sexta-feira, 22 de junho de 2012

LI

Abstenho-me,




*Tenacious D, Fuck her gently

Ontem

8 de Janeiro de 2011


  O ciúme é das coisas mais tolas, mais quentes, menos fáceis de suprimir, mais voláteis e acima de tudo mais humanas.
  Mesmo eu sou ciumento, pois daqui, do alto do meu cavalo ainda sou humano.


*sem acordo

terça-feira, 19 de junho de 2012

L

Quando o escuto tudo faz sentido,





*Dealema, Fado Vadio
 

"Tudo que eu tenho é uma caneta e o pôr do sol
desenhado
No canto de um papel, amarrotado pelo meu ódio
Acredito em pesadelos belos
Quando a vida dá-me estalos com luvas de ferro,
mano
Queimo tempo como nicotina acesa ao vento
Dou poemas para amigos, empatia vou colhendo
Dealema colectivo, na tempestade o meu abrigo
Procura o teu porque nem o céu é o limite
Carrego o meu orgulho como um amuleto ao peito
Sujeito a ser comido por este mundo imperfeito
Respiro música, fria como a rua escura
Necessito a vossa ajuda, temos que tagar a lua
Prefiro inimigos do que falsos amigos
Isto é o fado dum poeta vadio de bolsos lisos
Mas de coração cheio...Vou compreendendo
Que a máquina que move a vida é o sentimento
Desde os blocos de cimento às salas de julgamento
Noventa por cento de nós acabam por ir dentro
Acredita em mim, mano. A reputação é fachada
Perante os obstáculos diários nesta longa caminhada
Num dia temos tudo, no outro não temos nada
Bem ou mal, nunca percas o equilíbrio, há que ser
racional
Porque o amor é a um passo do ódio
Nas situações extremas, tens que ser frio para
resolver problemas
Porque quem tem tudo, vive por trás de um escudo
Mas quem não tem nada, vive pela lei da espada
A sentença é pesada, mas encara-a de frente
Quem tem vergonha do que sente, perde sempre e nunca
ganha
O peso na consciência é clara evidência da falta de
experiência
No campo do relacionamento humano
Eu mantenho-me distante do que considero inoportuno
Comandante do meu rumo, sou eu quem faz o meu turno
Tudo aquilo que vivemos são histórias
Tudo o que temos agora são memórias
Sempre olhando em frente, verso a verso
Criando o futuro, passo a passo
Nada aqui é permanente
Tudo o que tem começo também acaba
Cinzas, pó e nada
Os filhos da madrugada, bem aventurados
O nosso fado faz chorar as pedras da calçada
A brilhar como o orvalho na madrugada
O nosso fado faz chorar as pedras da calçada
Levamos músicas até às últimas consequências
O impacto altera a consciência
Há quem viva esta vida em vão
Sem dar valor à dádiva, sem acção
Como um espectador de televisão
Qual é a direcção? Quem saberá...
Vivemos ao Deus dará
Muita gente tira e muita pouca dá
A vida são dois dias, um deles é para acordar
O tempo começa a apertar
Está na altura de expulsar os vendilhões do templo
Criar sustento, parar, pensar e apreciar o momento
Somos guiados por valores:
Uma voz interior que me move
Encontro o verdadeiro norte
O coração sofre quando alguém parte
Porque o amor é forte como a morte
E foi na arte de viver que nos reconhecemos
Erguemos isto desde os velhos tempos, que saudade!
A nossa história é única, como uma rubrica
Canto esta canção com paixão, como se fosse a
última
Vivemos tempos soturnos, nestes locus horrendus
Não é à toa que vêm à tona os nossos medos mais
intensos
Nós lidamos com sentimentos, sem ressentimentos
Seguimos pressentimentos
Vozes interiores sussurram orientação
Dão-nos a obrigação de ver na vida uma benção
Apesar da sucessão de depressões e desilusões
Perdi batalhas, mas nunca perdi lições
Aos dezasseis a vida eram rimas e sprays
Dias bem difíceis que passava para os papéis
Ansiedades e angústias abalavam a alma
Anestesiava os sentidos, tentava manter a calma
Vi sonhos ruírem como castelos de cartas
Quase desacreditei, abandonei as palavras
Neste mundo de mau carma, armas e pragas
Invado-me... A minha imaginação tem asas
Exorcizo fantasmas nas folhas de um caderno
Através da criação eu consigo ser eterno
Poeta boémio, gato vadio
Noctívago nas ruas deste Porto sombrio
Os meus pais perguntam-me o que é que eu vou fazer
da vida
Prometo-vos, é este o ano em que tudo cambia
Tenho fé, esse é o meu trunfo na manga
Junto com os meus manos dou o grito do ipiranga
Tudo aquilo que vivemos são histórias
Tudo o que temos agora são memórias
Sempre olhando em frente, verso a verso
Criando o futuro, passo a passo
Nada aqui é permanente
Tudo o que tem começo também acaba
Cinzas, pó e nada
Os filhos da madrugada, bem aventurados
O nosso fado faz chorar as pedras da calçada
Tudo aquilo que vivemos são histórias
Tudo o que temos agora são memórias
Verso a verso, passo a passo
Cinzas, pó e nada..."





A lua que o muda

  (lamento sinto-me um tudo nada agressivo)

