domingo, 10 de junho de 2012

Despedida

  Porque choras, serão lágrimas de crocodilo?, és tão velha que mesmo que chores porque te moves internamente em ondas a crepitar perto daquela tua praia que no fim te promove o choro, és tão velha que seriam sempre lágrimas de crocodilo, não, não trinques o lábio em raiva mal contida, não estou a dizer que não sentes e choras porque te encontras no meio de uma tenebrosa avalanche de sentimentos, digo-te choras, e parecem lágrimas de crocodilo porque és tão velha que nada mais te posso dizer do que parece, como é?, posso ver mais que isso?, realmente poderia se não fosse um velhaco embalado por esta Glock que descansa no meu colo.

  Quem são estas pessoas?, de onde provêm estes crocitos tolos, obtusos, e uns terceiros em formas geométricas intrincadas desenhadas por maus pequenas e suaves, de unhas arranjadas, de unhas belas, limadas, sem arestas abruptas, de onde vos falam e que vos empurra a dizer-me essas coisas, coisas que não dizeis mas chorais, e e emites crocitos de terror e pavor que me afastam ainda para mais longe.

  As sombras embebem-se em pedaços soltos de luz de velas categóricas e um plac, plac, plac, ali ao fundo onde a luz natural nos visita, de algerozes húmidos de orvalho que se recusa ir, a luz cautelosa entre afagos do reino das trevas, não se mistura com as luzes artificias, tal aventura seria fatal para raios amarelos e puros, bancos ao longo da parede e tudo numa mistela de gentes que não conheço, nunca os vi, não amo, nem com aquele amor de um primo distante que nunca vi mas sempre ouvi falar e tem boas notas, e uma tez diferente, quem são estás pessoas?, crocitam em voar pesado, em círculos lineares sob a minha cabeça fria, destituída de visão, mas eu vejo porque me encontro aqui não aqui, mas aqui, sem corpo, mas com alma, a que resistiu ao embate.

  A minha mãe fria mas o coração ainda bate, penso, para parar, mas parto, e digo para mais ninguém do que a sombra que o Cohiba emitia neste escritório fechado, beberico calmamente um pequeno gole, um gole patético de um malte digno, e recosto-me neste cadeirão,
  - existem momentos que nos perguntamos qual a ideia de sentir, quando eu sei que o que sinto me atira para um outro sitio, em palavras de alguém muito diferente de mim, não me peçam definições, sei tão bem como o próximo, talvez aqui me engane, que o meu caminho não é aqui, estagno perdido entre afagos simétricos de ideias, umas boas e no outro lado o que é inverso e vivo entre escolhas tão estranhas como dicotómicas, não sei para onde vou, mas aqui não fico, peço a esses tais que me perdoem, mas o rufar dos vossos tambores entrega-vos, vocês também aguardam o acto como corvos da tormenta.

 De volta ao local onde as sombras não se misturam, de um lado a luz pura que se pudesse sentir me aqueceria a fronte cadavérica, no outro aquelas luzes que me imbuem na perfeita oposição de cinema, estas pessoas, família, amigos que me rodeiam em ritual forçado pela imposição moral, de boca fechada, em roupas escuras e aborrecidas, os amigos, aqueles falsos reúnem-se fora da porta a sentir o sol e a papar cigarros especiais de incensos bem cheirosos, mas, existe aqui um grande mas, aqueles que importam encontram-se num pico a mijar ao vento e a dizer coisas más acerca de mim, enquanto o cadáver está quente a dançar rumbas sensuais uns com os outros, a aquecer para uma qualquer órgia sem nada de sexual, pois sabem tão bem quanto eu, embora eu só saiba agora, que mal descolasse a minha alma do corpo, cairia de cócoras em insensibilidade e me riria de todo aquele trejeito, daquela pose como se tudo terminasse ali, da tristeza de quem não compreende, do pior, da tristeza de quem nada sente e se esforça como um actor perdido no palco por parecer, ergue a mão suada de nervos, serei desmascarado?, talvez faça mais beicinho,
  - os meus pêsames senhora, - pensa, eu odiava este filho da puta, sempre cheio dele, nunca dava bom dia a ninguém, conduzia demasiado depressa e tinha o péssimo hábito de fazer as palavras cruzadas no jornal do café, agora estás aí?, é bem feita quem te mandava seres um cabrãozinho com ares de importante,
  eu ignoro tudo isso, rio concedo, mas não quero entrar nessa onda de patifaria espiritual, estão a ver?, e saio das sombras, em passo leve, em belo e formoso levo o cântaro à fonte, em BB King e sua Lucille, em Hit the road Jack, saio para ver o sol sem o sentir, para ver luz monocromática, e procuro um pico bem alto para me encontrar com outros que se perdem a jogar conversa, a bebericar maltes, a jogar fumo sem incensos, eles sabiam que mais tarde ou mais cedo lá chegaria, lá os encontraria, nos juntaríamos para uma ultima partida de bisca lambida.

