segunda-feira, 11 de junho de 2012

Dicotomia

  Sabes que te odeio minha grandessíssima...,
  - bom dia amor,
  ressonas, tens mau hálito, tens coisas estranhas nos olhos, deitei-me com um quadro belo, para acordar com um rascunho de Picasso,
  - estás linda,
  cheiras a suor, cheiras a refogado esquecido no frigorífico, a sopa de pedra envelhecida à força,
  - és linda,
  está calada, o que dizes é oco, vazio de razão, vazio de vontade, és patética,
  - isso é tão interessante,
  olha-me esse cabelo sem razão ou lógica, desgrenhado, arrebitado em rectas caóticas, em perpendiculares ridículas, e essa cor?, nem preta, nem castanha, juro que se vê aqui ou ali umas pontas brancas,
  - pareces uma leoa amor, a minha leoa,
  tens o nariz sujo de coisas, não te lavas?, consigo ver daqui coisas penduradas, bolas achatadas, gosmas transparentes em forma de teias,
  - beijinho à esquimó amor?,
  olha-me essa púbis, gostaria de te tragar aqui e agora, sentir teu sabor a inundar meu gosto, gostaria de te segurar os seios e prender-te as penas com as axilas num encaixe perfeito, enquanto endiabrada com vontade própria minha língua te rasga as carnes mornas, tua bacia elevar-se-ia em espasmos aleatórios, que chegariam sem aviso e sem cesso, mas olha-me para essa púbis,
  - queres-te vir querida?, não só tu, eu estou bem,
  e esses lábios?, gretados, rasgados, esses dentes?, amarelos de fumos meus,
  - já que insistes querida bebe-o,
  olha como te vestes pareces um espantalho, uma montra de loja barata, uma feirante mal vestida,
  - estás tão bonita,
  ainda não foste embora?, não me ajudas a fazer a cama?, não me ajudas a levantar a mesa do pequeno almoço?, não me ajudas a limpar o chão sujo de patas de muitos que não eu?, não me...,
  - deixa estar meu coração eu faço, já vais?, fica mais um pouco, despe-te, põe-te assim, isso,
  sabes que te detesto?, que o teu ar me cria raivas mal contidas, que tudo o que fazes acelera meu peito em ódios crus impossíveis de suster, que a tua voz me faz chorar de desesperos?, sabes que tudo o que quero é sair daqui?, o pensamento de te possuir uma vez mais enquanto imagino outras e outros faz-me encarar a castração e o meu desenvolvimento consequente num gato gordo como algo maravilhoso,
  - amo-te,
  não te quero ver mais,
  - volta depressa,
  odeio-te,
  - amo-te.



* Sem acordo.
 

2 comentários:

Eli disse...

Desta vez percebi claramente e, o entendimento, foi uma coisa estranha. Dei comigo a pensar no quão falsos podem ser os... as pessoas.

Real.

James Dillon disse...

Não podem, são,


cumprimentos,
JD