  Ontem calcei umas botas de vaqueiro e andei por ai, mal o sol se pousou no ninho de palhas seca onde ronrona entre fodas com outros coisas quentes que não percebo, calcei minhas botas e sai porta fora com a violência de um martelo na bigorna,
  - debandou, - dizem uns sem caras, ou de cem caras ao fundo em prédios anónimos, 
  empurram-se entre orgias em honra a Baco de uma outra estória, mas interrompem coitos e outros assuntos para espreitarem entre cortinas e persianas, quando o barulho do metal da minha porta se propaga entre farrapos pela noite, espreitam na perfeita segurança de quem pensa que não é visto, e não é em facto, mas é sentido, aqueles olhares promíscuos, não mais que os meus, não menos que os meus, somente tão promíscuos e vis como os meus, arrepiam-me os pelos do pescoço, da mesma forma que um gato se curva em desafio,
  - onde vai?, - também me questiono, assim como eles que olham tolhidos pelas sombras ainda montados uns nos outros, homem com homem, mulher com mulher, homem com homem, homens e mulheres que conheço, que compram detergentes e sabonetes na mesma loja tradicional da esquina que eu, e dizem sempre bom dia mesmo quando sabem que eu não digo bom dia, mas agora deitam-se uns nos outros, comendo-se em carnes e espíritos enquanto os fluídos de um acabam dentro doutro em perfeito caos de tesões que nascem simplesmente porque têm que nascer, e enfiar-se onde se possam enfiar,
  (debandei de mim próprio),
  mas ando agora rumo a um portão, com minhas botas de vaqueiro que chiam da novidade do movimento, protestam para mim a violência do meu pé largo de mindinho petulante e desnecessário, resmungam e entreguem preces com cheiro a cabedal a seus deuses para que eu tombe antes de chegar ao paralelo da rua.
  Ninguém sai mais à rua, todos temem o escuro tal e qual o que os faz temer o escuro temem coisas com alho, com cheiro de alho, com sabor de alho,
  - não te rias, - sussurro para mim quando sinto o encrespar dos músculos rumo ao riso aberto, eles andam por aí, entre pútridas fodas esquina sim, esquina não, agarram-se à carne como se fosse liquido no deserto, correm corpos estranhos com línguas secas, colam corpos frios a corpos que ardem de luxurias que surpreendem quem as sente, cravam dentes enquanto comem sensações e sugam-nos entre suspiros e arranhares de carne, bafejam brisas de um outro mundo no pescoço oferecido, tingido de escarlate, em brilho de diamante entre suores, e um,
  - ai que é tão bom isso, mais,- é parido dos crimes, dos criminosos em possessões mundanas muito ao género,
  - tu és minha, agora abre as penas, - ou, - tu és meu agora empina-te para mim, ergue-te, - comem corações que ainda fumegam de calores mornos da carne viva de onde foram arrancados, lambem os dedos enlameados de tons vermelhos, correm tão depressa que não os vejo, fodem como bestas de um outro sítio,
   - é verdade que conseguem aguentar um tesão seis horas?,
   tão naive, 
  - não eras fodida, eras estripada, - ri-se, quem imagino ri-se, - porque te ris?,
  ando de botas enquanto sinto movimentos e sons de coisas que estalam, de ventos criados por não vivos, arrasto meus passos e abano um pau bem à minha frente, ando sem oposição, somente aguardando com antecipação o momento em que algo ou alguém irá rasgar a minha traqueia, ou algo me irá violar colocar no chão e rasgar-me, prostrar-me da dignidade e me possuir, mas desde que não toquem nas botas,
  - então?,
  que mais poderia eu esperar neste dia de lua pesada, ao sair de casa em botas de vaqueiro?

*não segue o acordo ortográfico.

sábado, 16 de junho de 2012

XLIX

Cadência sem tecto à vista,






*Juno Reactor, Navras

Incoerência

  Quinze de Junho de dois mil e doze nada me visita como esta vontade sem medida que me empurra para uma folha em branco, sem esboço que delineie os limites da criação, largo aquelas amarras que pendem dos bitates eruditos de quem me diz que não podes dizer coisas assim, um pato de plástico grita-me,
  - são quatro da manhã,
  ali como sempre uma mulher morena dorme,
  mas eu aqui estou a diluir-me entre frases passadas, frases presentes e fados de um futuro tão longínquo para todos excepto para mim, adorno a vontade de não fazer sentido e abro o meu invólucro a nada mais que o sem sentido que para mim e só para mim me diz tanto, vocês, sendo uma indefinição sem limites, ao contrário destas cordas que me coçam os músculos de um corpo gordo, um corpo nojento, munido de pregas de gordura que pendem soltas enquanto me imagino inundado de suores a saltar uma corda que me prende,
  - Jasmim estás a fugir à fragrância,
   sim, que me inunda, que me visita e eu não a aproveito, cerro dentes e deixo de ser eu para ser a soma das partes fragmentadas de uma pequena, ínfima existência, enquanto vozes belas de letras em perfeito português atirado para os meus sentidos das profundezas de almas nobres, agora sim,

  "um murmúrio ao longe, um roçar de penas numa arpa de metais enferrujadas, um ruído agradável que se aproxima tão levemente que o silêncio em atitudes de bandido disturba, gotas d'um orvalho perfeito caem pé ante pé, umas mais fortes que as outras, todas se desfazem nesta minha pele que se arrepia, minha alma que se estica mesmo sem formato físico, estica-se entre arrepios que me percorrem, arre este ruído que me adocica os sentidos e eu não sei onde vai parar, árvores que de ramos dados em movimentos pendulares se entregam a um afago da tormenta, meu corpo que se arrepia em ritmo incessante, contorço-me, nascem em mim esgares incorrectos como se meu corpo estivesse possuído e,
  silêncio, para um orvalho esquecido que ainda cai, de novo entre gotas amigas que choram suas filhas e filhos rumo a um oblívio mais que certo, para um renascimento em ciclo jamais findo, tocam em cordas que pendem do céu, cordas de cetim dourado, em balanço entre ondas magnéticas que saltam entre mim e outros que não estão aqui, tudo misturado, parece perfeito, mas nunca alcançável, arre corpo sem controle, sem trela que o amarre, eu sei que ali ao fundo caminha o que me fará brotar lágrimas sem conta, lágrimas esquecidas, uma mente que bate nas esquinas feitas de ossos meus, ossos duros para me conter,
  o ritmo acelera a minha vida, que se foda ela, agora neste momento entre agudos e graves, no meio deste ruído belo que me possui como uma entidade que me transcende, nada mais tem relevo que este momento, abro-me sem dúvidas para ela e aqui e agora aceito seu pedido para se unir a mim, para se tornar una comigo, arre arrepios que parem lágrimas, que correm meu corpo, aí que temo quando parar não discernir os caracteres que desenhei, nunca digas nunca, nunca atires a toalha ao chão, como o sei, mas também eu sou humano, também eu choro, também eu sinto dor, também eu sei que a verdade não é tudo, em reinos como este que criei para mim, para um eu meu, e somente um eu dos meus, um reino de anos dos quais restam meses, também eu me sinto encurralado, não por questões mundanas, mas sim por este som que chega ao clímax, um pico sem igual, e eu temo partir demasiado cedo, e temo que ele parta mais cedo, que me abandone, que a abandone, e me deixe, que a deixe, não partas, não partirei, não me deixes, não a deixarei, como posso eu enfrentar as nuvens e a chuva sem a tua aura a cercar-me, tua capa a conceder-me teu calor, teu amor a dar-me conforto?,
  entre reticências mal contidas, reticências que se encaminham para o fim, mas se resguardam para num último instante se abrirem somente para mim, caem nuas entre arestas mal aparadas deste meu ser,
  a escrever linhas, linhas sem sentido, linhas que ardem, sinto-me só, mas quando me invades os sentidos, e mesmo assim eu ainda escrevo com os meus pés na areia, com as minhas solas na calçada, acabo mesmo assim contigo ou sem ti a ver fumos que se elevam de mim, fumos empurrados por correntes de ar que não se fazem sentir, tudo o que sinto é um arrepio na espinha, e no coração que salta de cada vez que um cão ladra e uma voz me perturba, não consigo parar aquilo que sem ser por vontade minha comecei, como se um povo de eus me expressassem em ritmos de acções, como se tivesse dentro de mim centenas, milhares de eus em formatos atómicos e se digladiassem mutuamente pelo controlo deste meu invólucro, violo-me para me encontrar, sofro pela espera de quem me irá herdar, mas no fim: para onde vou?, acabo sempre por o dizer em verdade, nunca em mentira, ir?, hoje?, não sei nem porque vou, quando aqui e agora subsisto deste ruído que me ama, e o silêncio que amo perturba-o, arre silêncio,
  - vai para ir e não regresses,
  e partiu, meu silêncio, rumo a oriente, aqui fico com o ruído e sua irmã a luz da lua, aqui ficamos e brilhámos juntos,
  movido por nada mais que a procura da perfeição momentânea, aquele meu irmão na falange espartana a gritar em plena carnificina,
  - o normal em situações extraordinárias,
  isso é ser herói, é ser perfeito,
  me deixo levar por mares ritmados, ou mares que quebram dentro do ritmo, e um som de arpa que vem de um outro sitio, a minha puta de transcendência o traz atado na tanga de rendas vermelhas, me deixo em redundâncias cíclicas arrastar por lamas sujas de verdades bem reais, tudo para estar contigo ao som desta musica, enquanto te amar, enquanto teu corpo me promover tesões e outros sentires que tal, perante ti, perante vós me imolo entre tuas saias, de peles pendentes, agarrado a tuas pernas, num único desejo ardente de me erguer uma ultima vez, aqui me desfaço,
  desfiz-me,
  para te esperar, enquanto vós me esperais num olhar sem complexos para meu corpo entre bolhas e postulas nauseabundas."

