dejectos, para serem comidos até aos ossos por ratos e ratas enormes, alimentadas agora com carne virgem e jovem, carne branca sem o mínimo vestígio de corrupção latente, seguem-me como cães, mal eles sabem que não sou mais nem menos que outros, sou somente a personificação de um terceiro que os envia para uma morte rápida e se tiverem sorte indolor,
    - senhor?, - de olhos bem abertos, como persianas em sábados de manha naquelas aldeias do fim do mundo, em que todos se conhecem, nem um sapo pode espirrar sem que todos digam santinho em uníssono e tom monocórdico, interpela-me o bandido, este é um rebelde, em mensagem subliminar anuo e aguardo, - gostaria de um café?,
    aqui está não demorou assim tanto esta gente a acordar, assim me chegam com simpatias e toques de amor, queres me envenenar?, cianeto?, ou algo mais obscuro para não deixar vestígio, com um mero deslize da mão esquerda para quem me acompanha na esquerda este bandido não licenciado com ideias também elas de conquista e poder é subjugado e arrastado para uma sala continua ao corredor, eu abano a cabeça em incompreensão e avanço de espírito perturbado, indiferente aos berros de suplica que as paredes pariam para os meus ouvidos, captava tacitamente sons de máquinas de marcas escritas em cirílico, importadas da longínqua Sibéria que com imponência e uma certa elegância abriam buracos naquela carne pútrida de traidor, esburacavam as rótulas, as mão, os pés, jc à beira daquele imberbe seria um menino, penso com um sorriso enquanto imagino lança a penetrar na carne de outro de outrora,
    - não fiz nada, não sei nada, só queria saber se o comandante gostaria de um café, por favor parem – um acelerar da maquina e um berro que me magoa a audição, arre que começa a irritar-me não basta tentar ainda tem que incomodar?,
    bem, vou dormir a sesta,
    - tu, chama a Svetlana que eu quero alguém que me trague se não o sono não vem,
    - e ele comandante?,
    - castrem-no e soltem-no.




*não segue o ilustre acordo ortográfico.

 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Amansa-me Led


    Encontro-me inebriado, estão a ver?, aquele repulsa perante a sombra da mera hipótese de estar quieto, incontornavelmente stairway to heaven invade-me a audição, é sexta, dia que me encontro com os Led's estão a ver?, naquela presunção que possuídos movem-se para criar algo que mexe comigo, só comigo, e que somente as minhas colunas dançam em parelha com esta musica, que somente eu conheço pois na minha mente, na verdade que eu crio foi desenhada para mim pela simples razão que me deixa assim: salto de folha em folha sem me elevar da cadeira, enquanto aí sim vejo na verdade ramos a dançarem empurrados pelo vento que se ergue num dia que esperei solarengo para parir luz cinzenta como se os Maias tivessem antecipado a data de validade, arre, o meu pé bate, estão a ver?, tuc, tuc, tuc, enquanto danço vitima de uma era sem papel de dedos sob o portátil e não penso, cru, o que sai saiu, dei-o à luz em qualquer parte do corpo, este A nasceu no dedo mindinho, este Z no coração, este F nas costelas, não penso, enquanto meus glúteos colados na ganga das calças se arrastam em fricção naquilo que uma mente toldada veria como dança do caos, minha cabeça baixa e sobe, com a barba em desalinho, quando me distraio e me deixo arrastar demais para o poço e toco no portátil com o queixo, olhos cerrados e imagino e imagino, sinto-me um pianista, sinto-me bem pela simples razão de que neste momento não penso, não constato, Pessoa diria que não existo, amo-o longe de ser leviano, mas agora Pessoa até pode ter razão mas a verdade é que preso num momento em que musica criada especialmente para mim em estábulos de oiro e pedras preciosas concluo, sem saber que o concluo porque neste momento não vivo no passado, tudo é presente porque o que faço é reacção a nada, é mera acção, então falaciosamente escrito como concluo, não o faço, melhor não sei se o faço, mas escrevo-o se Pessoa o afirma eu percebo que não existo, porque neste momento sou feliz sem dar um ínfimo farrapo de tempo a algo mais que a acção, não penso, não quero pensar, não vou rever, mas agora neste curto espaço de tempo de dois baques de coração sou feliz.

 

 
*o acordo ortográfico tem acções que eu não gosto, estão a ver?

 

XXXIII

Como deveria ser, não?,






*Fight Club, 1999, realizado por: David Fincher

 

Mar vermelho


    O meu estômago contorce-se, dobra-se, um corrupio corre-me o corpo, os testículos encrespam-se de raivas mal engolidas, um falso tesão aflora-se, falso sem o sexual na aritmética tudo por mero ódio passivo que me engole cada célula do corpo, vejo vermelho quando cerro os olhos pelo pesar da fronte, pesos maquiavélicos que me encarquilham a expressão, me levam a evitar olhar a luz pelo mero temer que pode ser demasiado forte e aí a odiarei, pode ser talvez muito fraca e aí a odiarei, minhas mãos tremem naquilo que parecem pequenas convulsões repartidas aleatoriamente pelo meu corpo, arrasto-me por aqui evitando sentir seja o que for pois tudo odiarei,
    - olha aquele filho da puta – em ziguezague ininterrupto, quão difícil é accionar o pisca, demora três décimas de segundo desde do momento em que activo os mecanismos cognitivos até ao momento que executo e termino a acção, - é assim tão difícil meu cabrão?, - uma, duas, três ultrapassagens, da esquerda para a direita sem dar o mínimo sinal de aviso, odeio-o tanto,
    - e vocês olham para onde minhas cabras? – ajoelhadas a adorar deuses e deusas mitológicos, em altares de pedra ricamente trabalhada, olham-no babadas em celibato, casadas com algo que transcende o que me remete para uma única cena do scary movie, ajoelham-se de quatro em busca de amores loucos com entidades que me, vos transcendem, o ajoelhar resulta em embate violento de piláu com vagina e gemidos tímidos são paridos para serem cobertos com cobertores de decoro rotos, elas olham o céu enquanto mãos cheias de cabelos são arrancadas pelo êxtase invisível de quem as penetra, acendem um cigarro no após para de seios nus com veias azuis pulsantes e sovacos pejados de pelos negros olharem os céus e sorrirem, - já se sentem melhor irmãs carmelitas?,
    ódio, um mar vermelho que desagua em meu peito, meu coração acelerado, alguém me respira no pescoço, odeio algo que amo, quando mulher que me move se digna a curvar do segundo andar e massaja meu pescoço, mas ainda aí odeio, hoje odeio o que ontem amei, hoje odeio o que amanha me levará ao clímax.

