sábado, 26 de maio de 2012

Poder


        Meus passos ressoam ao longe, arranjaram-me estas botas pesadas e já enlameadas por natura, e eu avanço num passo catastroficamente pesado, ecos meus propagam-se antecipando o meu surgir, encontro quem os ouve em pose dura de reconhecimento de olhos muito abertos prontos a tragarem minha verdade de forma incontestada e absoluta,
    - que idiotas, - encontro-me a dizê-lo baixinho, - arre que isto não é melhor que o ontem, - substituímos os pastores com que objectivo?, somente para outro surgir, um novo possuído de ideias despóticos e ilusões de conquista e imperialismos, e este camuflado?, que é isto?, porque tenho eu que andar com isto quando nunca verei uma trincheira, limitar-me-ei na minha vontade inquestionável com gestos doces de uma mão a enviar centenas para linhas metafisicas ao longo de províncias caquécticas para serem explodidos como dejectos, para serem comidos até aos ossos por ratos e ratas enormes, alimentadas agora com carne virgem e jovem, carne branca sem o mínimo vestígio de corrupção latente, seguem-me como cães, mal eles sabem que não sou mais nem menos que outros, sou somente a personificação de um terceiro que os envia para uma morte rápida e se tiverem sorte indolor,
    - senhor?, - de olhos bem abertos, como persianas em sábados de manha naquelas aldeias do fim do mundo, em que todos se conhecem, nem um sapo pode espirrar sem que todos digam santinho em uníssono e tom monocórdico, interpela-me o bandido, este é um rebelde, em mensagem subliminar anuo e aguardo, - gostaria de um café?,
    aqui está não demorou assim tanto esta gente a acordar, assim me chegam com simpatias e toques de amor, queres me envenenar?, cianeto?, ou algo mais obscuro para não deixar vestígio, com um mero deslize da mão esquerda para quem me acompanha na esquerda este bandido não licenciado com ideias também elas de conquista e poder é subjugado e arrastado para uma sala continua ao corredor, eu abano a cabeça em incompreensão e avanço de espírito perturbado, indiferente aos berros de suplica que as paredes pariam para os meus ouvidos, captava tacitamente sons de máquinas de marcas escritas em cirílico, importadas da longínqua Sibéria que com imponência e uma certa elegância abriam buracos naquela carne pútrida de traidor, esburacavam as rótulas, as mão, os pés, jc à beira daquele imberbe seria um menino, penso com um sorriso enquanto imagino lança a penetrar na carne de outro de outrora,
    - não fiz nada, não sei nada, só queria saber se o comandante gostaria de um café, por favor parem – um acelerar da maquina e um berro que me magoa a audição, arre que começa a irritar-me não basta tentar ainda tem que incomodar?,
    bem, vou dormir a sesta,
    - tu, chama a Svetlana que eu quero alguém que me trague se não o sono não vem,
    - e ele comandante?,
    - castrem-no e soltem-no.




*não segue o ilustre acordo ortográfico.

 

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