quarta-feira, 30 de maio de 2012

Poeiras numa engrenagem que se requer perfeita


    Tenho perfeita noção da minha mortalidade, certos dias, pares presumo, chego a casa, abro o portão mascarado pela ferrugem, caminho pelo escuro guiado pelo farol da minha janela, sirvo-me de uma dose de uísque rasca, aquele de galinha na capa, que de tão mau arrepia-me os pelos dos braços, descalço-me, andei o dia todo de meias rotas?, pego no quer que esteja a ler, sento-me numa cadeira na sala, daquelas que dançam, encontro um ventil na cigarreira empenada e gasta, acendo-o e perco-me em vaga introspecção, ignoro o que de mais violento imerge, sou um cliché ambulante?, esquece, avança, tenho perfeita noção da minha mortalidade?, sim tenho, temo-a?, não, que corajoso que sou já viram?, a esposa dança na cozinha em rituais desinibidos de pressupostos sociais, o cheiro desagua pé ante pé, tenta sem fruto surpreender o meu olfacto , sorvo-o faminto, mas cansado em demasia para roubar a panela, sim, sim, não a temo, pelo menos em dias pares, o tempo que passo aqui é demasiado curto para me perder entre afagos de espírito destroçado pela mero vislumbre da noção que irei perecer quando a data de validade expirar, larga o cigarro, dizem-me, porquê?, tanta coisa e entregaste a hábitos que simplesmente te irão atirar para Dante mais cedo, enfim, dá-me um ano, trezentos e sessenta dias perdidos entre meandros falaciosos de literatura vulcânica, encontrem-me um Lobo Antunes em forma de fêmea, tudo salpicado com cubas livres, ali ao fundo, que eu aceito, trato com Mefistófeles, eu aceito meu caro, um ano vivido sem preocupações absolutamente redundantes como, onde vou arranjar dois tostões para pão?, um ano somente perdido entre orgias sensoriais alimentadas pela mera luxuria de espírito, um ano vivido ao máximo segundo meus mais secretos segredos e desejos, troco-o por toda uma vida de supressão cognitiva, de não comas isso que te faz mal, que se fodam bitaites de saúde, que se fodam joggings matinais, dá-me mais um fino e abstém-te que não entendes, que mania de tornar tudo um debate agora, sou absoluto e irresoluto, não temo perecer pois é o meu destino, já pensei que quando a senilidade começar a dar à costa dizer-lhe para se por a andar, e leva essas fiandeiras nojentas contigo, que eu trato do meu próprio fim, marco com BB King e com a Lucille e vamos os três a cantar mulher gorda pela rua abaixo enquanto bebericamos calmamente dióxido de carbono rumo a um outro lugar, que se fodam os pressupostos, amor anda a comida está pronta, pões a mesa?, sim querida, quero ser cínico ou não?, tenho que pensar, mil e um, mil e dois, mil e três, não, não quero eu gosto da companhia e da mesa, abro uma garrafa de um maduro de má casta perdido no armário mas ainda sem o pó como símbolo de qualidade, o dia correu-te bem?, sim, que fizeste?, sentei-me num parque que não sei nome, não o quero saber, e olhei o céu toda a tarde enquanto ouvia a doce invicta a respirar, olhar impávido, e dinheiro amor?, ganhas-te alguma coisa?, não somente um processo em tribunal parece que é crime, o quê?, olhar por baixo das saias do céu, e tenho praticamente a certeza que tem sífilis, porra homem já fazias alguma coisa em vez de passar o dia a escrevinhar coisas tontas em papeis amarelos, papeis?, folhas de papel?, isso queria eu, agora só me restam areias soltas e folhas castanhas, para já ainda não taxadas, tudo o resto são poeiras numa engrenagem que se requer perfeita, o quê?, a comida está óptima, novo tempero?, sim, achas?, o molho está bom?, óptimo querida, óptimo, recuo de novo para um sitio inalcançável, fazes café querida?, levanta-se de pantufas em forma de Smurfs e roupa de lã larga, o ombro nu revelava a pele tingida de cacau com falta de sol, ainda que de formas suprimidas pela roupa larga e desleixada revelava-se com uma mulher bela, suprimida por cordas invisíveis de moralidades, atada para não se revelar como uma leoa de charneca minha, beberico-o como é suposto, acendo um cigarro de marca amberleaf que ventil é só um por dia, ouço a voz estridente de John Stewart no Daily Show enquanto minha companhia revira os olhos e pensa no quão bom seria ver a fox gaja, querida queres que mude?, silêncio interrompido pelo raciocínio de prós e contras, se diz sim eu fico aborrecido, se diz não ela fica aborrecida, ainda bebia o café, ela sabe o quanto detesto quando parte e eu estou a bebericar o café ainda, não amor, deixa estar, ela ama-me, indubitavelmente, nestes pormenores lê-se o amor de forma tácita, amar aqui e agora não é rasgar-lhe a roupa e possui-la numa qualquer esquina como num cliché pornográfico banhado levemente por musica de elevador, amor reside nos pequenos solavancos da estrada, nos pormenores, gostava de ser mais para ela, gostava de ser mais que um mero pedinte entregue a uma doutrina criada a fogo por mais ninguém que eu próprio, um rumo que sem duvida foge ao planeamento de fiandeiras nórdicas, ou assim me fazem crer, o que é irrelevante, mas que no fim da equação me arrasta para uma morte prematura, para um quarto no casa dos tolos, pois eu sou um deslocado entregue, querida podes mudar a sério, concedo, entregue à minha própria destruição, e faço-o com uma violência quase religiosa, converte-te ou decapito-te digo-o para mim próprio, de vela de estai inchada como uma cadela com cancro de fígado, empurrado por monções fora de época aí vou eu, passo a passo, irredutível, aproxima-se o desfecho pois eu não nasci para viver aqui, eu não quero viver aqui, eu quero uma cerca de estantes pejadas de livros de pretensos eruditos, quero reunir-me em conversas cíclicas com quem nada diz e passa dias a fio em busca infrutífera da sua própria cauda, quero acreditar, acredito que onde estou não é o real estar, quero estar onde me possa perder em folhas brancas livres de troca comercial e preencher a lacunas profundas e inerentes ao meu espírito, temo magoa-la, ela merece melhor, mas no fim o que me resta, viver com algemas?, prefiro, e agora o momento zen, cala-te Stewart, prefiro não estar cá, prefiro não existir, ser uma sombra, prefiro, amo-te garota, olhos lassos atiçados em fogos brandos, faúlhas dançam rumbas exóticas dentro daquela íris, vamos para a cama?, deixo-a levar-me para afagos de uma outra espécie que me farão adiar o inevitável,