 


 

*sem acordo.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Ciclo



            Todos os dias me ergo sob a égide,
            - hoje é o dia em que tudo cambia,
            todos os dias percorro trilhos curvado face ao calor que emana,
            - não sei por onde vou, não sei para onde vou, sei que não vou por aí,
            todos os dias adormeço confiante que quando acordar o que me rodeia me trará paz de espírito,
            Todos os dias durmo de cintura cingida pela inevitável falácia das minhas convicções.

XXXII





Cântico Negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!



*José Régio

terça-feira, 22 de maio de 2012

XXXI

Oh, heureca, verdade absoluta,






*Ornatos Violeta, musica: Punk Moda Funk, álbum: Cão, 1997

Aritmética desconectada


    Entre penas de mulher e cubas livres, entre farrapos de nevoeiro que em acessos de pudor me procuram a masculinidade para a cobrir, de glúteos esborrachados em lombo de cavalo magnífico, agarrado a fria armadura, sendo cortado a cada movimento da manopla do meu guia,
    - Sebastião vai com calma que isto começar a doer, - anui sem o dizer e reduz o trote para um mero deslizar em câmara lenta e a dor acalma, o vento massaja-me o corpo e estranhamente promove o sensual da coisa,
     - então Jasmim?, - coro,
   - é sem querer meu Dom, não tenho mão nele, ainda por cima acordei agora, normalmente pagam-me um café antes de me raptarem para meandros desconhecidos bafejados por nevoeiros de mito,
    - café?, - pára o cavalo e de costas para mim a voz chega-me aos ouvidos como estórias de bardos e jograis, - clamas por mim, entre cada linha que merda literária que produzes chamas-me em tons místicos, tal e qual quinto império, crias odes ao nevoeiro como se fosse a porta para Kalimdor para agora no momento da verdade te queixares dos glúteos?, eu que pensava em levar-te para bem mais perto da era que mereces, eu que te deixaria pegar nesta cimitarra e carregares sob Mouros sanguinários, que te deixaria decapitar prisioneiros e foder suas mulheres, te deixaria beber cerveja até caires, te permitiria...,
    - desculpa, - interrompo, - mas porque não me deixas-te vestir qualquer coisa, garanto-te que iria apreciar muito mais a viagem se não tivesse o piláu ao léu, é embaraçoso, ainda por cima está frio o que torna o embaraço em vergonha mais depressa que um baque de coração, - sem pensar duas vezes, - já agora não foram os Mouros que arrumaram com o teu Imperialismo?,
    a imagem distorce-se e começa a degradar-se de fora para dentro até que me encontro de olhos lassos a ver nada mais que o nada negro, à minha volta luzes brilham: azuis, vermelhas, cor de rosa, laranjas e misturam-se em orgias de concepção de mundos e novas luzes, misturam-se e tragam-se mutuamente sem tecto à vista, até que finalmente com a violência do martelo na bigorna consigo ver uma imagem, eu deitado, nu a dormir, ao meu lado mal coberta por um lençol uma mulher embalada também por sonhos e demandas, a porta abre e um homem alto, de bigode mexicano, camisola cor de laranja, calças de vinco branco, sapatos de pele de crocodilo e de arma na mão entra aponta-me a arma e dispara cinco vezes, desaparece do que vejo, a mulher também, vejo-me a mim sozinho numa cama larga, demasiado larga agora que penso, a esvair-me em sangue a olhar o tecto enquanto tento proferir palavras que acabam por se revelar em nada mais que geisers de sangue cuspido, rebolo sobre mim sem mais nenhuma reacção que o ocasional espasmo incontrolado, a pila incha por algo que não sei definir, tão imprópria,
    - não tens mesmo mão nela campeão, - o estranho mexicano ao meu lado a falar em português lisboeta, - fetiche?,
    - não realmente não tenho mão dele, fetiche que é isso?,
    Finalmente acordo suado e marado, raramente me entrego a deboches alcoólicos pela manha mas hoje será a excepção que confirma a regra

 

 
*sem acordo por favor.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

XXX

American Dream,



*Kickapoo, de Tenacious D, Pick of destiny, filme homónimo, 2006, realizado por Liam Lynch