  Tenho os dedos adormecidos do gelo no copo, a música embate a tom ritmado, tac, tac, tac, o Cohiba fumega sozinho a morrer sem ninguém que o arrebite, e a Glock descansa no meu colo com uma única bala, os ouvidos comem um ta ta ta ra ta ta ta ra ta raaaa, a cabeça dança conivente com o que escuto, o pé encaixado em sapatinho também, de fato, dentes lavados, puxo o charuto uma última vez, deixo o sabor seco rodear-me a língua uma ultima vez, recosto, controlo o ritmo para não o travar instintivamente, relaxo uma outra vez, sinto-me uma cobra, em sentido réptil colo-me à cadeira como se quisesse entrar por ela a dentro, como se quisesse me tornar uno, a chuva lambisca a janela, cai sem cesso e bate, grita-me para entrar, tanto muito ergo-me para correr o reposteiro não quero vossa luz lua hoje, ainda não te perdoei pela noite em que foste e não voltaste, as luzes piscam à minha volta, as sombras tremem de antecipação, atenciosas aguardam-me para me receber em eterno aplauso enquanto me encaminham para Hades, antecipo uma boa conversa recostado no rio do esquecimento com o simpático barqueiro, e uma troca de ideias prolifera com os cães no portão para o submundo,
  - bem, veni, vidi, vici,
  num movimento fluído exactamente como tinha imaginado ergo-a é pesada para o tamanho, muito leve tendo em conta a função, parece um fungo por espremer, o aço crava-me na pele virgem, cheira a coisas, não me apetece perder aí, o coração tremelica preso por um fio, arre que não falhe agora tão perto do desenlace.

  Deixem-se de lágrimas de crocodilo, podem ficar com o meu cadáver e fazer dele uma pinhata se isso vos concede paz de espírito eu vou para ali, para aquele pico bem alto onde me esperam em auto de fé homens e mulheres, que se encaminham para tesões mal contidos para um nada mais que a espera pela minha alma, para a imolar em rituais pagões de lume e sexo desvirtuado, como a primeira vez da tia Alcinde,
  - ali, - diriam os senis, enquanto apontavam para um campo de milho cheio de percevejos e outras coisas que tal munidas de tenazes,
  eu vou para ali, para o pico e vocês ficais aqui, adeus, adeus e até logo,

  encosto-a à têmpora, arre que está fria penso, um sorriso assoma aos meus ouvidos enquanto trinco o lábio, ele ergue-se, arre impróprios que falta de senso,imagino-me encontrado banhado nos meus fluídos tolhido pelo erro numa fantasia de asfixia sexual, de prazer próprio sem outros à mistura, mais um bocado,
  - põe duas gajas a comeram-se num ecrã, - alguém me diz,
 não, não tornarei isto uma anedota como tudo em que toco, recuso-me com o que de viril me resta a entregar o desenlace a vontades paridas...,
  - agora que penso o que eu daria para tragar uma mulher uma vez mais,
  não, não, encosto-a  à têmpora, a Glock, não a mulher, que mulher?, não há mulher, sorrio, sorrio de ideias ricas que me afluem naquele momento, sem cliché que se sustente, sem retrospectiva do pouco que vivi, sem nada mais que o frio na têmpora e um dedo que apalpa entre tremores o gatilho que finalmente consegue premir, e o nada que aguardo, o sorriso abre-se num riso aberto naquela fragrância de segundo, cerro os olhos, recosto-me e aí,

  lágrimas de crocodilo e outros que tal que se perguntam porquê, e quem me ama num pico em danças exóticas à luz parida do inferno, uma lua pintada por mim enquanto Hades faz de mim o seu brinquedo favorito, e eu aqui a cada segundo compreendendo que também não é aqui que eu e tu, minha puta de transcendência seremos felizes.


* Sem acordo ortográfico.




11 comentários:

Eli disse...

Talvez a morte não seja vista da mesma maneira, mesmo que por olhos tão semelhantes. Obrigam-nos a rituais e a lágrimas, quando nem imaginam... Li ao som da música lá de cima, como se tivesse ouvido ler e é forte, como tudo o que costumas escrever.

Eli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
James Dillon disse...

Fui embalado pela musica para criar o que na falta de talento defino como isto, quiçá a criação seja mais dela (a musica) que minha,


cumprimentos,
JD

Eli disse...

Não tens talento para a música?!

(heheh)

Eu tenho talento para ouvir... :))

James Dillon disse...

A pele arrepiar com certas e determinadas coisas com sons é talento?,

:)

Eli disse...

Parece-me que sim, que é para eu também ser talentosa por um bocadinho.

:)

James Dillon disse...

(risos,)

:),


P.s.,
nunca é demais um obrigado pela tua leitura.

Eli disse...

Em muito se deve a ti, ou não será assim?! :)

James Dillon disse...

Deve?, será modéstia ou estupidez mas dou comigo surpreso, em círculos sem concluir o que devo,

:)

Eli disse...

Nunca gostei de modéstias, porque me parecem sempre falsas, mesmo quando não sejam, mesmo as minhas modéstias poucas, que não o são, devido ao facto de eu ser mais orgulhosa que a dilatação de um corpo quente - inchado - enfim...

Não se conclui nada por estas bandas, ou aquelas. Nós jogamos com as palavras e atiramo-las como se se tratasse de algo que irá ser lido e, quiçá, tenhamos razão, porque sabemos - ambos - como é aprazível alguém que nós gostamos de ler, nos leia também.

:)

James Dillon disse...

Aí não duvido, tem sido um prazer ler-te como ser lido por ti,


cumprimentos,
JD