terça-feira, 15 de maio de 2012

XXVI


"(...)



     A mulher levantou-se, despiu a camisa de dormir de renda (os pelos do púbis, pensou ele, enterrar a mão, o nariz, o pénis a relinchar, nesse fundo triângulo encaracolado, preto, sem fim) e caminhou, nua, para o quarto de banho, nos pés enormes e camponesa, de dedos mais afastados, quase róseo, como os das crianças. Sacudiu as crinas e os músculos dos flancos (o suor do lombo luzia) e dirigi-me, a trote, na direcção da janela: os testículos encrespavam-se, duros, contra os tendões do ventre, a pila desembainhava-se a pouco e pouco, idêntica a uma tromba rígida, nojenta. Uma espécie de baba luzia-lhe nos beiços e no nariz, os cascos tremiam no tapete: Não posso fazer amor contigo porque me vou separar de ti, sairemos de Aveiro como dois estranhos. Um novo bando de patos desceu na ria numa elipse prudente, o reflexo dos botes ancorados, desbotado, vibrava. Um cilindro fumegante soltou-se-lhe do ânus, tombou com moleza no chão. Deu meia volta no soalho embatendo ao acaso nos móveis (uma garrafa de água pulou de susto no pires) do quarto exíguo de mais para o seu longo tronco castanho, uma das ferraduras desfez o calorífero metálico engasgado na parede, quebrando-lhes duas ou três ripas paralelas, o tabuleiro escorregou com estrépido da cadeira. Gosto das tuas nádegas caídas, gosto das tuas coxas, gosto dos ombros pendentes, das clavículas em assento circunflexo, o vapor da água saía da casa de banho em rolos esbranquiçados e ténues que o espelho do armário em frente devolvia, tinhas corrido a cortina de plástico e posto a touca transparente na cabeça, distinguia-te o vulto, curvado, a ensaboar as pernas, vou penetrar-te por detrás, rasgar-te a vulva, dobrar-te os rins (atónitos) no esmalte da banheira, ergueu-se nos membros traseiros num sopro furioso:
    - O que é isto – disse a mulher de esponja na mão -, deu-te alguma coisa, estás maluco?
    Havia tanta humidade que te distinguia mal o tronco, os olhos redondos de espanto sob a touca, as mamas pouco firmes de mamilos escuros. A cauda raspava na porta, as narinas aspiravam acidamente o ar, o pescoço agitava-se, frenético, para um e outro lado:
    - Chega-te para lá – pediu a mulher -, deu-te de repente a chonezisse hoje?
    E pousava o sabonete, e tentava proteger-se com escudo irrisório da esponja (De que são feitas as esponjas, perguntou um sussurrozinho intrigado dentro dele, bichos do mar, produtos sintéticos made in Sacavém?), rompeu a cortina com o focinho e com os dentes enormes enquanto ela se refugiava, surpreendida, aflita, quase agradada, no canto das torneiras, os pêlos do púbis, molhados, escorriam, apoiei os cascos nos azulejos da parede, raspando o barro vidrado com o ferro, meias-luas de lama, meias-luas de merda, Pisei de certeza meus próprios cagalhões de há bocadinho, um outro cilindro, agora menor, desprendeu-se-lhe do ânus produzindo um ruído mate no tapete de borracha amarela com furinhos, e no instante de a empalar, de um só golpe, de baixo para cima, com toda a raivosa força concentrada no seu corpo, viu no espelho uma imagem difusa de cavalo, com um penacho no topo da cabeça como os animais de circo.
    - Hop – gritava o pai fazendo estalar o chicote -, hop, hop. – E ele pulava obstáculos numa obediência aplicada, girava sobre si próprio, empinava-se, regressava.
    Abotoou a breguilha, envergonhado, e tornou ao quarto para mudar a camisa encharcada. Os sapatos de ténis produziam um ruído esquisito, de língua, no chão. A Marília embrulhada na toalha, com a touca na nuca e uma mecha oblíqua na testa, veio atrás dele, entontecida, a pingar:
    - Que é que tu tomaste – disse ela -, o que te sucedeu hoje?

(...)"

 

 
**Excerto retirado da obra Explicação dos Pássaros, de António Lobo Antunes.

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