Triunvirato existencial


    Pedem-me muitas vezes para fundamentar uma revolta, e eu sorrio, sorrio de ignorância?, nem sempre, às vezes mas não sempre, muitas vezes, mais do que gostaria conseguia facilmente oferecer-vos de lacinho azul para o menino e cor de rosa para a menina uma fundamentação criada através de sublimes formas filosóficas de raciocínio e argumentação, a minha resposta depende de dois factores muito simples, o que o Público me diz hoje, essencialmente como correram as palavras-cruzadas, em segundo lugar depende de que eu me possui hoje, o sossegado em busca da ataraxia e completamente isolado de tudo o que é relevante socialmente e moralmente, que se ergue na sua torre de marfim e torce o nariz quando tudo o que rodeia só pode ser caracterizado como medíocre, se é o comum, o irrelevante, a ovelha que segue pastores sem know how no assunto mas não é capaz de olhar nos olhos o poder institucionalizado e dizer sem pudores numa aplicação que raras vezes vi mais propícia de um,
    - vai-te foder,
    mas se última instância estiver dominado pelo capitão da maré vaza da revolta que me corre nas veias, aí fundamentações brotam com a mesma naturalidade de sexo casual, quando me reencontro em múltipla posse e um se cruza com outro todos fogem deste, incapaz de filtrar o que diz, sem capacidade para se deixar estar quieto, sem capacidade para anuir mesmo quando a razão em pessoa lhe o diz, munido de raiva em livre circulação, vê o que é metafisico como uma adaptação de palavras outrora derramadas por mim em contexto diferente,
- olá amor queres que te faça um, não custa nada este é o estado que paga, este é os teu pais que pagam – como?, desculpe?, diga lá outra vez?, - só tens que manter a boca fechada, falar o que o filtro de marca branca, que te equipamos à nascença, e que cuidamos com tanto gosto te disser, se fizeres isso, levo-te à lua e não te preocupes que nem te vais preocupar em ver Júpiter – não entendo – que pensavas?, que recebias dinheiros de estados longínquos, que teus pais te davam amor porque és bonito?, percebe isto, és feio, os bebés são feios, as crianças chatas, mas são precisos, né?, – silêncio – são, são, eu sei, tenho o sétimo ano unificado, mas eles berram, e se continuam a berrar quando crescem, estás a ver o problema, temos que calá-los, quer dizer ainda falam mas são toldados para pensarem parecido com o vizinho, agora menino, vá, diz que sim baixa as calças e deixa-me ver isso, eu trato de ti, não tenhas medo, quantos quiseres, está tudo pago, bem pago, agora vamos lá, portas-te bem?, vá lá, sim?, que saquinho tão bonito, bem ornamentado, com muito bom equilíbrio, cinco estrelas, sim senhor, queres que tu lamba?, então promete que te portas bem, que não fazes ondas, entendes?, se prometeres aí menino que te deixo tolo.
    Sob a égide da corrupção, sob a égide do favor, sob a égide da usurpação da individualidade pela qual ele vive não tenho mão nele, quando o personifico perco-me em perigos e caminhos bravos, passo meses em recuperação ou em limpeza da merda que crio à minha volta, entra em Guantánamo de mão dada com homem da boina e sorri para aqueles armados e paridos de poder inexistente constitucionalmente, avança para como outro parar tanques em praças largas, arre homem porque não dormes, porque não deixas o burguês com o apático, porque me vens complicar a vida?
    Procura, procuro?, procuramos?, definitivamente procura uma engrenagem que se requer perfeita, um caos ornamentado por luz branca, uma praia sem nortada, mas aqui e agora olho-o nos olhos enquanto espasmos confusos me abanam os alicerces físicos e sei que ele caminha para uma vez mais me levar por caminhos em choque com a moral e bons costumes.

 

 
*não segue o acordo ortográfico.

XXIX

Labirinto,








*Dealema, Portugal Surreal.

Odeio-te mas em onda pacifista, tás a ver?


    Hoje sinto-me passivo, hoje alapo-me nesta torre de marfim e olho-vos de cima para baixo, observo com encanto a mediocridade que me cerca, o amado, o adorado, homens e mulheres esfolam-se em rituais que deixam Astecas de outrora de olhos esbugalhados para pagarem tributos e dizimas em castelo a coisas de cobre e cobalto.
    Podia chorar, podia rir, mas sinto-me passivo, redtube passivo,
    - tás a ver?, - hoje não quero pensar, quero ver estas bestas a andarem de um lado para o outro em círculos pendulares, - tás a ver? – quero tal e qual olhava as formigas em guerra quando era puto e descobria qual delas era Aquiles e qual delas era Diocenes, - tás a ver? – ria enquanto se gladiavam em terrenos de lama, ria enquanto imaginava suas tenazes a penetrarem a pele da Júlia Pinheiro, e ela guincha, guincha, guincha que nem uma porca – peço desculpa – mas é irremediável o uso dessa expressão, pela simples razão que já não tem idade para ser leitão, - tás a ver?,
    espero sinceramente que lamentes,
    - lamento, lamento,
    espero bem que sim, nada te dá o direito de entrares na calúnia,
    - qual quê?, era elogio tótó,
    enfim sai um auto de fé e um saquinho de pólvora se fizerem o favor.
    Passivo, em perfeita sintonia com a minha amada ataraxia, que tanto desejo e pouco encontro, volta, despe-me e põe-te a andar deste recanto do meu próprio, mui pessoal apocalipse interno: é meu e somente meu, sendo eu mil reflexos de minha alma espalhados por um invólucro com data de validade.

 
*que se foda o acordo.

sábado, 19 de maio de 2012

XVIII

Ontem?, hoje?, amanhã?, outra vez?



*Ernesto Guevara, UN.


