terça-feira, 1 de maio de 2012

Janela que espirra


    Sorriso inoportuno, petulante. O sol raia à costa e está tudo certo. Nada de errado. Tudo tão certo que o rumo surge: dou comigo atirado aos leões numa qualquer arena lamacenta, renasço como uma qualquer Fénix, encontro o rumo contra a corrente, mas um rumo, um raio de real, um raio de realização, um tímido lusco-fusco de vida.
    O sorriso brinca com os meus lábios tal e qual um puto com a Barbie. Aquela sensação de algo que não é suposto, mas ao mesmo tempo, o completo berrar ao tenebroso,
- estou-me completamente a cagar,
    um berro para o mundo que respira a preto e branco, que está preso num anacronismo intemporal. Estou bem. Sinto-me bem com a minha própria irresponsabilidade.
    A luz é difusa, parva, disforme e negra.
    Luz negra como tu minha puta.
    Puta de transcendência.
    Nada a dizer a não ser um profundo berro aliado a um facho que arde. Ergo-o e digo-te,
- hit the road jack!,
    nada temo. Pois sou o nada. Se o sou como o poderia temer.
    Acordo para a luz. Para sombras mórbidas e paisagens recheadas de mutilados, infestadas de chamas. Olho enternecido. Uma petulante, fugaz lágrima escorrega pela bochecha esquerda e aterra na minha virilha.
    Só me posso rir no meio do meu choro. Eu não mereço tanta luz, eu não mereço tanta sorte, um sem sentido como eu. Uma gota de orvalho que se extraviou e acabou a fazer filhos com a vizinha do segundo andar.
    Um pobre de espírito.
    Um carneiro em fuga da alcateia.
    Pertinências.
    Nunca tal me ocorre, quiçá, se der um inicio.
    Vamos ver.
    Que tal,
    - Tudo é melhor a nu! Ao natural, piláu ao leu. Tudo sabe melhor. Tudo é tão simples quando o fresquinho nos visita.
    Tantas redundâncias. Tanta idiotice. Pergunto-me para que?, qual o ponto?, what's the point?, there is no point. Ignóbil natureza humana; tanta merda para que dizer que sou cusco. Eu berro-o para todos aqueles que querem ouvir,
- eu sou cusco!, mas é culpa da minha janela. Sim. Da minha janela – a minha janela leva-me por maus caminhos, este ser metafísico que habita a madeira corroída da minha janela é nefasto. Gosta de espirrar para dentro e para fora. Espiar nos dois sentidos.
    Que janela?
    Não há nenhuma janela.
    Só existe uma alma perturbada.
    Um gafanhoto saído de uma cópula com a fêmea que misericordiosa não lhe arrancou a cabeça,

 
- um número de letras
que me visitam
eu rio-me, nada faz sentido
o sentido?
perdi-o
cinco tostões por um sentido
o norte – anda por aqui – olhos lassos e brisa gélida
o este – aqui – bafo quente de Mordor
o oeste – amo-te – depravado ocidente
o sul – vai uma morna – um calor que invade
nada disso!,
preciosismos irrelevantes
ventos perdidos na minha espiral
nada faz sentido – sabem o que faz sentido?,
- o simples
paredes em corredores
macacos em árvores
o lixo
o comer
o beber
o morrer para nascer
perdido em labirintos sem Minotauro,
- qual o sentido?, – pergunto-me, inocente
falso profeta
relincho
- onde está deus?,
quando o sentido se perde
onde se compra outro?,
- é uma dose de sentido – grita o taberneiro
- ai!, – grita a empregada apalpada. Mulher perdida.
Nada se dá sem mulheres.
Nada se sente sem mulheres
Tudo faz sentido
Mesmo o sem sentido
Numa qualquer profusão de sentido
Caro amigo.
Minha jaula, minha jaula.
Minha jaula é ela?
Responde – inferno! – Responde-me do teu inferno,
- responde-me
ignorado
esbatido
gasto
usado
caído
por terra
sem terra
desonra do nexo
neste universo nada sobra
neste mundo nada me encontra,
- onde estás?,
- quem?,
- minha janela!,
- janelas há muitas – grita o gordo
mui bacocos homens,
- janelas há só uma. Esta é minha. Procurem outra.




*não segue o acordo ortográfico.

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