  Caio para dormir entre teclados e mortalhas, entre tabacos soltos e isqueiros, entre cinzas acres e ódios escondidos enquanto ali, a dois passos uma mulher dá murmúrios soltos de um sonho não meu e me procura no outro lado da cama.


*Não segue o acordo ortográfico.
  

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Primeiro Dia

  Um homem caminha com a companhia do eco dos seus passos, seus olhos tragam o escuro em busca de um farrapo de luz para o guiar para onde o escuro não alcança, suas mãos com cortes vermelhos, de onde uma substância escorre, rasgadas de fricções com caras de surpresa, apalpam paredes de relevos agressivos em busca do ponto em que terminam.
  Uma mulher que navega por um universo de brancos, de olhos cerrados incapazes de sorverem mais raios iluminados, passo a passo em busca do seu eco, para não o ouvir, enquanto o som se propaga por infinitos sem término, seu mundo: um nada de luz sem quebras de página, de mãos brancas como cal erguidas em  sonar de tactos, e uma demanda pelo seu fim, em abraços de alma, entre rezas rasgadas do ventre liso para Hádes e a sua sombra, uma mulher que procura entre aspirares sôfregos de ar reluzente por um contacto sólido, seja parede, humano, ou animal, talvez vegetal ou outro ainda não qualificável, gritos que sobem em tom, brados rasgados de ódios passivos, enquanto a incompreensão e a desorientação são sucedidas por uma loucura pura, enquanto luzes concentradas a despem de tecidos brancos, seios brotam entre farpas fumegantes de um vestido em trapos.
  Uma criança ali, pensa um velho grisalho entre paisagens verdes, a copa das árvores centenárias concedem uma sombra onde se senta para nada mais que escutar e imaginar o que vê: uma criança em lado nenhum, um homem entre sombras, uma mulher tenra e bela com farrapos que fumegam perdida numa charneca de luz contínua, o velho de barbas grisalhas, de lábios grossos e húmidos, de nariz achatado, com um longo cabelo grisalho de sujidades, apoiado num cajado com estranhos espinhos pontiagudos embutidos, que furariam carnes de todos, mas não furam as dele, como quem presta vassalagem a seu mestre, coça a barba num trejeito de quem vê algo que os outros não compreendem, move-se para o sol lhe bater, iluminar sua pele ondulada, onde entre pregas secas de epiderme se escondem segredos perdidos de outras realidades, sentindo-se em cima de uma muralha enquanto vê aquele homem, aquela mulher e aquela criança que (ainda) não corre entre campos de cereais que (ainda) não foram semeados, o tempo não percorre seu destino preso num vácuo parido da vontade não perceptível por nós que (ainda) não existimos.
  Encantamentos arcanos surgem enquanto o ar dança ao ritmo de palavras incompreensíveis, palavras ornamentadas por malmequeres, palavras com cheiros de incensos tolos movidos por vontades que transcendem os ingredientes, seres desconhecidos, (mesmo agora), de onde vos descrevo, voam em círculos rectos, parecem gaivotas, parecem noivas, não fosse a juba, parecem leoas não fossem as penas, parecem sapos, não crocitassem, e o homem apoiado num cajado que nos oferece luzes sem cores definidas, a copa das árvores abanam-se mesmo neste vácuo de elementos naturais, enquanto ao longe, tão longe que não consigo ver mas alguém me o disse, e esse alguém, corrijo, essa alguém não se engana, embora se comporte em relação a mim como uma ninfomaníaca em busca do amor dos mortais, ela me disse e eu acredito que a sombra onde o homem caíra em posição fetal, ao mesmo tempo que gritava desesperos em impróprios linguísticos para o horizonte que não existe (ainda), com uma loucura tácita a remar com a violência de Viquingues em rumos de conquista, loucura que dança ao mesmo ritmo que as palavras arcanas são soltas dos lábios grossos do velho apoiado no cajado, disse-me que a mulher corria também em desespero tentando cair no solo sem nunca o encontrar, corria em loucura tentado evitar a luz que lhe queima a pele branca como nuvens de verão, a luz abanava alicerces de um nada que somente consigo imaginar, e a sombra move-se em bloco enquanto silabas inalcançáveis se juntam em palavras que não compreendo, quem nem ela, minha puta de transcendência consegue discernir, ao longe escuto as fundações de ferros raros e metais preciosos deste meu mundo serem movidas e a luz a rasgar a sombra com a violência de um ariete movido por homens portadores da essência da lâmina, homens largos e belos de outros tempos (que ainda não aconteceram), mistura-se tudo, o que é escuro com o que é somente luz, tudo numa mistela vanguardista, tudo numa unidade impossível de absorver pela mera visão de um mortal, mas ela vê, olha de frente para o escuro que dança com a luz enquanto homem cobre com seu corpo mutilado uma mulher banhada em sangues seus, tudo se junta, o idoso agora de joelhos e com um sorriso desenhado a lápis de cera por uma criança que (ainda) não existe, abre-se de braços bem abertos, de penas separadas com uma túnica de mil cores, e,
  - bang,
  tudo se conjuga em algo e encontro-me ali a caminhar por estradas em becos sem fim, por florestas e mares no vosso dorso ò doce transcendência e vejo vales, e penínsulas, e cordilheiras, um mundo sob um caldeirão que fumega e (ainda) está vivo, onde homem e mulher unidos se perdem propositadamente num tango que não começou (ainda) mas nunca termina, e uma criança ali à frente corre em rios de magma, e quando espirra, meu, vosso mundo move-se entre crostas que estalam.
  Eu aqui no alto enquanto observo o que floresce, enquanto vejo mulheres, homens e crianças que lutam todos os dias para atingir o fim do dia e rasgar pão para o dividir entre todos, árvores que abanam dentro do tempo, mares que se erguem em caos sublime, olho para vós minha doce transcendência, lágrimas correm livres em sulcos somente meus, 
  - assim nasceu uma perfeição que conspurcamos a cada acto livre de respirar.