Meu estado II


 

      num movimento uníssono e equilibrado massas movem-se, na estação espacial internacional assistem enquanto brincam com pipocas, pesadas e incontáveis massas caminham em busca de um outro cais para serem alimentados, para seus corpos regenerarem de ferimentos, de subnutrição, de desidratação, cais procuram para nutrirem a mente com cultura inacessível, com musica proibida ou escondida sob a égide do euro, massas buscam vitimas para crescerem em valor e conhecimento, para se tornarem mais e melhor, sozinhos encontram-se isolados abandonados, temem sair de casa para serem derrubados do nada por seres opressivos com detectores de cheiros de marca Bosh, detectores de cheiro categorizado como: não tem onde cair morto, mas em grupo a coragem inunda-os e começam a pensar que merecem algo mais que os dejectos com os quais se alimentam, compreendem o que existe dentro de cada um, que existe algo mais que a mediocridade latente que os visita e os faz sentir como um mero nada vazio de razão ou propósito, sem rumo em desespero presente em cada dia, em cada acordar olham o tecto do barraco, outros olham o tecto do mundo e pensam será hoje o dia em que terei a coragem para me atirar do colo de D.Luís I para o Douro?, será hoje que na neblina um Mouro me irá decapitar?, erguem-se para encontrarem a familia a salivar à mesa do pequeno almoço, e choram de dores de barriga vazia entretida a fazer ecos com sons hediondos, sai de casa em desespero com palmáres irrepreensivel e procura ombro onde possa ser util para ser cuspido e esquecido, pessoas altas e belas com carteiras de peles exóticas sacam papeis com numeros para pagarem coisas também elas subtis e geniais e ele saliva, enquanto embacia o vidro da montra da pastelaria, olha cinco pães com os mesmos olhos, com a mesma ânsia que outros quando observam a lua, e foge quando o segurança de pau na mão corre para ele, este ladrãozinho de merda o que esperava?, regressa ao fim do dia feito num moito depois de quilómetros corridos e galgados, de curriculum vitae sujo de lama na mão, procura no bolso moedas negras e escuras para imprimir mais dez mas apercebe-se que o bolso está roto, entra na porta, com a cara de quem suplica ser abatido, a mulher e a filha olham-no com a esperança a irradiar de todos os poros, olham-no nos olhos em busca de uma saída, olham-no como cão novo na chuva procuro um dono digno, e ele sem nada para lhes dar, nem um pão, nem uma canja, nem uma caixa de cerais de marca branca, nada que lhes possa oferecer, a barriga levanta-se em protesto e emite sons irónicos, agora na ribeira rebeldes de espirito entreteêm-se com concursos de cuspo, para fazer passar o tempo, outros afiam catanas para assaltos a bombas de gasolina para porêm comida na mesa para o pai senil e mão encamada, raiva transborda para o rio que fica tingido de vermelho de intenções obscuras, filsofos e ricos de espirito amaldiçoam a sua sorte no topo nos braços de D.Luis I, resmungam a sua sorte encostados ao metal que o limita, o metro passa sem ligar nenhuma ao que dizem ou sentem, elas olham enquanto pregam pedaços de prosa erudita criadas através de estudos conceituados e pesquisas laboriosas mas ninguém quer saber da teoria das cordas e dos buracos negros, isso é ficção, achas que alguma empresa munida de conhecimentos extraordinários vai publicar coisas tão profundas e revolucionárias, mesmo?, pensavas que sim?, devias ter pegado na carpete profunda de Tolkien mudavas as personagens, inventavas novos nomes para raças e gentes, criavas cidades através da mui nobre arte do decalque e depois fazia uma história em que A mais B dá coisa e tal, um Romeu e Julieta mediocre mas com espadas, o português tem ser sofrivel, mas se alguem se queixar dizes que era assim que falavam, mais importante não lhe chames Terra Média, mas podes usar terra alta que é original, Tolkien chora lágrimas de enfado imaginário, e agora podes publicar, é plágio disfarçado de merda literária mas publica-se porque não tem nada a ver com teorias maradas de pesquisa longa e trabalhosa untada com imaginação prodigiosa, se fosse algo novo onde a imaginação é levada ao seu limite sem corda de segurança para salvaguardar o seu regresso não vale o tempo perdido para o mostrar ao publico, mas neste caso se chamares aos Elfos coisas com orelhas afiadas estás no caminho certo, os homens e mulheres que na loucura se deixam embalar pelo seu imaginário, aceitam o seu abraço e percebem a sua importância como vanguarda do progresso deixam-se levar pelos caminhos tortuosos do mundo que vive dentro de nós, arriscam embates mirabolantes com a transcendência, mas esquivam-se a todo o custo, quando falham estão um passo mais perto de nunca regressar ou regressar louco a falar sem sentido, ou com sentido para mais ninguém do que sua sombra, homens e mulheres descobridores imbuidos entre cheiros de drogas maradas e absintos pesados que em noites isoladas, embalados pelo tremelicar de velas usdas em rituais pagões olham para o mundo