segunda-feira, 7 de maio de 2012

Bermas que nunca verei


    Conduzo por estradas obsoletas em sucessões semi calculadas de curvas e contra curvas, nuances de vida em farrapos que surgem e infiltram-se em meus sentidos, como pequenos puzzles mascarados de déjà vu, acelero pois em duvida caminho para o desfiladeiro com um estrondo, nunca com receio, nunca sonegado de coragem, tudo chia em caos, o velho carro queixa-se de esforço, peças ladram de forma nada esperada, porcas e parafusos guincham e tilintam quando caem no chão duro de latão enferrujado, agarro-me com força até sangue jorrar e tingir o meu volante oxidado de velho ferro importado, procuro pedais para acelerar, procuro um segundo acelerador e desejo que travão também me dê mais velocidade, árvores na berma, tão perto que sinto os ramos a roçarem-me a fronte não são mais um borrão desfocado, gritos estridentes visitam-me sem tocar à campainha de pessoas e gentes tão distintas como o cardápio de um restaurante mexicano, gritam palavras ausentes de sentidos levados pelo vento para um local que não este onde me encontrava segundos antes, caras mascaradas de susto, espanto e temor, esquivo-me a buracos da estrada com perícia aleatória, evito a berma porque tenho que espirrar e guinei sem esperar, continuo, progrido, avanço, pressiono em busca de sangreal que somente para mim terá um significado que transcenda a mera visualização metafísica, ultrapasso camiões, carroças, cavalos, vacas, putas e tractores, pelo retrovisor encontro olhos deles esbugalhados, alguns mesmo lassos de susto contido a custo, mas não cedo, acelero agora agarrado ao travão de mão como se fosse uma manche, nada me impedirá de chegar lá, nada nem tu minha grandessíssima...


*participação no Tema de Maio em Fábrica de Letras
 
*este texto não segue o acordo ortográfico

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