sábado, 19 de maio de 2012

Meu estado II


 

      num movimento uníssono e equilibrado massas movem-se, na estação espacial internacional assistem enquanto brincam com pipocas, pesadas e incontáveis massas caminham em busca de um outro cais para serem alimentados, para seus corpos regenerarem de ferimentos, de subnutrição, de desidratação, cais procuram para nutrirem a mente com cultura inacessível, com musica proibida ou escondida sob a égide do euro, massas buscam vitimas para crescerem em valor e conhecimento, para se tornarem mais e melhor, sozinhos encontram-se isolados abandonados, temem sair de casa para serem derrubados do nada por seres opressivos com detectores de cheiros de marca Bosh, detectores de cheiro categorizado como: não tem onde cair morto, mas em grupo a coragem inunda-os e começam a pensar que merecem algo mais que os dejectos com os quais se alimentam, compreendem o que existe dentro de cada um, que existe algo mais que a mediocridade latente que os visita e os faz sentir como um mero nada vazio de razão ou propósito, sem rumo em desespero presente em cada dia, em cada acordar olham o tecto do barraco, outros olham o tecto do mundo e pensam será hoje o dia em que terei a coragem para me atirar do colo de D.Luís I para o Douro?, será hoje que na neblina um Mouro me irá decapitar?, erguem-se para encontrarem a familia a salivar à mesa do pequeno almoço, e choram de dores de barriga vazia entretida a fazer ecos com sons hediondos, sai de casa em desespero com palmáres irrepreensivel e procura ombro onde possa ser util para ser cuspido e esquecido, pessoas altas e belas com carteiras de peles exóticas sacam papeis com numeros para pagarem coisas também elas subtis e geniais e ele saliva, enquanto embacia o vidro da montra da pastelaria, olha cinco pães com os mesmos olhos, com a mesma ânsia que outros quando observam a lua, e foge quando o segurança de pau na mão corre para ele, este ladrãozinho de merda o que esperava?, regressa ao fim do dia feito num moito depois de quilómetros corridos e galgados, de curriculum vitae sujo de lama na mão, procura no bolso moedas negras e escuras para imprimir mais dez mas apercebe-se que o bolso está roto, entra na porta, com a cara de quem suplica ser abatido, a mulher e a filha olham-no com a esperança a irradiar de todos os poros, olham-no nos olhos em busca de uma saída, olham-no como cão novo na chuva procuro um dono digno, e ele sem nada para lhes dar, nem um pão, nem uma canja, nem uma caixa de cerais de marca branca, nada que lhes possa oferecer, a barriga levanta-se em protesto e emite sons irónicos, agora na ribeira rebeldes de espirito entreteêm-se com concursos de cuspo, para fazer passar o tempo, outros afiam catanas para assaltos a bombas de gasolina para porêm comida na mesa para o pai senil e mão encamada, raiva transborda para o rio que fica tingido de vermelho de intenções obscuras, filsofos e ricos de espirito amaldiçoam a sua sorte no topo nos braços de D.Luis I, resmungam a sua sorte encostados ao metal que o limita, o metro passa sem ligar nenhuma ao que dizem ou sentem, elas olham enquanto pregam pedaços de prosa erudita criadas através de estudos conceituados e pesquisas laboriosas mas ninguém quer saber da teoria das cordas e dos buracos negros, isso é ficção, achas que alguma empresa munida de conhecimentos extraordinários vai publicar coisas tão profundas e revolucionárias, mesmo?, pensavas que sim?, devias ter pegado na carpete profunda de Tolkien mudavas as personagens, inventavas novos nomes para raças e gentes, criavas cidades através da mui nobre arte do decalque e depois fazia uma história em que A mais B dá coisa e tal, um Romeu e Julieta mediocre mas com espadas, o português tem ser sofrivel, mas se alguem se queixar dizes que era assim que falavam, mais importante não lhe chames Terra Média, mas podes usar terra alta que é original, Tolkien chora lágrimas de enfado imaginário, e agora podes publicar, é plágio disfarçado de merda literária mas publica-se porque não tem nada a ver com teorias maradas de pesquisa longa e trabalhosa untada com imaginação prodigiosa, se fosse algo novo onde a imaginação é levada ao seu limite sem corda de segurança para salvaguardar o seu regresso não vale o tempo perdido para o mostrar ao publico, mas neste caso se chamares aos Elfos coisas com orelhas afiadas estás no caminho certo, os homens e mulheres que na loucura se deixam embalar pelo seu imaginário, aceitam o seu abraço e percebem a sua importância como vanguarda do progresso deixam-se levar pelos caminhos tortuosos do mundo que vive dentro de nós, arriscam embates mirabolantes com a transcendência, mas esquivam-se a todo o custo, quando falham estão um passo mais perto de nunca regressar ou regressar louco a falar sem sentido, ou com sentido para mais ninguém do que sua sombra, homens e mulheres descobridores imbuidos entre cheiros de drogas maradas e absintos pesados que em noites isoladas, embalados pelo tremelicar de velas usdas em rituais pagões olham para o mundo que os cerca para o ver