que os cerca para o ver num ângulo nunca antes entedido são espezinhados sem pausa, ignorados, atirados para o lixo sem dó por homens com a revista maria debaixo do braço, homens que nem têm o cuidado de separar o papel do material orgâncio, como um todo enfiam filosofos e filosofas em baldes sujos e esquecem-nos, no alto dos braços de D. Luis I eles desesperam em desamparo social, sao geniais, são mentes cujo mero olhar de relance nos pode tragar a sanidade, são seres que formam a vanguarda da evolução, mas agora falam e pregam suas ideias para serem olhados de soslaio como loucos vazios de erudição, falam com palavras compridas e complexas, não unem as ideias com mas, ou porquês, atravessam séculos de história transversalmente, ninguém os entende têm que ser loucos, vazios, desamparados, bandidos, ladrões, sai daqui filha que aquele daqui a pouco saca da gaita, barbas fartas, dentes amarelos de tabaco, gengivas sangrentas, escorbuto latente, são merda bipede, são meros tolos vazios e sem mente, automátos sem ideias decentes, teoria das cordas?, a sério, isso não vende, acorda, pesquisa sobre buracos de toupeira no jardim e como usá-las para criar energia renovável, e aí tudo bem podemos publicar?, espera, desculpa, lamento, isso já é muito vanguardista, já sei escreve sobre o movimento pendular do relógio suiço, isso é material seguro, publicamos-te e ainda te arranjámos um cartão de sócio, putos novos limpam as unhas sujas de terra com navalhas enormes e afiadas enquanto pensam quantas gargantas vão cortar para garantirem o salário minimo nesse mês, homens do mar sem peixe para pescar penteiam suas longas cabeleiras em rabos de cavalo que lhes chegam aos pés, oleiam os cabelos com brilhantina comprada à quatro decadas e guardada em arrecadações secretas, velhas desdentadas caminham em precário equilibrio a roçar o rio que corre indecentemente desligado da raiva que desagua nele, pregam peixes velhos e cadavéricos, de olhos escuros e escamas podres, trocam castanhas pútridas mal assadas e castanhas cozidas em àguas de esgotos por favores de teor em choque frontal com a moralidade vigente, e outros dezenas aqui, centenas ali, milhares do outro lado juntam-se em comum não fazer nada a não ser aproveitar o sol enquanto as naves construídas com fundos comunitários, milhares de milhões de moedas de puro ouro pagas a instituições fantasma que nunca ninguém viu ou ouviu falar, milhões dados sem papel em retorno para que estranhos objectos mecânicos fossem construidos, com propulsores potentes alimentados a energia fóssil, milhares de galões ao minutos queimados, enquanto o porco caquético, com as costelas marcadas na pela e as patas coxas assa na brasa, o monstro de metal eleva-se, no horizonte o que era uma mancha surge como algo nunca visto, estranhos pegões caem no solo ao lado de milhares que sem nada para fazer, rejeitados por não serem normais para renderem lucro a alguém se dedicam a apanhar sol, a limpar as unhas ao sol, a untarem seus cabelos com brilhantina ao sol, a pregarem peixe podre e castanhas já mastigadas ao sol, e..., o sol desaparece coberto pelo metal sujo e escuro de um monstro saído das profundezas da terra, bebe em irrisória ironia milhares de litros de fosseis que nunca mais ninguem irá provar em seus proprios engenhos mecânicos, mais num minuto é consumido que por milhares que olham enquanto o sol desaparece e a noite chega, os pegões aterram com um baque de pedra a ser penetrada, um ou outro Ai surge do anonimato da multidão perturbada quando mulheres distraídas a pintarem as unhas com verniz feitos a partir de sangue de gaivota e merda fervida são cortadas em dois pelos frios pegões de metal, surge um monitor, insert coin, diz ele, chamam um tradutor, diz pôr moeda, os eruditos ficam confusos, colocar a moeda, eles anuem, para quê?, lê-se em tom tácito, óbvio para teres sol, insert coin, pôr moeda, colocar moeda para que a máquina abra janelas e o sol entre, ou achas meu caro estúpido que podias estar aqui ao sol a fazer balões com preservativos usados, ninguém te quer, e podias gozar o sol como se fosse uma oferta deste nosso mui amado, activo e cuidadoso estado social?, achas que a luz do sol é barata meu gnú?, eu corto o ás de espadas, alimentado com a bisca e um rei seco com o duque de copas, enquanto pessoas normais e corriqueiras se tornam iguais a filósofos conquistadores de novos campos e conceitos que um dia darão à luz novos âmbitos formais da ciência, homens do lixo e prostitutas, putas e mulheres que distribuem publicidade, electricistas e antigos membros do GOE todos se tornam igual na miséria do choro, na miséria da vida quando nem a luz do sol nos pode banhar pois se tornou como a água da torneira, do rio, da praia: vitima de tributação por ele o omnisciente estado social que cuida de todos nós,
    - um para vós, temos quarenta nove – resmungo, Onhas ergue o olhar, o corpo dele imbuído na sombra,
    - vamos arranjar fuzis, ou quê?,
    - siga,
    - eu tenho sede,
    - siga então,




