terça-feira, 15 de maio de 2012

Lamento


    Em certos dias sendo o hoje o exemplo mais próximo sento-me com a vontade inabalável de criar ritmos displicentes através das palavras, mas a cada junção de sujeito com predicado sou abalado por golfadas de espírito destroçado que caem para o meu colo da minha fronte, enquanto releio com olhos lassos a mediocridade presente que dei à luz, incapaz de desistir do que a minha vontade persegue retiro-me para absorver o inócuo que crio, perceber as pertinências de uma questão que me ultrapassa em todas as suas vertentes para concluir enquanto desaguo em clichés consuetudinários o nada em que me materializo no meio do nada que me rodeia, ergo o olhar agora pejado de lágrimas e vejo aqueles que simbolizam o pináculo criativo de uma mente, numa mesma mesa de madeira escura e com cicatrizes do tempo: Tolkien graceja com Saramago e Márquez corta o ás de espadas de Lobo Antunes com o duque de trunfo, rebolo em dores que de físico nada têm enquanto imagino a capacidade inerente para nestes dias conectados por nadas, estes homens e mulheres conseguirem sentar-se com nada mais que uma folha branca e uma caneta em busca daquilo que os faz o tic para uma enxurrada caótica de ideias surgir, como o fazem?, como outro sentado em trincheiras de Guerra mórbida enquanto amigos de sempre perecem a seu lado consegue em seu espírito criar um espaço tão vazio de preceitos morais e sociais categorizados através da odiosa expressão do que é normal, um lugar que no fim da equação é toda a tapeçaria mitológica pela qual um novo mundo de seres inferiores se regem para nada mais que plágios disfarçados parirem, arre que estagnamos, arre que de milhões aproveitam-se uma mão cheia e são muitos, mentes que deveriam ser elevadas a uma estratosfera transcendente, deviam ser erigidos templos, deviam ser adorados como deuses perdidos reminiscentes de uma era de outrora, agora caminhamos e raro é aquele que alimente a ideia da criação como representação da fuga aos conceitos formais que de forma tão castradora nos perseguem como o mesmo vigor do Cão de Baskervilles em charnecas góticas, que se foda o normal prego agora e hoje no meio da minha própria condição de ordinário, de mais uma ovelha comandada por pastor que de Caeiro nem a boina tem, sento-me também eu para nadas em forma de frases parir, também eu a colocar-me num patamar de mediocridade presente, e para o futuro para tudo o que tirar destes meu bolsos cheios de tabaco solto de mediocridade latente.
    
    Arre, procura-se génio, procura-se algo que me solte as amarras do que é moralmente aceite e me permita quando fecho os olhos voar por mundos que de metafísico nada têm.
    
    Arre procura-se a criação desligada de tecidos e naperons de fiandeiras omniscientes, ofereçam-me uma garrafa de uísque, uma maço de tabaco e uma noz de madeira munida de velas latinas, qual lua qual quê, Marte?, eu vou pelo mar, caminho por trilhos abertos por homens de coragem inabalável que sem mais nada do que alimento para o coração caminhavam por estradas uniformes de nossa terra e descobriam a cada linha do horizonte um novo bom porto.
    
    Mas quando acordo dos meus sonhos, quando te deixo nua ainda em suave sono minha doce transcendência, percebo, e amaldiço-o o nada cinzento de aborrecimento que me espera e desespero enquanto caminho para a loucura intrinseca. Ergo um archote nesta noite fria e escura para entender o nada que sou no nada que me rodeia.
    
    No fim daquilo que para salvaguardar a minha sanidade eu vejo como estória tu, eu, nós daremos lugar a pó e nossas mentes voam para um outro sitio pejado de verdes e virgens florestas, sem economia que me persiga e me diga que hoje não posso largar pressupostos que me destroem segmentos enormes de espírito, de alma, de coração, de ideias, de criação, de novas aventuras em sítios só por mim imaginados, de usos destituídos de decoro do vernáculo belo, capado devo estar, quieto e calado, de imaginação atada e bem amansada pois ainda hoje preciso de ter umas moedas no bolso para pão e leite.

 

 

 
*este texto não segue aquele acordo.

2 comentários:

George Sand disse...

Entre o pó, o nada e a folha em branco...alguma coisa se há-de arranjar Dillon.

Este é o primeiro blogue com chantagem literária, do mundo (maravilhoso!): suplico-vos partam...a lareira é minha e eu vou ficar sozinho com a minha doce transcendência.
(Isto nos dias pares. Nos ímpares a ideia é ir para Marte e enfrentar o temporal...)
Muito bom Dillon. Que pena, eu não poder voltar...a não ser no verão, quem sabe...quando já não for precisa lareira...:)

Cumprimentos

James Dillon disse...

Agradeço as palavras,

Quanto à lareira, mesmo no verão nada melhor que o seu facho para iluminar a noite, nada melhor que suas faúlhas aleatórias para demonstrarem o ponto certo naquele raciocínio,


Cumprimentos.