*sem acordo


**Participação de Junho na Fábrica de Letras

quarta-feira, 13 de junho de 2012

XLVIII

é, é,


*Manel Cruz, Canção da Canção da Lua.

Fugas mentais

  Quando poucos tostões me restam, adoro juntá-los e com a aritmética bem feita ir até uma superfície comercial comprar comidas e bebidas corriqueiras, fazer a estimativa por excesso do que levo para quando chegar a hora de pagar perceber que pago menos do que pensei e assim ficar feliz com o resultado,
  - és tão estúpido,
  - ?.


*Sem acordo

segunda-feira, 11 de junho de 2012

XLVII

Opção três?,




Sam the Kid, 16/12/95 (Sofia)

Dicotomia

  Sabes que te odeio minha grandessíssima...,
  - bom dia amor,
  ressonas, tens mau hálito, tens coisas estranhas nos olhos, deitei-me com um quadro belo, para acordar com um rascunho de Picasso,
  - estás linda,
  cheiras a suor, cheiras a refogado esquecido no frigorífico, a sopa de pedra envelhecida à força,
  - és linda,
  está calada, o que dizes é oco, vazio de razão, vazio de vontade, és patética,
  - isso é tão interessante,
  olha-me esse cabelo sem razão ou lógica, desgrenhado, arrebitado em rectas caóticas, em perpendiculares ridículas, e essa cor?, nem preta, nem castanha, juro que se vê aqui ou ali umas pontas brancas,
  - pareces uma leoa amor, a minha leoa,
  tens o nariz sujo de coisas, não te lavas?, consigo ver daqui coisas penduradas, bolas achatadas, gosmas transparentes em forma de teias,
  - beijinho à esquimó amor?,
  olha-me essa púbis, gostaria de te tragar aqui e agora, sentir teu sabor a inundar meu gosto, gostaria de te segurar os seios e prender-te as penas com as axilas num encaixe perfeito, enquanto endiabrada com vontade própria minha língua te rasga as carnes mornas, tua bacia elevar-se-ia em espasmos aleatórios, que chegariam sem aviso e sem cesso, mas olha-me para essa púbis,
  - queres-te vir querida?, não só tu, eu estou bem,
  e esses lábios?, gretados, rasgados, esses dentes?, amarelos de fumos meus,
  - já que insistes querida bebe-o,
  olha como te vestes pareces um espantalho, uma montra de loja barata, uma feirante mal vestida,
  - estás tão bonita,
  ainda não foste embora?, não me ajudas a fazer a cama?, não me ajudas a levantar a mesa do pequeno almoço?, não me ajudas a limpar o chão sujo de patas de muitos que não eu?, não me...,
  - deixa estar meu coração eu faço, já vais?, fica mais um pouco, despe-te, põe-te assim, isso,
  sabes que te detesto?, que o teu ar me cria raivas mal contidas, que tudo o que fazes acelera meu peito em ódios crus impossíveis de suster, que a tua voz me faz chorar de desesperos?, sabes que tudo o que quero é sair daqui?, o pensamento de te possuir uma vez mais enquanto imagino outras e outros faz-me encarar a castração e o meu desenvolvimento consequente num gato gordo como algo maravilhoso,
  - amo-te,
  não te quero ver mais,
  - volta depressa,
  odeio-te,
  - amo-te.



* Sem acordo.
 

XLVI

Do alto do meu potro de guerra te digo sem piedades dignas,



*System of a Down, Lost in Hollywood


Momentos paralelos

i

  Se embora, sem embora que me arrebite do poço de luxúria por onde navego,

ii

  um sol que arranha a persiana, uma brisa que docemente beija o reposteiro, ele ainda em estado vegetativo, em nuances de acordar mais pelo cansaço de dormir, do que pelo despertar, enquanto sinagogas ao fundo, em pedras puídas em bordados dourados, ostenta-se na rua como árvore de natal,

iii

  somente te aguarda entre águas de luxurias em lembranças lá ao longe, somente sei que a saudade te adormece os sentidos, deixa-os inertes e brilhantes com a violência áspera de uma língua de gato, somente sei que sabes que não existe nenhum recanto, nenhuma pedra com muco, ou com musgo por levantar onde te possas esconder,

iv

  escarafuncham as ideias, serás ourives?, usualmente lidas com elas e crias monumentos com relevos e variados ângulos sem definição, através de ideias que batem à costa em sonhos de cansaços e suores frios, qual a sensação? não existe sensação?, maldizer para ti ó Henry Ford das ideias,

v

  ecoa nele a vontade de abraçar o nada,
  - tic - tac,
  comunga atrás dele o pássaro sem asas e com cheiros a mofo,
  - vi a tua validade e ainda estás distante, mui distante, tão distante que o horizonte se encontra em choques frontais sem a ver,
  - vi a tua validade e já expirou,
  - tic - tac,
  quem és?, quem pensas que és?, para assim me atirares para ciclos de dolorosas indefinições, pensas tu?, penso eu?, por quantas sombras ele se move, quantas vezes se virou para o lado para suspirar, mon amour, tão rude enquanto olhava entre esquinas lascadas,

vi

  raivas mal contidas que chafurdam neste charco de proveniência duvidosa, e um homem que não pára, em movimentos pendulares absurdos, o solo de madeiras inchadas de humidades antigas ginga e chia em protestos roncados, e um homem que dança de rabo em abanicos mal calculados enquanto o aspirador suga em gestos que outros pensam para corar, e um outro sentado de costas para o anterior, perdido entre apelos ao silêncio, em sons que se precipitam em escaladas por joanetes envelhecidos, de veias azuis, abandonadas, casa agora a roedores e ninho ornamentado por sedas de teias de viúvas incolores,

vii

  pinguins e gaivotas do mesmo sexo de mãos dadas em comunhão de penas e salivas, em comunhão de bens e mesas com comidas estranhas de peixes crus, olham para eles decretos bolorentos  enquanto coçam os bicos monocromáticos, decretos que tornam justo pinguim e gaivota darem as mãos, e elas sem necessidades de decretos para tornar justo o que é justo e puro, nem mais nem menos que os outros tão corriqueiros: cão e cadela, gato e gata, iguais em simetria tão absoluta, digo eu quando ele me o disse, e brado-o sem facho mas com grado com confiança que de falácia nem miragem,

viii

  musicas nuas de sonoridade agradável, mas mulheres perras elevam-se, incham os diafragmas, expandem-no para chegar aqueles agudos perto do cume do K2, os pés de camponesas de dedos largos e unhas pintadas a terra, de pé fincado no chão em elevação instintiva para mais alto e mais alto nos, te alcançarem ó grito, perdão, ó musica.




* sem acordo.

domingo, 10 de junho de 2012

XLV

Recosto-me com algo que me pesa no colo,






*Apocalyptica, One

Despedida

  Porque choras, serão lágrimas de crocodilo?, és tão velha que mesmo que chores porque te moves internamente em ondas a crepitar perto daquela tua praia que no fim te promove o choro, és tão velha que seriam sempre lágrimas de crocodilo, não, não trinques o lábio em raiva mal contida, não estou a dizer que não sentes e choras porque te encontras no meio de uma tenebrosa avalanche de sentimentos, digo-te choras, e parecem lágrimas de crocodilo porque és tão velha que nada mais te posso dizer do que parece, como é?, posso ver mais que isso?, realmente poderia se não fosse um velhaco embalado por esta Glock que descansa no meu colo.