*sem acordo.
  






sexta-feira, 18 de maio de 2012

XXVII

Ontem?, hoje?, amanhã?,








*José Mário Branco, FMI.

Uma borboleta perdeu a asa,


   - Se um mundo berra a uma voz untada de raiva, se espuma que rasga a costa é vermelha de sangue, se os elementos rugem das profundezas de sua própria dormência, eu diria que com este tempinho já ia uma revolução,
    
    - caminho rua abaixo na eterna demanda com um espírito a dois passos do oblívio,
    
   - palavras, busco palavras numa qualquer diarreia mental, busco uma demanda ou quiçá demando por uma busca por trilhos que afloram de vós, ó minha transcendência,

   - se nunca procurasse, nunca encontraria o que busco, não, já não, parto, não é nem de longe a mistificação do eunuco sem pé, a busca regrediu para tons meramente retóricos brotando de uma  suposição cada vez mais metafísica,

    - nada demora mais que um silêncio constrangido pelo peso da realidade.




*sem acordo -, tás a ver?.

terça-feira, 15 de maio de 2012

XXVI


"(...)



     A mulher levantou-se, despiu a camisa de dormir de renda (os pelos do púbis, pensou ele, enterrar a mão, o nariz, o pénis a relinchar, nesse fundo triângulo encaracolado, preto, sem fim) e caminhou, nua, para o quarto de banho, nos pés enormes e camponesa, de dedos mais afastados, quase róseo, como os das crianças. Sacudiu as crinas e os músculos dos flancos (o suor do lombo luzia) e dirigi-me, a trote, na direcção da janela: os testículos encrespavam-se, duros, contra os tendões do ventre, a pila desembainhava-se a pouco e pouco, idêntica a uma tromba rígida, nojenta. Uma espécie de baba luzia-lhe nos beiços e no nariz, os cascos tremiam no tapete: Não posso fazer amor contigo porque me vou separar de ti, sairemos de Aveiro como dois estranhos. Um novo bando de patos desceu na ria numa elipse prudente, o reflexo dos botes ancorados, desbotado, vibrava. Um cilindro fumegante soltou-se-lhe do ânus, tombou com moleza no chão. Deu meia volta no soalho embatendo ao acaso nos móveis (uma garrafa de água pulou de susto no pires) do quarto exíguo de mais para o seu longo tronco castanho, uma das ferraduras desfez o calorífero metálico engasgado na parede, quebrando-lhes duas ou três ripas paralelas, o tabuleiro escorregou com estrépido da cadeira. Gosto das tuas nádegas caídas, gosto das tuas coxas, gosto dos ombros pendentes, das clavículas em assento circunflexo, o vapor da água saía da casa de banho em rolos esbranquiçados e ténues que o espelho do armário em frente devolvia, tinhas corrido a cortina de plástico e posto a touca transparente na cabeça, distinguia-te o vulto, curvado, a ensaboar as pernas, vou penetrar-te por detrás, rasgar-te a vulva, dobrar-te os rins (atónitos) no esmalte da banheira, ergueu-se nos membros traseiros num sopro furioso:
    - O que é isto – disse a mulher de esponja na mão -, deu-te alguma coisa, estás maluco?
    Havia tanta humidade que te distinguia mal o tronco, os olhos redondos de espanto sob a touca, as mamas pouco firmes de mamilos escuros. A cauda raspava na porta, as narinas aspiravam acidamente o ar, o pescoço agitava-se, frenético, para um e outro lado:
    - Chega-te para lá – pediu a mulher -, deu-te de repente a chonezisse hoje?
    E pousava o sabonete, e tentava proteger-se com escudo irrisório da esponja (De que são feitas as esponjas, perguntou um sussurrozinho intrigado dentro dele, bichos do mar, produtos sintéticos made in Sacavém?), rompeu a cortina com o focinho e com os dentes enormes enquanto ela se refugiava, surpreendida, aflita, quase agradada, no canto das torneiras, os pêlos do púbis, molhados, escorriam, apoiei os cascos nos azulejos da parede, raspando o barro vidrado com o ferro, meias-luas de lama, meias-luas de merda, Pisei de certeza meus próprios cagalhões de há bocadinho, um outro cilindro, agora menor, desprendeu-se-lhe do ânus produzindo um ruído mate no tapete de borracha amarela com furinhos, e no instante de a empalar, de um só golpe, de baixo para cima, com toda a raivosa força concentrada no seu corpo, viu no espelho uma imagem difusa de cavalo, com um penacho no topo da cabeça como os animais de circo.
    - Hop – gritava o pai fazendo estalar o chicote -, hop, hop. – E ele pulava obstáculos numa obediência aplicada, girava sobre si próprio, empinava-se, regressava.
    Abotoou a breguilha, envergonhado, e tornou ao quarto para mudar a camisa encharcada. Os sapatos de ténis produziam um ruído esquisito, de língua, no chão. A Marília embrulhada na toalha, com a touca na nuca e uma mecha oblíqua na testa, veio atrás dele, entontecida, a pingar:
    - Que é que tu tomaste – disse ela -, o que te sucedeu hoje?

(...)"

 

 
**Excerto retirado da obra Explicação dos Pássaros, de António Lobo Antunes.

Lamento


    Em certos dias sendo o hoje o exemplo mais próximo sento-me com a vontade inabalável de criar ritmos displicentes através das palavras, mas a cada junção de sujeito com predicado sou abalado por golfadas de espírito destroçado que caem para o meu colo da minha fronte, enquanto releio com olhos lassos a mediocridade presente que dei à luz, incapaz de desistir do que a minha vontade persegue retiro-me para absorver o inócuo que crio, perceber as pertinências de uma questão que me ultrapassa em todas as suas vertentes para concluir enquanto desaguo em clichés consuetudinários o nada em que me materializo no meio do nada que me rodeia, ergo o olhar agora pejado de lágrimas e vejo aqueles que simbolizam o pináculo criativo de uma mente, numa mesma mesa de madeira escura e com cicatrizes do tempo: Tolkien graceja com Saramago e Márquez corta o ás de espadas de Lobo Antunes com o duque de trunfo, rebolo em dores que de físico nada têm enquanto imagino a capacidade inerente para nestes dias conectados por nadas, estes homens e mulheres conseguirem sentar-se com nada mais que uma folha branca e uma caneta em busca daquilo que os faz o tic para uma enxurrada caótica de ideias surgir, como o fazem?, como outro sentado em trincheiras de Guerra mórbida enquanto amigos de sempre perecem a seu lado consegue em seu espírito criar um espaço tão vazio de preceitos morais e sociais categorizados através da odiosa expressão do que é normal, um lugar que no fim da equação é toda a tapeçaria mitológica pela qual um novo mundo de seres inferiores se regem para nada mais que plágios disfarçados parirem, arre que estagnamos, arre que de milhões aproveitam-se uma mão cheia e são muitos, mentes que deveriam ser elevadas a uma estratosfera transcendente, deviam ser erigidos templos, deviam ser adorados como deuses perdidos reminiscentes de uma era de outrora, agora caminhamos e raro é aquele que alimente a ideia da criação como representação da fuga aos conceitos formais que de forma tão castradora nos perseguem como o mesmo vigor do Cão de Baskervilles em charnecas góticas, que se foda o normal prego agora e hoje no meio da minha própria condição de ordinário, de mais uma ovelha comandada por pastor que de Caeiro nem a boina tem, sento-me também eu para nadas em forma de frases parir, também eu a colocar-me num patamar de mediocridade presente, e para o futuro para tudo o que tirar destes meu bolsos cheios de tabaco solto de mediocridade latente.
    
    Arre, procura-se génio, procura-se algo que me solte as amarras do que é moralmente aceite e me permita quando fecho os olhos voar por mundos que de metafísico nada têm.
    
    Arre procura-se a criação desligada de tecidos e naperons de fiandeiras omniscientes, ofereçam-me uma garrafa de uísque, uma maço de tabaco e uma noz de madeira munida de velas latinas, qual lua qual quê, Marte?, eu vou pelo mar, caminho por trilhos abertos por homens de coragem inabalável que sem mais nada do que alimento para o coração caminhavam por estradas uniformes de nossa terra e descobriam a cada linha do horizonte um novo bom porto.
    
