terça-feira, 22 de maio de 2012

Aritmética desconectada


    Entre penas de mulher e cubas livres, entre farrapos de nevoeiro que em acessos de pudor me procuram a masculinidade para a cobrir, de glúteos esborrachados em lombo de cavalo magnífico, agarrado a fria armadura, sendo cortado a cada movimento da manopla do meu guia,
    - Sebastião vai com calma que isto começar a doer, - anui sem o dizer e reduz o trote para um mero deslizar em câmara lenta e a dor acalma, o vento massaja-me o corpo e estranhamente promove o sensual da coisa,
     - então Jasmim?, - coro,
   - é sem querer meu Dom, não tenho mão nele, ainda por cima acordei agora, normalmente pagam-me um café antes de me raptarem para meandros desconhecidos bafejados por nevoeiros de mito,
    - café?, - pára o cavalo e de costas para mim a voz chega-me aos ouvidos como estórias de bardos e jograis, - clamas por mim, entre cada linha que merda literária que produzes chamas-me em tons místicos, tal e qual quinto império, crias odes ao nevoeiro como se fosse a porta para Kalimdor para agora no momento da verdade te queixares dos glúteos?, eu que pensava em levar-te para bem mais perto da era que mereces, eu que te deixaria pegar nesta cimitarra e carregares sob Mouros sanguinários, que te deixaria decapitar prisioneiros e foder suas mulheres, te deixaria beber cerveja até caires, te permitiria...,
    - desculpa, - interrompo, - mas porque não me deixas-te vestir qualquer coisa, garanto-te que iria apreciar muito mais a viagem se não tivesse o piláu ao léu, é embaraçoso, ainda por cima está frio o que torna o embaraço em vergonha mais depressa que um baque de coração, - sem pensar duas vezes, - já agora não foram os Mouros que arrumaram com o teu Imperialismo?,
    a imagem distorce-se e começa a degradar-se de fora para dentro até que me encontro de olhos lassos a ver nada mais que o nada negro, à minha volta luzes brilham: azuis, vermelhas, cor de rosa, laranjas e misturam-se em orgias de concepção de mundos e novas luzes, misturam-se e tragam-se mutuamente sem tecto à vista, até que finalmente com a violência do martelo na bigorna consigo ver uma imagem, eu deitado, nu a dormir, ao meu lado mal coberta por um lençol uma mulher embalada também por sonhos e demandas, a porta abre e um homem alto, de bigode mexicano, camisola cor de laranja, calças de vinco branco, sapatos de pele de crocodilo e de arma na mão entra aponta-me a arma e dispara cinco vezes, desaparece do que vejo, a mulher também, vejo-me a mim sozinho numa cama larga, demasiado larga agora que penso, a esvair-me em sangue a olhar o tecto enquanto tento proferir palavras que acabam por se revelar em nada mais que geisers de sangue cuspido, rebolo sobre mim sem mais nenhuma reacção que o ocasional espasmo incontrolado, a pila incha por algo que não sei definir, tão imprópria,
    - não tens mesmo mão nela campeão, - o estranho mexicano ao meu lado a falar em português lisboeta, - fetiche?,
    - não realmente não tenho mão dele, fetiche que é isso?,
    Finalmente acordo suado e marado, raramente me entrego a deboches alcoólicos pela manha mas hoje será a excepção que confirma a regra

 

 
*sem acordo por favor.

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