  Quem são estas pessoas?, de onde provêm estes crocitos tolos, obtusos, e uns terceiros em formas geométricas intrincadas desenhadas por maus pequenas e suaves, de unhas arranjadas, de unhas belas, limadas, sem arestas abruptas, de onde vos falam e que vos empurra a dizer-me essas coisas, coisas que não dizeis mas chorais, e e emites crocitos de terror e pavor que me afastam ainda para mais longe.

  As sombras embebem-se em pedaços soltos de luz de velas categóricas e um plac, plac, plac, ali ao fundo onde a luz natural nos visita, de algerozes húmidos de orvalho que se recusa ir, a luz cautelosa entre afagos do reino das trevas, não se mistura com as luzes artificias, tal aventura seria fatal para raios amarelos e puros, bancos ao longo da parede e tudo numa mistela de gentes que não conheço, nunca os vi, não amo, nem com aquele amor de um primo distante que nunca vi mas sempre ouvi falar e tem boas notas, e uma tez diferente, quem são estás pessoas?, crocitam em voar pesado, em círculos lineares sob a minha cabeça fria, destituída de visão, mas eu vejo porque me encontro aqui não aqui, mas aqui, sem corpo, mas com alma, a que resistiu ao embate.

  A minha mãe fria mas o coração ainda bate, penso, para parar, mas parto, e digo para mais ninguém do que a sombra que o Cohiba emitia neste escritório fechado, beberico calmamente um pequeno gole, um gole patético de um malte digno, e recosto-me neste cadeirão,
  - existem momentos que nos perguntamos qual a ideia de sentir, quando eu sei que o que sinto me atira para um outro sitio, em palavras de alguém muito diferente de mim, não me peçam definições, sei tão bem como o próximo, talvez aqui me engane, que o meu caminho não é aqui, estagno perdido entre afagos simétricos de ideias, umas boas e no outro lado o que é inverso e vivo entre escolhas tão estranhas como dicotómicas, não sei para onde vou, mas aqui não fico, peço a esses tais que me perdoem, mas o rufar dos vossos tambores entrega-vos, vocês também aguardam o acto como corvos da tormenta.

 De volta ao local onde as sombras não se misturam, de um lado a luz pura que se pudesse sentir me aqueceria a fronte cadavérica, no outro aquelas luzes que me imbuem na perfeita oposição de cinema, estas pessoas, família, amigos que me rodeiam em ritual forçado pela imposição moral, de boca fechada, em roupas escuras e aborrecidas, os amigos, aqueles falsos reúnem-se fora da porta a sentir o sol e a papar cigarros especiais de incensos bem cheirosos, mas, existe aqui um grande mas, aqueles que importam encontram-se num pico a mijar ao vento e a dizer coisas más acerca de mim, enquanto o cadáver está quente a dançar rumbas sensuais uns com os outros, a aquecer para uma qualquer órgia sem nada de sexual, pois sabem tão bem quanto eu, embora eu só saiba agora, que mal descolasse a minha alma do corpo, cairia de cócoras em insensibilidade e me riria de todo aquele trejeito, daquela pose como se tudo terminasse ali, da tristeza de quem não compreende, do pior, da tristeza de quem nada sente e se esforça como um actor perdido no palco por parecer, ergue a mão suada de nervos, serei desmascarado?, talvez faça mais beicinho,
  - os meus pêsames senhora, - pensa, eu odiava este filho da puta, sempre cheio dele, nunca dava bom dia a ninguém, conduzia demasiado depressa e tinha o péssimo hábito de fazer as palavras cruzadas no jornal do café, agora estás aí?, é bem feita quem te mandava seres um cabrãozinho com ares de importante,
  eu ignoro tudo isso, rio concedo, mas não quero entrar nessa onda de patifaria espiritual, estão a ver?, e saio das sombras, em passo leve, em belo e formoso levo o cântaro à fonte, em BB King e sua Lucille, em Hit the road Jack, saio para ver o sol sem o sentir, para ver luz monocromática, e procuro um pico bem alto para me encontrar com outros que se perdem a jogar conversa, a bebericar maltes, a jogar fumo sem incensos, eles sabiam que mais tarde ou mais cedo lá chegaria, lá os encontraria, nos juntaríamos para uma ultima partida de bisca lambida.

  Tenho os dedos adormecidos do gelo no copo, a música embate a tom ritmado, tac, tac, tac, o Cohiba fumega sozinho a morrer sem ninguém que o arrebite, e a Glock descansa no meu colo com uma única bala, os ouvidos comem um ta ta ta ra ta ta ta ra ta raaaa, a cabeça dança conivente com o que escuto, o pé encaixado em sapatinho também, de fato, dentes lavados, puxo o charuto uma última vez, deixo o sabor seco rodear-me a língua uma ultima vez, recosto, controlo o ritmo para não o travar instintivamente, relaxo uma outra vez, sinto-me uma cobra, em sentido réptil colo-me à cadeira como se quisesse entrar por ela a dentro, como se quisesse me tornar uno, a chuva lambisca a janela, cai sem cesso e bate, grita-me para entrar, tanto muito ergo-me para correr o reposteiro não quero vossa luz lua hoje, ainda não te perdoei pela noite em que foste e não voltaste, as luzes piscam à minha volta, as sombras tremem de antecipação, atenciosas aguardam-me para me receber em eterno aplauso enquanto me encaminham para Hades, antecipo uma boa conversa recostado no rio do esquecimento com o simpático barqueiro, e uma troca de ideias prolifera com os cães no portão para o submundo,
  - bem, veni, vidi, vici,
  num movimento fluído exactamente como tinha imaginado ergo-a é pesada para o tamanho, muito leve tendo em conta a função, parece um fungo por espremer, o aço crava-me na pele virgem, cheira a coisas, não me apetece perder aí, o coração tremelica preso por um fio, arre que não falhe agora tão perto do desenlace.