num ângulo nunca antes entedido são espezinhados sem pausa, ignorados, atirados para o lixo sem dó por homens com a revista maria debaixo do braço, homens que nem têm o cuidado de separar o papel do material orgâncio, como um todo enfiam filosofos e filosofas em baldes sujos e esquecem-nos, no alto dos braços de D. Luis I eles desesperam em desamparo social, sao geniais, são mentes cujo mero olhar de relance nos pode tragar a sanidade, são seres que formam a vanguarda da evolução, mas agora falam e pregam suas ideias para serem olhados de soslaio como loucos vazios de erudição, falam com palavras compridas e complexas, não unem as ideias com mas, ou porquês, atravessam séculos de história transversalmente, ninguém os entende têm que ser loucos, vazios, desamparados, bandidos, ladrões, sai daqui filha que aquele daqui a pouco saca da gaita, barbas fartas, dentes amarelos de tabaco, gengivas sangrentas, escorbuto latente, são merda bipede, são meros tolos vazios e sem mente, automátos sem ideias decentes, teoria das cordas?, a sério, isso não vende, acorda, pesquisa sobre buracos de toupeira no jardim e como usá-las para criar energia renovável, e aí tudo bem podemos publicar?, espera, desculpa, lamento, isso já é muito vanguardista, já sei escreve sobre o movimento pendular do relógio suiço, isso é material seguro, publicamos-te e ainda te arranjámos um cartão de sócio, putos novos limpam as unhas sujas de terra com navalhas enormes e afiadas enquanto pensam quantas gargantas vão cortar para garantirem o salário minimo nesse mês, homens do mar sem peixe para pescar penteiam suas longas cabeleiras em rabos de cavalo que lhes chegam aos pés, oleiam os cabelos com brilhantina comprada à quatro decadas e guardada em arrecadações secretas, velhas desdentadas caminham em precário equilibrio a roçar o rio que corre indecentemente desligado da raiva que desagua nele, pregam peixes velhos e cadavéricos, de olhos escuros e escamas podres, trocam castanhas pútridas mal assadas e castanhas cozidas em àguas de esgotos por favores de teor em choque frontal com a moralidade vigente, e outros dezenas aqui, centenas ali, milhares do outro lado juntam-se em comum não fazer nada a não ser aproveitar o sol enquanto as naves construídas com fundos comunitários, milhares de milhões de moedas de puro ouro pagas a instituições fantasma que nunca ninguém viu ou ouviu falar, milhões dados sem papel em retorno para que estranhos objectos mecânicos fossem construidos, com propulsores potentes alimentados a energia fóssil, milhares de galões ao minutos queimados, enquanto o porco caquético, com as costelas marcadas na pela e as patas coxas assa na brasa, o monstro de metal eleva-se, no horizonte o que era uma mancha surge como algo nunca visto, estranhos pegões caem no solo ao lado de milhares que sem nada para fazer, rejeitados por não serem normais para renderem lucro a alguém se dedicam a apanhar sol, a limpar as unhas ao sol, a untarem seus cabelos com brilhantina ao sol, a pregarem peixe podre e castanhas já mastigadas ao sol, e..., o sol desaparece coberto pelo metal sujo e escuro de um monstro saído das profundezas da terra, bebe em irrisória ironia milhares de litros de fosseis que nunca mais ninguem irá provar em seus proprios engenhos mecânicos, mais num minuto é consumido que por milhares que olham enquanto o sol desaparece e a noite chega, os pegões aterram com um baque de pedra a ser penetrada, um ou outro Ai surge do anonimato da multidão perturbada quando mulheres distraídas a pintarem as unhas com verniz feitos a partir de sangue de gaivota e merda fervida são cortadas em dois pelos frios pegões de metal, surge um monitor, insert coin, diz ele, chamam um tradutor, diz pôr moeda, os eruditos ficam confusos, colocar a moeda, eles anuem, para quê?, lê-se em tom tácito, óbvio para teres sol, insert coin, pôr moeda, colocar moeda para que a máquina abra janelas e o sol entre, ou achas meu caro estúpido que podias estar aqui ao sol a fazer balões com preservativos usados, ninguém te quer, e podias gozar o sol como se fosse uma oferta deste nosso mui amado, activo e cuidadoso estado social?, achas que a luz do sol é barata meu gnú?, eu corto o ás de espadas, alimentado com a bisca e um rei seco com o duque de copas, enquanto pessoas normais e corriqueiras se tornam iguais a filósofos conquistadores de novos campos e conceitos que um dia darão à luz novos âmbitos formais da ciência, homens do lixo e prostitutas, putas e mulheres que distribuem publicidade, electricistas e antigos membros do GOE todos se tornam igual na miséria do choro, na miséria da vida quando nem a luz do sol nos pode banhar pois se tornou como a água da torneira, do rio, da praia: vitima de tributação por ele o omnisciente estado social que cuida de todos nós,
    - um para vós, temos quarenta nove – resmungo, Onhas ergue o olhar, o corpo dele imbuído na sombra,
    - vamos arranjar fuzis, ou quê?,
    - siga,
    - eu tenho sede,
    - siga então,




*sem acordo.
  






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