sábado, 16 de junho de 2012

Incoerência

  Quinze de Junho de dois mil e doze nada me visita como esta vontade sem medida que me empurra para uma folha em branco, sem esboço que delineie os limites da criação, largo aquelas amarras que pendem dos bitates eruditos de quem me diz que não podes dizer coisas assim, um pato de plástico grita-me,
  - são quatro da manhã,
  ali como sempre uma mulher morena dorme,
  mas eu aqui estou a diluir-me entre frases passadas, frases presentes e fados de um futuro tão longínquo para todos excepto para mim, adorno a vontade de não fazer sentido e abro o meu invólucro a nada mais que o sem sentido que para mim e só para mim me diz tanto, vocês, sendo uma indefinição sem limites, ao contrário destas cordas que me coçam os músculos de um corpo gordo, um corpo nojento, munido de pregas de gordura que pendem soltas enquanto me imagino inundado de suores a saltar uma corda que me prende,
  - Jasmim estás a fugir à fragrância,
   sim, que me inunda, que me visita e eu não a aproveito, cerro dentes e deixo de ser eu para ser a soma das partes fragmentadas de uma pequena, ínfima existência, enquanto vozes belas de letras em perfeito português atirado para os meus sentidos das profundezas de almas nobres, agora sim,

  "um murmúrio ao longe, um roçar de penas numa arpa de metais enferrujadas, um ruído agradável que se aproxima tão levemente que o silêncio em atitudes de bandido disturba, gotas d'um orvalho perfeito caem pé ante pé, umas mais fortes que as outras, todas se desfazem nesta minha pele que se arrepia, minha alma que se estica mesmo sem formato físico, estica-se entre arrepios que me percorrem, arre este ruído que me adocica os sentidos e eu não sei onde vai parar, árvores que de ramos dados em movimentos pendulares se entregam a um afago da tormenta, meu corpo que se arrepia em ritmo incessante, contorço-me, nascem em mim esgares incorrectos como se meu corpo estivesse possuído e,
  silêncio, para um orvalho esquecido que ainda cai, de novo entre gotas amigas que choram suas filhas e filhos rumo a um oblívio mais que certo, para um renascimento em ciclo jamais findo, tocam em cordas que pendem do céu, cordas de cetim dourado, em balanço entre ondas magnéticas que saltam entre mim e outros que não estão aqui, tudo misturado, parece perfeito, mas nunca alcançável, arre corpo sem controle, sem trela que o amarre, eu sei que ali ao fundo caminha o que me fará brotar lágrimas sem conta, lágrimas esquecidas, uma mente que bate nas esquinas feitas de ossos meus, ossos duros para me conter,
  o ritmo acelera a minha vida, que se foda ela, agora neste momento entre agudos e graves, no meio deste ruído belo que me possui como uma entidade que me transcende, nada mais tem relevo que este momento, abro-me sem dúvidas para ela e aqui e agora aceito seu pedido para se unir a mim, para se tornar una comigo, arre arrepios que parem lágrimas, que correm meu corpo, aí que temo quando parar não discernir os caracteres que desenhei, nunca digas nunca, nunca atires a toalha ao chão, como o sei, mas também eu sou humano, também eu choro, também eu sinto dor, também eu sei que a verdade não é tudo, em reinos como este que criei para mim, para um eu meu, e somente um eu dos meus, um reino de anos dos quais restam meses, também eu me sinto encurralado, não por questões mundanas, mas sim por este som que chega ao clímax, um pico sem igual, e eu temo partir demasiado cedo, e temo que ele parta mais cedo, que me abandone, que a abandone, e me deixe, que a deixe, não partas, não partirei, não me deixes, não a deixarei, como posso eu enfrentar as nuvens e a chuva sem a tua aura a cercar-me, tua capa a conceder-me teu calor, teu amor a dar-me conforto?,
  entre reticências mal contidas, reticências que se encaminham para o fim, mas se resguardam para num último instante se abrirem somente para mim, caem nuas entre arestas mal aparadas deste meu ser,
  a escrever linhas, linhas sem sentido, linhas que ardem, sinto-me só, mas quando me invades os sentidos, e mesmo assim eu ainda escrevo com os meus pés na areia, com as minhas solas na calçada, acabo mesmo assim contigo ou sem ti a ver fumos que se elevam de mim, fumos empurrados por correntes de ar que não se fazem sentir, tudo o que sinto é um arrepio na espinha, e no coração que salta de cada vez que um cão ladra e uma voz me perturba, não consigo parar aquilo que sem ser por vontade minha comecei, como se um povo de eus me expressassem em ritmos de acções, como se tivesse dentro de mim centenas, milhares de eus em formatos atómicos e se digladiassem mutuamente pelo controlo deste meu invólucro, violo-me para me encontrar, sofro pela espera de quem me irá herdar, mas no fim: para onde vou?, acabo sempre por o dizer em verdade, nunca em mentira, ir?, hoje?, não sei nem porque vou, quando aqui e agora subsisto deste ruído que me ama, e o silêncio que amo perturba-o, arre silêncio,
  - vai para ir e não regresses,
  e partiu, meu silêncio, rumo a oriente, aqui fico com o ruído e sua irmã a luz da lua, aqui ficamos e brilhámos juntos,
  movido por nada mais que a procura da perfeição momentânea, aquele meu irmão na falange espartana a gritar em plena carnificina,
  - o normal em situações extraordinárias,
  isso é ser herói, é ser perfeito,
  me deixo levar por mares ritmados, ou mares que quebram dentro do ritmo, e um som de arpa que vem de um outro sitio, a minha puta de transcendência o traz atado na tanga de rendas vermelhas, me deixo em redundâncias cíclicas arrastar por lamas sujas de verdades bem reais, tudo para estar contigo ao som desta musica, enquanto te amar, enquanto teu corpo me promover tesões e outros sentires que tal, perante ti, perante vós me imolo entre tuas saias, de peles pendentes, agarrado a tuas pernas, num único desejo ardente de me erguer uma ultima vez, aqui me desfaço,
  desfiz-me,
  para te esperar, enquanto vós me esperais num olhar sem complexos para meu corpo entre bolhas e postulas nauseabundas."

  Caio para dormir entre teclados e mortalhas, entre tabacos soltos e isqueiros, entre cinzas acres e ódios escondidos enquanto ali, a dois passos uma mulher dá murmúrios soltos de um sonho não meu e me procura no outro lado da cama.


*Não segue o acordo ortográfico.
  

2 comentários:

Eli disse...

Li e percebi. Desta vez, ao ler, fui percebendo. Assimilei e vivenciei. Obrigada pela partilha e por escreveres com inspiração.

:)

James Dillon disse...

Ora essa,

deixas-me tímido a evitar o olhar,


cumprimentos,
JD