  Deixem-se de lágrimas de crocodilo, podem ficar com o meu cadáver e fazer dele uma pinhata se isso vos concede paz de espírito eu vou para ali, para aquele pico bem alto onde me esperam em auto de fé homens e mulheres, que se encaminham para tesões mal contidos para um nada mais que a espera pela minha alma, para a imolar em rituais pagões de lume e sexo desvirtuado, como a primeira vez da tia Alcinde,
  - ali, - diriam os senis, enquanto apontavam para um campo de milho cheio de percevejos e outras coisas que tal munidas de tenazes,
  eu vou para ali, para o pico e vocês ficais aqui, adeus, adeus e até logo,

  encosto-a à têmpora, arre que está fria penso, um sorriso assoma aos meus ouvidos enquanto trinco o lábio, ele ergue-se, arre impróprios que falta de senso,imagino-me encontrado banhado nos meus fluídos tolhido pelo erro numa fantasia de asfixia sexual, de prazer próprio sem outros à mistura, mais um bocado,
  - põe duas gajas a comeram-se num ecrã, - alguém me diz,
 não, não tornarei isto uma anedota como tudo em que toco, recuso-me com o que de viril me resta a entregar o desenlace a vontades paridas...,
  - agora que penso o que eu daria para tragar uma mulher uma vez mais,
  não, não, encosto-a  à têmpora, a Glock, não a mulher, que mulher?, não há mulher, sorrio, sorrio de ideias ricas que me afluem naquele momento, sem cliché que se sustente, sem retrospectiva do pouco que vivi, sem nada mais que o frio na têmpora e um dedo que apalpa entre tremores o gatilho que finalmente consegue premir, e o nada que aguardo, o sorriso abre-se num riso aberto naquela fragrância de segundo, cerro os olhos, recosto-me e aí,

  lágrimas de crocodilo e outros que tal que se perguntam porquê, e quem me ama num pico em danças exóticas à luz parida do inferno, uma lua pintada por mim enquanto Hades faz de mim o seu brinquedo favorito, e eu aqui a cada segundo compreendendo que também não é aqui que eu e tu, minha puta de transcendência seremos felizes.


* Sem acordo ortográfico.




sexta-feira, 8 de junho de 2012

XLIV

Bom dia,






*Manel Cruz

quinta-feira, 7 de junho de 2012

XLIII

Obra de Tolkien,



Canção de Beren e Lúthien,

"I – De Thingol em Doriath

Havia um rei nos dias de antigamente:

antes dos homens caminharem na terra
o seu poder era reverenciado na sombra das cavernas,
a sua mão estava sobre os vales e clareiras.
De folhas a sua coroa, o seu manto verde,
as suas lanças prateadas longas e afiadas,
a luz das estrelas no seu escudo era apanhada,
antes da Lua ser feita ou o Sol forjado.
Nos dias futuros quando para a costa
da Terra-Média de Valinor
as hostes Élficas em força regressaram,
e bandeiras voaram e faróis queimaram,
quando os reis de Eldamar passaram
em força de guerra, debaixo do céu
então ainda as suas trompas de prata troaram
quando o Sol era jovem e a Lua nova.
Longe então em Beleriand,
na terra cercada de Doriath,
o Rei Thingol sentava-se no trono guardado
nos muitos salões de colunas de pedra:
ali o berilo, pérolas, e a pálida opala,
e o metal forjado como escamas de peixe,
escudos e coletes, machados e espadas,
e brilhantes lanças eram deitadas em tesouros:
tudo isto ele tinha e achava pouco,
pois mais querida do que toda a riqueza em salões,
e mais bela do que as nascidas dos Homens,
uma filha ele tinha, Lúthien.

De Lúthien a Amada


Tais ágeis membros não mais correrão

na verde terra debaixo do Sol;
tão bela uma donzela não mais será
desde a aurora ao anoitecer, desde o Sol ao Mar.
O seu vestido era azul como os céus de Verão,
mas cinzentos como o entardecer eram os seus olhos;
o seu manto bordado com belos lilios,
mas escuros como as sombras os seus cabelos.
Os seus pés eram rápidos como um pássaro a voar,
o seu riso alegre como a Primavera;
o esbelto salgueiro, o dobradiço junco,
a fragrância de um prado florido,
a luz sobre as folhas das árvores,
a voz da água, mais que tudo isto
era a sua beleza e bem-aventurança,
a sua glória e encanto.

Ela habitava na terra encantada

enquanto o poder élfico ainda dominava
os bosques entrelaçados de Doriath:
ninguém nunca para ai encontrou o caminho
sem ser convidado, nem a beira da floresta
se atreveu a passar, ou agitar as folhas atentas.
Para norte ficava uma terra de medo,
Dungortheb onde todos os caminhos acabavam
em colinas de sombras escuras e frias;
para lá era o domínio da Mortífera Floresta sob a Noite
na crescente sombra de Taur-nu-Fuin,
onde o Sol era doentio e a Lua pálida.
Para Sul a grande terra inexplorada;
para Oeste o antigo Oceano troava,
não navegado e sem costas, imenso e selvagem;
para Este em picos de azul empilhadas,
em silêncio envolvidas, encimadas de névoa,
as montanhas do mundo exterior.

Assim Thingol no seu belo salão

entre as altas Mil Cavernas
de Menegroth como rei vivia:
para ele nenhuma estrada mortal levava.
Ao seu lado sentava-se a sua rainha imortal,
a bela Melian, que tecia invisíveis
redes de encantamentos em redor do seu trono,
e feitiços eram postos em árvore e pedra:
aguçada era a sua espada e alto o seu elmo,
o rei da faia, carvalho e olmo.
Quando a erva era verde e as folhas longas,
quando o tentilhão e o tordo cantavam a sua canção,
ai por baixo dos ramos e debaixo do Sol
na sombra e na luz corria
a bela Lúthien a dama élfica,
dançando em vales e verdejantes clareiras.

De Daeron o menestrel de Thingol


Quando o céu era claro e as estrelas intensas,

então Daeron com os seus dedos debruçava-se,
assim que a luz do dia se fundia no entardecer,
e uma vibrante e doce música tecia
em flautas de prata, fina e clara
para Lúthien, a donzela amada.

Ali havia alegria e vozes claras;

ali a tarde era pacífica e a manhã suave,
ali as jóias cintilavam e a prata empalidecia
e ouro vermelho em dedos brancos resplandecia,
e a elanor e niphredil
desabrochavam na erva ainda inalterável,
enquanto os intermináveis anos da terra Élfica
rolavam sobre Beleriand,
até que um dia de destino aconteceu,
como ainda os harpistas élficos cantam."
 



*Tradução retirada daqui.

Não sei como aconteceu

  Não sei como aconteceu, o quando talvez consiga precisar, mas o tempo, como grão de areia que tomba de um tambor para outro na ampulheta torna-se irrelevante para mim, em detrimento de uma cumplicidade encontrada através da leitura mutua, não sei como aconteceu, mas dou comigo a sentir, a saborear, a cheirar, a absorver com as mãos tudo o que os meus sentidos captam daquela saraivada de palavras, linhas que explodem como a bordada de um galeão espanhol, um navio almirante de cem canhões, os meus olhos massajam cada sentença, esforçam-me muito acima dos limites, focam-nas com violência, actos de instinto nascidos do medo presente de algo se perder, de alguma sílaba cair no oblívio, e ai de mim ter a necessidade de me lançar infrutuosamente em queda livre, em queda sem tecto à vista, cruzo-me com seres retirados do tapete de Tolkien, seres escuros cujos os nomes não profiro mesmo com o sol a puxar-me os folhos do vestido através da janela, são nomes cujas sílabas abanam as fundações desta minha conspurcada terra, atravesso níveis que somente Dante vira, e eu atrás daquele sílaba, daquela tónica que me oferecerá em agradecimento por tal acto heróico o sentido que busco, me presenteará com a capacidade para compreender como aconteceu.