 
esgotado em tons cinza adormeço para um acordar que inexoravelmente será igual ao outro.

 

 

 
*sem acordo.

 

8 comentários:

Bartolomeu disse...

Et Voilá!
Mais um condenado da vida... safas-te porque ela te ama e assim vai equilibrando de alguma forma os pratos instáveis de uma balança caprichosa e agitada.
Ai se o mundo fosse só tu e ela...
No sábado vou ao Porto, assistir ao espírito da dança, no coliseu. Pode ser cagente se cruze por aí...

James Dillon disse...

Se não for aí será num outro sítio, numa outra altura com toda a certeza,

cumprimentos,
JD

George Sand disse...

São destas engrenagens que se fazem as vidas. Ao som dos refogados.
Também já vivi vidas assim, ao som de refogados. Até ao dia em que percebi que só viveria alguma eternidade, se ganhasse asas.
Muito bom Dillon

James Dillon disse...

Do que me rodeia somente tiro proveito dos pequenos detalhes, tenho que acreditar que subsiste outro cenário, tudo para manter uma dose de sanidade mínima, de outra maneira posso cometer a loucura de começar a ler Dan Brown na praia na perfeita representação de um mero mais um,

cumprimentos,
JD

Eli disse...

Li ao som de um som que me enviaram: http://www.youtube.com/watch?v=qBQ1NWPb2Ro&feature=related

E... entretanto, perdi-me um pouco, pois cada pensamento me fazia lembrar algo, alguém, até imaginar-te a ti, o próprio. Coisa pouca, esta imaginação de quem desconhece factos e mesmo de quem os conheceu uma vida inteira, porque há sempre mais para além.

(Obrigada por teres aparecido no meu blogue e por teres ficando dando sinais da tua presença.)

P.S. Retira a verificação de letras, por favor. Obrigada. :))

(Ainda agora "cheguei" e já estou aqui a pedir. Coisas de Eli... :)

James Dillon disse...

Concedido Eli,

deixei-me estar naquele bem estar de quem vê as horas passar sem se preocupar a ouvir o que sugeriste em ciclos repetidos, e deixava-me estar mais tempo, até que a manhã me iria atirar para o mundo de novo, prefiro desligar eu do que ser desligado, mas rendido me confesso,

cumprimentos,
JD,


Post Scriptum, as visitas como qualquer acto por gosto são por vontade e não por imposição portanto continuarei a sujar o teu tapete do hall de entrada.

Eli disse...

Dou-me conta de vacilar entre a segunda e a terceira pessoa e acho que vou deixar-me disto - da terceira - que por certo concordarás. Sobre a sugestão, sabes, são coisas que faço, sou assim, digo/escrevo o que me sai e faço-o também... coisas de partilha pouca, mas que sabe tanto quanto o receptor assim o quiser!

Sobre as visitas, olha, quiçá um dia não ficas só pelo hall. E agora "tipo" Post Scriptum, quem tem que ir sou eu, que amanhã é dia de muita coisa que exige de mim, mas da boa, só preciso é de energia... só que deitar cedo não me acontece.

:)

James Dillon disse...

Fazes muito bem, neste caso em todas as vertentes,

(risos),

eu tipicamente deixo-me estar pela insónia,

cumprimentos, um bom amanhã.
JD