sexta-feira, 11 de maio de 2012

Meu estado


     Na janela ela diz-me adeus enquanto veste as cuecas, compõe o rímel e pensa em quanto lhe doem coisas de mulher, irmãos juntam-se a mim no adeus sentido, pergunto-me quanto tempo demorará até acordar para a incontornável noção que nunca mais a voltarei a ver, passos ecoam no pavimento, gaivotas produzem sons macabros, vozes de descontentamento surgem paridas do pão que não se encontra, do jornal que não se lê, do tabaco que não se fuma, as sirenes soam ao longe, cada vez mais próximas, também nós escutamos o pedido de ajuda enquanto batalhas campais dignas dos Campos de Pellenor se desenrolam em estabelecimentos comerciais com desconto, pessoas comuns, honestas até onde a vista alcança que só quebram a lei quando sabem que não vão ser descobertas, alguns até admito que apanhariam uma carteira do chão sem tirar o dinheiro dentro, mas agora inebriados pela desejo sanguinário parido do encantamento emanado por papel higiénico a cinquenta por cento do preço consuetudinário marcam-se com tatuagens de guerra, tintas azuis, ao longe parece-me ver highlanders de sotaque carregado a tocarem gaitas de foles nos tempos livres e gritam palavras incompreensíveis, enquanto carregam sob pessoas também elas comuns mas que agora não são mais que usurpadores e ladrões de saque que pertence a mais ninguém do que aos nobres Escoceses, mordem-se em banhos de sangue, arranham-se em busca de se cegaram mutuamente, lutam sofregamente pelo último pedaço de queijo Limiano, rasgam roupas mutuamente como cães atiçados, e ficam a sangrar em chão duro e frio tingido de vermelho, a polícia caminha em ordem, em linhas perfeitas com escudo encostado a escudo protegendo-se uns aos outros, uma falange parece-me ao longe, imperfeita e falaciosa doutrinalmente, pedem calma com megafones mal afinados, vozes que deveriam soar doces, parecem duras e hipócritas, ninguém se rende, ninguém no seu perfeito juízo alimentado pela actual conjuntura irá desistir de tampões de marca branca a cinquenta por cento de desconto, nomes são chamados, nomes hostis e macabros, resposta é água em jactos e carga tola e desconstruída, homens comuns semi vestidos, ensanguentados são espancados sem pausa ou piedade, são rebeldes em busca de preservativos pagos com desconto, tarados sexuais, predadores em potencial, esfolem-nos, batam-lhes com força sem tecto à vista, sangue, quanto mais melhor, cambada de ladrões em busca de coisas a meio preço, são piores que ladrões, piores que violadores, piores que pedófilos, berros de dor misturam-se com ataques verbais fundamentados nos crimes que se assistem, fome é crime, presumo, aproximamo-nos pela areia da Praça, e espreitamos temendo ser também derrubados pela mera intenção de olhar a actividade recolectora de mantimentos, fugimos quando a suspeita começa a espreitar pela janela, passam por nós homens fortes em corrida tresloucada com caixas de electrodomésticos bem seguras por cima da cabeça, bancos irrompem pelas costuras com casas hipotecadas, catrefadas de casas arrumadas aleatoriamente dentro de cofres mal cheirosos, homens de gravata torcem o nariz em desdém pelo cheiro das casas recuperadas, vêm pejadas daquele cheiro a plebe mal cheirosa, mero lixo da condição humana que não consegue pagar a casa e têm que a devolver, tão nobres instituições, o sacrifício necessário para se atreverem a tocar em materiais munidos à priori por homens inferiores, são santos, são mais que santos, são entidades benfeitoras que do alto da sua mente subtil e mui inteligente, muito mais afiada que o comum membro da plebe, encaixados em fatinhos feitos por medida por alfaiates antigos e prósperos e tão elevados na hierarquia desta nossa metafísica se atrevem, loucos, loucos, a tocar em coisas sujas por tesos sem um tostão, que homens enormes, Aliados surge para comprovar o descontentamento de outros desta plebe suja e mal formada, professores de Filosofia entram em retóricas vazias de real convicção, tolos buscam utopias marcadas por ideias tão obsoletas e patéticas como altruísmo, a sério?, já tens um estado social que cuida de vós, mais do que deveria, plebe horrível, ainda querem mais conceitos imaginários paridos a toda a força e com a violência de um trebuchet atirados para esta nossa metafísica, de grupos de dez em grupos de dez, palavras de dez vezes mil, mas realmente o que importam?, nada, deixa-os estar descontentes e com fome, são irrelevantes são o nada que mune a sarjeta desta nação de cor, são castiços de ver a correr por um naco de carne putrefacta mas não têm mais nenhuma utilidade, se milhares se reúnem de capital de distrito em capital de distrito que importa?, eles não tem cavalos treinados para a guerra, nem fatinhos azuis escuros e gravata a condizer como os santos que comandam a batuta, estão descontentes paciência, passam fome, que se lixem, com seus dentes pretos e mal cuidados, ornamentados de cáries e gengivites rasgam gargantas uns aos outros por bolachas Maria em desconto, que importa?, são milhões?, que importa, o que realmente é relevante são aqueles que em cadeiras ornamentadas a ouro milenar colam os dedos da mão esquerda com a mão em direita em pirâmide erudita, olham para baixo com pena mal desenhada no rosto, um sorriso petulante surge quase imperceptível no canto da boca, covinhas de curiosidade nascem pela testa e cantos dos olhos e o nariz, arre o nariz torce-se em trejeitos não esperados pelo odor a plebe mal cheirosa que o vento empurra de praças de distritos por todo o lado, construtores, professores, doutores, empregados de mesa, empregados têxteis, sapadores, um alguidar laboral comum onde todos choram porque têm fome, profetizam marés de revolta pois seus filhos comem arroz com terra e alimentam moscas também elas nojentas e magras, mas o que interessa?, nada porque os fatinhos dançam entre argolas de fumo de charutos importados e maltes raros e saborosos.

 

 
*este texto não aquele coiso do acordo.

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