*sem acordo

quarta-feira, 6 de junho de 2012

XLII

Melodias ora agudas, ora graves,




*Apocalyptica, Unforgiven (Original dos Metallica)

Insónia e fumos

  Cigarro atrás de cigarro de mãos dadas com estilhaços de promessas de um Ventil por dia, enquanto me deito nesta cama larga, demasiado larga, de corpo nu, de pele arrepiada enquanto melodias agudas e graves de um violoncelo me inundam a audição paridos do génio que quiçá busco em certas dias mas nunca alcanço, recosto-me no comodismo insatisfeito, de um corpo nu que geme face ao esforço do descanso, relembro, enquanto penso no quão nu estou e na vergonha que deveria sentir nesta cama larga, desligo a luz munido de inocências que pensei dispersas para um sempre, e as luzes de uma televisão muda agora banham-me em padrões lunares que imagino de lua minha, dançam em formas exóticas, na minha mente lascivas, como mulheres belas pintadas a cores escuras por sóis tórridos de terras exóticas lá daquele oriente que me parece tão sui generis, em danças do ventre, em roupa que cobre o que eu imagino mais belo em tantas formas  do que o é se realmente o vir, sem o engodo, sem a decepção do movimento pastoso, do movimento réptil, em contacto frívolo de corpo com tecido leve mas justo, e eu nu aqui e agora, acendo um cigarro numa cadência incessante, enquanto meus dedos aceleram a ritmo displicente levados por vontades muito maiores que as minhas, letras são comprimidas em estranhos caracteres por um objecto informático não meu, um suspiro que esvoaça,  e eu nu, ao lado, do meu lado, nesta cama larga, e quem será?, alguém suspira em afagos tórridos e melosos, em monólogos de sossego entregue à paz de quem pode dormir, uma mulher, que suspira de suores em noite estranhamente quente para noite encoberta, para noite em que lua se esconde para não me perseguir, para não me banhar à janela a pele nua, arrepiada por melodias ora graves, ora agudas, e eu em desespero faço da televisão minha luz, lençóis rotos que sobem e descem enquanto a sua respiração espaçada sucede, e eu roído de invejas injustas enquanto papo cigarros e deambulo por predicados, munido de nada mais que a nudez e a insónia, a luz banha-me e por momentos sei, que me banha somente a mim enquanto ali de onde é parida o Bismarck passa entre conquistas do passado, em ode triste, em ode de povo alemão em busca de falácias e ideias de massacre, hoje como ontem nu e sem uma erecção que me devolva vida ao corpo nu, com mulher bela que respira inundada por sonhos ao meu lado, e esta luz, esta viagem sem cesso de luzes que me empurram, que me fazem imaginar, que me fazem querer explodir em milhares de partículas ínfimas, e eu aqui como vós minha doce transcendência com desejos sem computação física de empalar mulher bela, como ontem ou no dia anterior, mas meu corpo melado, nu, quente, nu, arrepiado, nu, eu de olhos largos, de língua murcha e amarelada, de dentes sujos, de cigarro na mão, de unhas amarelas pelo doce tabaco, como noutros dias encosto-me em melodias belas como se fossem mulheres de um outro lugar, de uma outra hora como se fossem virgens de pensar e me encaminho, enquanto neste meu lado mulher tisnada pelo sol dormita entre afagos de noite quente em noite nublada. 

  Nada mais perdura em mim que desejo de tê-la, como mais nada perdura em mim que o desejo de me esvair em suor e desaparecer, mas agora nada mais subsiste que a incapacidade de suprimir o ritmo com o qual pressiono teclas de aparelho tosco e grosso, nada mais realmente importa que o meu desejo vil de possui-la, de possuir-Vos,
  - quem?, qual?,
  entre palavras encantadas, sentidas, paridas do embate de corpos sequiosos, de bacias elevadas, de corpos em arcos, de esgares incontroláveis de prazer lascivo, de suplicas por mais, entre temores e receios de partir, de me esvair demasiado cedo, de sucessão, de cadência sem cesso como sedento se arrasta para um oásis, é real?, é miragem?,
  - quem?, qual?,

  Cansado acendo o ultimo ventil em meticuloso ritmo, numa sucessão de gestos técnicos paridos da repetição, vozes inundam-me, vozes másculas que me acordam as sensações, vozes femininas nasaladas, e as putas das fiandeiras confusas pois isto não se encontra, estes divagues, não se encontram em seus naperons, pensam que caí no limite do mundo quando não me encontram a seguir as runas atiradas pelo o oráculo nórdico cego e mudo, e eu aqui em busca de nada mais do que onde pousar meu amor tenebroso, meus sentidos amorfos, enquanto repuxo em busca da ultima gota que me inunda o corpo, do ultimo gole de fumo de este pequeno bastardo parido da seres negros e fogosos, aqui e agora em busca de tesão para viver, para foder, para correr mas mais nada faço do que espremer-me em posição fecal sem largar este pedaço de tecnologia e continuo, progrido, enquanto o lençol sobe e desce e dorme em doce sono, e esta insónia que não me larga, e eu com duvidas, a atirar berros ocos a Vós minha doce transcendência.

  A luz massaja-me a pele arrepiada, acalma-me as dores, a luz desta lua minha em forma de Hood a cruzar o atlântico agora,
  - doce transcendência pressiona o reiniciar por favor,
  (silêncio texano, rolos de plantas secas esvoaçam ao longo da estrada de terra
  batida, ao fundo uma aldeia caquéctica inundada de pós e o xerife caminha por ali com a cara roubada de Clint Eastwood),
  - puta de transcendência vamos começar de novo,
  (estalinhos nas orelhas), 
  - deixa-me dormir, deixa-me estar só sem tesões, deixa-me viver da minha ataraxia, deixa-me estar a nutrir-me no desprezo que resvala de mim para mim. 


*não segue o digno acordo.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Aquiesço quando me diz

