terça-feira, 5 de junho de 2012

Aquiesço quando me diz

Velho texto encontrado no fundo de um baú decrépito e sem fim aparentemente,


 *
Aquiesço quando me diz. Respiro quando me diz. Fodo-a quando me diz. Venho-me quando me diz. Espero-a não porque é suposto esperar ou devo esperar, ignoro as moralidades pressupostas por um qualquer Vós. Espero não porque preciso. Espero não porque me pede. Simplesmente, embora de nada simples se encontre em tal processo, espero porque quero. Tão linear como o tesão matinal espero porque a quero. Espero porque tudo o que quero é tragar mais uma vez o seu aroma. despido de complexos, agora sim, de todas as trivialidades que me atingem, um raio que me possuiu, electrificou a alma e me tornou completo. Procurei o meu próprio rumo com nada na minha mão e vazio de voluntas ou ratio. Divaguei esfarrapado pela megera que esta realidade oferece de bandeja, perdi a minha bússola e jantei com os moribundos da sociedade. Não pretendi tudo, mas queria algo, para ter como meu, para amar como só meu, queria um corpo onde me aninhar, um coração pelo qual lutar, uma vida que se unisse às minhas demagogias. Encontrei nada. Não desisti. Continuei com inexorável convicção de quem já não acredita, andei em todo um mar de direcções e busquei um sem numero de realizações inócuas para nenhuma abraçar como minha. Montei estaminé em tantas praias que a minha memória atraiçoa-me. Dancei em tantas falsas rumbas que não consigo recordar com exactidão. Tudo falso, tudo nojento, tudo desfasado e longe muito longe do que eu quero e nunca hei-de ter. Cai por terra debruçado sob o vómito da minha própria existência para acordar amparado pelo teu calor. Envolvido por teu abraço. Preenchido pelo teu sentimento, arrisco a dizer, por mim. Por isso espero como te esperarei sempre e eternamente, com vida ou sem, nesta realidade ou em mil outras para onde seja atirado, te esperarei. Porque na falta de melhor preciosismo linguístico articulado: somente vivo e seguro a minha cabeça sob estes ombros para que o teu arfar bafeje o meu pescoço outra vez. Já me senti irado por ter sido atado, isto, antes de aterrar em mim e perceber que foste o que sempre procurei. Por isso te espero e esperarei. Não me interessam fodas desligadas de padrões marados ou lineares, não me interessam preciosismos monetários ou adornos de vida. Simplesmente quero esperar por ti para te ter junto ao meu corpo, como estás sempre dentro do meu coração.

Amo-te.




*Sem acordo.

2 comentários:

Eli disse...

Nem sei se comente, confesso. Achei tão pessoal... mas tudo o que escrevemos acaba por ser... Parece-me que os sentimentos nobres se escondem, mas também deambulam nas palavras... Parabéns pela originalidade.

James Dillon disse...

Foi instintivo, encontrei-o perdido num mar de escombros, de caliça, e com medo que se perdesse, com receio que a memória se fosse coloquei-o onde posso encontrá-lo,

obrigado pelas palavras,

cumprimentos,
JD