    Mas quando acordo dos meus sonhos, quando te deixo nua ainda em suave sono minha doce transcendência, percebo, e amaldiço-o o nada cinzento de aborrecimento que me espera e desespero enquanto caminho para a loucura intrinseca. Ergo um archote nesta noite fria e escura para entender o nada que sou no nada que me rodeia.
    
    No fim daquilo que para salvaguardar a minha sanidade eu vejo como estória tu, eu, nós daremos lugar a pó e nossas mentes voam para um outro sitio pejado de verdes e virgens florestas, sem economia que me persiga e me diga que hoje não posso largar pressupostos que me destroem segmentos enormes de espírito, de alma, de coração, de ideias, de criação, de novas aventuras em sítios só por mim imaginados, de usos destituídos de decoro do vernáculo belo, capado devo estar, quieto e calado, de imaginação atada e bem amansada pois ainda hoje preciso de ter umas moedas no bolso para pão e leite.

 

 

 
*este texto não segue aquele acordo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

XXV

Megera de tempo,



*Pacman, Tempo de Reagir, álbum: O algodão não engana.

Redundância


    Estou cansado do cariz inexorável do tempo, do contar sistemático e infalível dos grãos de areia de tombam do tambor superior para o inferior da ampulheta, desejo abanar conceitos científicos formais e colocar o tempo na perspectiva do usuário, sentar-me no sofá e entre cervejas quentes acelerar, abrandar, atrasar ou avançar o tempo, quero comprar anos antes de cair da falésia, quero viver mais, ou quero viver menos depende do cariz par ou ímpar do dia, mas no fim quero perder a noção fatalista de quem tem as rédeas do meu fim é outro que não a minha individualidade, quero poder escolher o momento em que coloco os meus pés na barca sem ofender a mui sacrossanta condição humana.

 

 

 
*este texto não segue o acordo ortográfico.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

XXIV

A Futurologia é a ciência que estuda o futuro,



*Lord of the Rings: The Return of the King, realizado por Peter Jackson.

Meu estado


     Na janela ela diz-me adeus enquanto veste as cuecas, compõe o rímel e pensa em quanto lhe doem coisas de mulher, irmãos juntam-se a mim no adeus sentido, pergunto-me quanto tempo demorará até acordar para a incontornável noção que nunca mais a voltarei a ver, passos ecoam no pavimento, gaivotas produzem sons macabros, vozes de descontentamento surgem paridas do pão que não se encontra, do jornal que não se lê, do tabaco que não se fuma, as sirenes soam ao longe, cada vez mais próximas, também nós escutamos o pedido de ajuda enquanto batalhas campais dignas dos Campos de Pellenor se desenrolam em estabelecimentos comerciais com desconto, pessoas comuns, honestas até onde a vista alcança que só quebram a lei quando sabem que não vão ser descobertas, alguns até admito que apanhariam uma carteira do chão sem tirar o dinheiro dentro, mas agora inebriados pela desejo sanguinário parido do encantamento emanado por papel higiénico a cinquenta por cento do preço consuetudinário marcam-se com tatuagens de guerra, tintas azuis, ao longe parece-me ver highlanders de sotaque carregado a tocarem gaitas de foles nos tempos livres e gritam palavras incompreensíveis, enquanto carregam sob pessoas também elas comuns mas que agora não são mais que usurpadores e ladrões de saque que pertence a mais ninguém do que aos nobres Escoceses, mordem-se em banhos de sangue, arranham-se em busca de se cegaram mutuamente, lutam sofregamente pelo último pedaço de queijo Limiano, rasgam roupas mutuamente como cães atiçados, e ficam a sangrar em chão duro e frio tingido de vermelho, a polícia caminha em ordem, em linhas perfeitas com escudo encostado a escudo protegendo-se uns aos outros, uma falange parece-me ao longe, imperfeita e falaciosa doutrinalmente, pedem calma com megafones mal afinados, vozes que deveriam soar doces, parecem duras e hipócritas, ninguém se rende, ninguém no seu perfeito juízo alimentado pela actual conjuntura irá desistir de tampões de marca branca a cinquenta por cento de desconto, nomes são chamados, nomes hostis e macabros, resposta é água em jactos e carga tola e desconstruída, homens comuns semi vestidos, ensanguentados são espancados sem pausa ou piedade, são rebeldes em busca de preservativos pagos com desconto, tarados sexuais, predadores em potencial, esfolem-nos, batam-lhes com força sem tecto à vista, sangue, quanto mais melhor, cambada de ladrões em busca de coisas a meio preço, são piores que ladrões, piores que violadores, piores que pedófilos, berros de dor misturam-se com ataques verbais fundamentados nos crimes que se assistem, fome é crime, presumo, aproximamo-nos pela areia da Praça, e espreitamos temendo ser também derrubados pela mera intenção de olhar a actividade recolectora de mantimentos, fugimos quando a suspeita começa a espreitar pela janela, passam por nós homens fortes em corrida tresloucada com caixas de electrodomésticos bem seguras por cima da cabeça, bancos irrompem pelas costuras com casas hipotecadas, catrefadas de casas arrumadas aleatoriamente dentro de cofres mal cheirosos, homens de gravata torcem o nariz em desdém pelo cheiro das casas recuperadas, vêm pejadas daquele cheiro a plebe mal cheirosa, mero lixo da condição humana que não consegue pagar a casa e têm que a devolver, tão nobres instituições, o sacrifício necessário para se atreverem a tocar em materiais munidos à priori por homens inferiores, são santos, são mais que santos, são entidades benfeitoras que do alto da sua mente subtil e mui inteligente, muito mais afiada que o comum membro da plebe, encaixados em fatinhos feitos por medida por alfaiates antigos e prósperos e tão elevados na hierarquia desta nossa metafísica se atrevem, loucos, loucos, a tocar em coisas sujas por tesos sem um tostão, que homens enormes, Aliados surge para comprovar o descontentamento de outros desta plebe suja e mal formada, professores de Filosofia entram em retóricas vazias de real convicção, tolos buscam utopias marcadas por ideias tão obsoletas e patéticas como altruísmo, a sério?, já tens um estado social que cuida de vós, mais do que deveria, plebe horrível, ainda querem mais conceitos imaginários paridos a toda a força e com a violência de um trebuchet atirados para esta nossa metafísica, de grupos de dez em grupos de dez, palavras de dez vezes mil, mas realmente o que importam?, nada, deixa-os estar descontentes e com fome, são irrelevantes são o nada que mune a sarjeta desta nação de cor, são castiços de ver a correr por um naco de carne putrefacta mas não têm mais nenhuma utilidade, se milhares se reúnem de capital de distrito em capital de distrito que importa?, eles não tem cavalos treinados para a guerra, nem fatinhos azuis escuros e gravata a condizer como os santos que comandam a batuta, estão descontentes paciência, passam fome, que se lixem, com seus dentes pretos e mal cuidados, ornamentados de cáries e gengivites rasgam gargantas uns aos outros por bolachas Maria em desconto, que importa?, são milhões?, que importa, o que realmente é relevante são aqueles que em cadeiras ornamentadas a ouro milenar colam os dedos da mão esquerda com a mão em direita em pirâmide erudita, olham para baixo com pena mal desenhada no rosto, um sorriso petulante surge quase imperceptível no canto da boca, covinhas de curiosidade nascem pela testa e cantos dos olhos e o nariz, arre o nariz torce-se em trejeitos não esperados pelo odor a plebe mal cheirosa que o vento empurra de praças de distritos por todo o lado, construtores, professores, doutores, empregados de mesa, empregados têxteis, sapadores, um alguidar laboral comum onde todos choram porque têm fome, profetizam marés de revolta pois seus filhos comem arroz com terra e alimentam moscas também elas nojentas e magras, mas o que interessa?, nada porque os fatinhos dançam entre argolas de fumo de charutos importados e maltes raros e saborosos.

