quinta-feira, 31 de maio de 2012

Bom dia


    Roupa suja num canto, velha, encarquilhada pejada de crimes de paixão, inundada de detritos urbanos, uma mesa escura que suporta minhas folhas, minhas canetas, meus livros também ela suja de cinzas rebeldes que se recusam a amarar no cinzeiro ou simplesmente caiem de tão cheio que ele está, eu, imposto o acto pela minha mente de abrir os olhos, semeados de umas olheiras de arrepiar, ouço aquilo que escolho para me sentir bem, sorvo para despertar do torpor café escuro, forte, negro, assim como eu gosto, sem açúcar, a cada gole mais longo é como se sentisse uma droga fraca a inundar-me os membros, descalço, pequenos tufos de pó colam-se à sola dos pés, numa atracção digna de íman, o sol espeta-se lá ao fundo, vejo suas unhas amarelas revelaram-se misteriosamente, uma força que desconheço o empurra para a superfície, parece rasgar a crosta da terra naquele ponto em que mais eu não consigo ver, mas acredito que se corresse na sua direcção respostas iria encontrar: uma cratera enorme no chão e de lá, cautelosamente, passo a passo, na lentidão de quem sabe o que faz, na boa génese do: "depressa e bem não há quem," o sol continua a erguer-se, sob alicerces de materiais desconhecidos, invisíveis a olhos de todos expecto estes meus imbuídos na certeza que existe algo mais que uma mera metafisica de tons cinzentos, imbuídos na certeza que tu minha Puta de Transcendência que me guias e proteges não és mais uma ninfomaníaca depravada em busca de boémia gratuita, ergue-se hoje, como ontem e como amanhã, nesta relação simbiótica, e com ele empurra, rasga, viola, desflora esta minha noite fresca, minha noite de loucura, minha noite de amores, minha noite de tesões de paixão, leva-la para onde?, deixa-a a ficar por favor, suplico-te, prostro-me aqui perante ti de olhos lassos, de lágrimas salgadas a pintarem sulcos selvagens pela minha face e sussurro-te deixa ficar a minha noite, minha capa, meu cobertor, somente ela me dá guarida dessa tua luz que me queima a pele, que me revela aos outros como o bicho Kafkiano que sou, como escondo agora minhas oito patas?, e meu tronco de bicho, de insecto?, lombardas desorganizaras de livros no meio do caos que uns dias faz sentido, outros nem por isso, quanto ao agora ainda não me decidi, musicas fatelas de outras casas me começam a invadir esta bolha actimel que é o meu espaço, musicas fatelas, musicas que estão nas listas dos mais vendidos, arre que até o clã carreira me viola, parem com isso, parem de me atacar com vossos gostos tão diferentes, ide, deixem-me só, mas ninguém me escuta, ambulâncias passam em tons agudos, ao longe ouço-as passam na minha rua mas não as vejo, pessoas falam, Miguel Relvas para aqui, Miguel Relvas para ali, shaudenfreude domina e conquista uma manhã quente ao sol, mas fria à sombra, e eu penso no quão bom seria uma eterna noite em que todos dormiriam sem tecto à vista, no quão bom seria ataraxia doutrinalmente aplicada, somente para me aperceber que nada disso interessa neste momento, tenho o quarto dessarumado, isso sim já é pertinente, já é normal, é melhor arrumar antes de continuar em cadeias existenciais com órbitas elípticas.



*Não segue o mui ilustre acordo ortográfico.

6 comentários:

Mz disse...

Eu também sou diferente. E digo-lhe já que não o deixo ficar com a noite só para si pois ela também é minha. Hoje está morna e é uma noite perfeita para deixar os livros desarrumados e a roupa pelo chão porque amanhã não haverá noite igual. Vou debruçar-me à janela até o sono me chamar. Isso sim é normal.

Eu não sigo o acordo.

James Dillon disse...

Eu debruço-me também para compreender que se continuar em espera o sol raia antes de os olhos fecharem, arre e agora?

cumprimentos,
JD

Eli disse...

Fico a pensar se no meio das minhas "rotinas" e coisas do quotidiano não me aparece algo do género e se não me passam pensamentos semelhantes... de qualquer forma, dei comigo a pensar em como é que encontrou o meu blogue...

James Dillon disse...

Obra do acaso, um feliz acaso atrevo-me, às vezes também mereço um pouco de acaso feliz, por aqui, por ali deambulava, quando dei com um beco que ao contrário de muitos tinha um facho,


cumprimentos,
JD

Eli disse...

James, quando li esta resposta ao meu comentário, sorri. Foi como se se tratasse de um sorriso secreto e, hoje vim escrever simplesmente isso, porque considero deveras importante salientar, mencionar, referir, gravar o meu sorriso. :)

James Dillon disse...

Indubitavelmente,

:),

JD