Velho texto encontrado no fundo de um baú decrépito e sem fim aparentemente,


 *
Aquiesço quando me diz. Respiro quando me diz. Fodo-a quando me diz. Venho-me quando me diz. Espero-a não porque é suposto esperar ou devo esperar, ignoro as moralidades pressupostas por um qualquer Vós. Espero não porque preciso. Espero não porque me pede. Simplesmente, embora de nada simples se encontre em tal processo, espero porque quero. Tão linear como o tesão matinal espero porque a quero. Espero porque tudo o que quero é tragar mais uma vez o seu aroma. despido de complexos, agora sim, de todas as trivialidades que me atingem, um raio que me possuiu, electrificou a alma e me tornou completo. Procurei o meu próprio rumo com nada na minha mão e vazio de voluntas ou ratio. Divaguei esfarrapado pela megera que esta realidade oferece de bandeja, perdi a minha bússola e jantei com os moribundos da sociedade. Não pretendi tudo, mas queria algo, para ter como meu, para amar como só meu, queria um corpo onde me aninhar, um coração pelo qual lutar, uma vida que se unisse às minhas demagogias. Encontrei nada. Não desisti. Continuei com inexorável convicção de quem já não acredita, andei em todo um mar de direcções e busquei um sem numero de realizações inócuas para nenhuma abraçar como minha. Montei estaminé em tantas praias que a minha memória atraiçoa-me. Dancei em tantas falsas rumbas que não consigo recordar com exactidão. Tudo falso, tudo nojento, tudo desfasado e longe muito longe do que eu quero e nunca hei-de ter. Cai por terra debruçado sob o vómito da minha própria existência para acordar amparado pelo teu calor. Envolvido por teu abraço. Preenchido pelo teu sentimento, arrisco a dizer, por mim. Por isso espero como te esperarei sempre e eternamente, com vida ou sem, nesta realidade ou em mil outras para onde seja atirado, te esperarei. Porque na falta de melhor preciosismo linguístico articulado: somente vivo e seguro a minha cabeça sob estes ombros para que o teu arfar bafeje o meu pescoço outra vez. Já me senti irado por ter sido atado, isto, antes de aterrar em mim e perceber que foste o que sempre procurei. Por isso te espero e esperarei. Não me interessam fodas desligadas de padrões marados ou lineares, não me interessam preciosismos monetários ou adornos de vida. Simplesmente quero esperar por ti para te ter junto ao meu corpo, como estás sempre dentro do meu coração.

Amo-te.




*Sem acordo.

XLI

Arranco um dia tardio,


com som de outra vida em Contas,



* Lonely Day, System of a Down

XL

Termino o dia,







*
Roulette, System Of A Down

Post Scriptum,  (errata) o clip  apresenta-a como Lonely Day, o que é um erro, mas poderia igualmente terminar o dia com ela sem perder a tónica da coisa se é que me faço entender,

cumprimentos,
JD 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Inócua mudança

  Quando olho pela esquina da janela vejo pouco mas encontro muito: um planeta que rebola sob a sua barriga, cansado de ser o que é e nada mais, sem nunca imaginar o que poderia ser, a cada letra que desenho no tão raro papel, com esta tinta caseira, espremida através de rituais antigos da merda de gaivota, a cor é indefinida, não tem compostura, com uma textura palpável, cai na página e arrasta-se largando um rasto castanho, o bico da caneta também castanho de aço velho, de uma outra metafísica, forma linhas rectas em perpendiculares com outras também rectas e ás vezes curvas, criando frase atrás de frase em ciclos infindáveis.
  Depois de tudo, depois do adeus alguém diria, acordo neste sítio, só, cercado por abutres em busca sôfrega por um xelim fácil, num mundo que moldei na companhia de algo que me ultrapassa, mas que no fim não é um mundo em pós mudança ou em mudança, é um mero mundo que rebola sob a sua barriga, eu e outros inundados por uma vontade férrea, abraçados numa falange perfeita, enfrentamos borrascas numa casca de noz, para simplesmente concluir o inócuo das nossas acções, politquices balofas, inconsequência da acção, um caudal de corpos frios, gelados que me olham a cada despertar em estranha censura, com perguntas em forma de olhar, questionam-se até ao âmago das supostas questões para desaguar num insípido,
  - porquê? - bradam nesta montagem noir muda,
  não o sei, como haveria de saber, somente batalhei pelo que achei correcto,
  - podem dizer o mesmo?,
  acreditei que era tudo acerca da moeda, que tudo se relacionava com quem detinha a batuta, como a usava, o que fazia com ela, mas agora a cada raio oriundo do sol, cada raio de luz amarelada que me toca na pele velha percebo, talvez na sapiência da velhice, ou na incontornável senilidade,
  - escolham,
  que não é nada disso, tudo se conecta com a condição humana, no fim desta estória compreendo, vejo claramente, mesmo que as chamas que dão luz enquanto este sol amarelo pousa trepidem com correntes de ar invisíveis, compreendo agora que o meu erro foi acreditar que os eus, os tus, os vós, os nós, o todos iriam ver além do óbvio e dar a vida, ou o que define a vida, a liberdade, pelo próximo, pelo vizinho, pelo estranho,
  - tão naive,
  percebo agora claramente, reflecte-se em espelhos baços abandonados por aqui, casa minha, conquistada por abutres, Onhas, Riques, todos, terminaram inundados de desapontamento, ou possuídos por dores mentais paridas da culpa, como falsos Judas, caminharam também seus calvários em busca de expiação, para no fim, no irredutível término se entregarem ao oblívio que criaram ou que encontraram em mera casualidade e aceitaram,
  - lamento meus amores,
  eles não me olham como estranhos, não encontro censuras, mas sim culpa por tanta dor, tantas cicatrizes no agora, mesmo todos estes anos depois e o mundo ainda a rebolar sob a sua barriga, vejo, melhor, compreendo enquanto olho pela esquina da janela que não rebola por bem estar, mas este meu mundo rebola sob a barriga devido a dores que ainda prevalecem, oriundas de cicatrizes feias em forma de ésses mal desenhados, mal fechadas, parecem daqui, ao longe pustulentas e meus irmãos bradam sem grado,
  - foi tudo em vão?,
  para o bem ou para o mal nem tudo pode ter sido em vão, algo subsiste, mas na minha inglória satisfação rodeado por despojos que mais não são que caliça vislumbro somente escárnio e maldizer, confusão, e um mesmo, em decalque degradé, sistema disfuncional,
  - e todos aqueles que tombaram?,
  sim, não me relembrem, suplico-vos, sacrifícios para um nada, para um igual, arrasto-me pelo pó que me cerca de meias de lã com buracos de traças mutantes, enormes como dedos polegares obesos de estadunidenses, pós e sujidades estranhas esvoaçam pelo chão de madeira tingida pelo tempo, arrastam-se como se elevados num curioso campo magnético, movendo-se numa tão estranha e curiosa leveza como se um nada atómico os, as formasse,
  - já acabas-te?,
  recolho-me num silêncio agressivo passivo, cacarejo e abro o robe escarlate deixando-o à vista dos incautos, solto, em pêndulo, flácido, morto, destituído de virilidade, moribundo, por segundos o impasse, finalmente os abutres bufam impróprios para o ar e partem, mais uma vez abandonam a sua demanda por xelins baratos, afasto-os hoje, como ontem, e em todos os outros dias: com uma loucura real em detrimento da sempre presente mas tácita, enxoto-os como abutres que são, exploradores de antigos macacos, não me deixam ir, e eu sem saber quanto tempo a barca e o barqueiro irão esperar, querem-me aqui, tal e qual como um hamster a produzir energia, corre, corre, sem parar, sem paragem.
  Busco para mim, e para vós meus amores a convicção que existe em nós algo mais do que se encontra num dia de chuva, de trovoada, naqueles dias em que os deuses batalham pela luxúria de se cortarem em marés de sangue, em banhos de cerveja quente, em lençoís de mulheres frívolas, putas, naqueles dias em que homens são bestas em rituais bárbaros, e nesses dias que parem chuvas continuas, cerradas, as sarjetas entopem, e eu agora sei que embora acredite nunca irei encontrar em nós mais do que vejo nessas imundas sarjetas.


*sem acordo ortográfico.