 

 
*este texto não aquele coiso do acordo.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

XXIII

Anda lá Led,



*Stairway to Heaven, da banda Led Zeppelin.

Escadas minhas


    Temo cair na redundância da rotina produtiva, criar o que já criei por outras palavras moldadas de acordo com a cor do meu espírito na altura, mas se penso para evitar ainda é pior é como por uma rolha de cortiça na criatividade e tudo escoa para outros lugares que não minha mente ou meus dedos,
    
    - Led Zeppelin anda cá por favor, olha-me para isto, estás a ver bem?,
    - ?,
    - não limpaste bem isto estas escadas estão imundas, é para isto que te pago?,
    - ?,
    - larga a merda da guitarra e vai buscar a esfregona, achas que a pessoas que entram no céu querem ver baratas mortas e percevejos que caem dos bolsos de quem já entrou.
    -?, - (leio confusão tácita mas ignoro),
    - ninguém quer ir para o céu e no caminho ser relembrado dos esqueletos que ainda dançam nos armários da existência terrena,
    -?,
    - ninguém quer ser relembrado que um insecto morto é mais nobre do que o seu eu,
    -?,
    - pára lá de brincar com isso e vai buscar as coisas, vá, é para isso que te pago, quero esta escadaria para o céu a brilhar, mais limpinho que o vestido do JC, estás a ver?
    - ... – (presumo que anuiu)

 
    Lá em baixo, nas planícies que antecipam a elevação das estepes que dão guarida a esta escadaria milhares de milhões contorcem-se em batalhas físicas aguerridas para conquistarem o seu espaço na fila, aguardam em antecipação, má língua é cultivada enquanto segredos são contados para lugares serem ganhos, enquanto cheques dançam e tilintam de somas estonteantes para se ser o primeiro. Pessoas de todas as coras, raças ou credos choram lágrimas imundas para marcharem mais um metro em direcção ao farol que lhes comanda a alma, em direcção ao sitio onde tudo fará sentido, burguesias e homens santos dão ultimas quecas por desespero sem pensarem em quem vê, beatas procuram o homem com quem casaram para finalmente serem saciadas, homens de guerra ajoelham-se e rezam por um lugar onde podem emular seus sacrifícios, atiradores furtivos cumprimentam efusivamente homens e mulheres que abateram a centenas de metros, uns querem JC outros Maomé, outros outras coisas ou seres com nomes que não sei pronunciar, roupas são rasgadas sem pudores,
   
    - Led...,
    - ?,
    - olha para aquilo, olha o que tu fizeste, agora estão todos sujos,
    -?,
    - enfim, para Dante com tudo, saca da guitarra e vamos beber um copo, vê se me cantas aquela que fala da escadaria,
    - ?,
    - deixa lá eles que esperem, o que é que vão fazer?, matar-se outra vez?,
    -?.

 

 

 
*este texto não segue o acordo ortográfico.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Coisas I


    - cagamo-nos para a metafísica dos costumes,
    - força,
    - demónios somos tal e qual os macaquinhos de alfazema,
    - ámen a isso,
    redundâncias cíclicas, munimo-nos de uma única arma: palavras despidas de filtros, ideias que não merecem atenção mas brotam do súbito vácuo que surge no lugar da consciência, saímos de docas secas, de casco limpo e brilhante, gingamos, sorrimos e berramos palavras de ordem despidas de real aplicação, rimo-nos de nadas que vestem consórcios sociais e morais.


*não segue o acordo ortográfico.