segunda-feira, 4 de junho de 2012

Inócua mudança

  Quando olho pela esquina da janela vejo pouco mas encontro muito: um planeta que rebola sob a sua barriga, cansado de ser o que é e nada mais, sem nunca imaginar o que poderia ser, a cada letra que desenho no tão raro papel, com esta tinta caseira, espremida através de rituais antigos da merda de gaivota, a cor é indefinida, não tem compostura, com uma textura palpável, cai na página e arrasta-se largando um rasto castanho, o bico da caneta também castanho de aço velho, de uma outra metafísica, forma linhas rectas em perpendiculares com outras também rectas e ás vezes curvas, criando frase atrás de frase em ciclos infindáveis.
  Depois de tudo, depois do adeus alguém diria, acordo neste sítio, só, cercado por abutres em busca sôfrega por um xelim fácil, num mundo que moldei na companhia de algo que me ultrapassa, mas que no fim não é um mundo em pós mudança ou em mudança, é um mero mundo que rebola sob a sua barriga, eu e outros inundados por uma vontade férrea, abraçados numa falange perfeita, enfrentamos borrascas numa casca de noz, para simplesmente concluir o inócuo das nossas acções, politquices balofas, inconsequência da acção, um caudal de corpos frios, gelados que me olham a cada despertar em estranha censura, com perguntas em forma de olhar, questionam-se até ao âmago das supostas questões para desaguar num insípido,
  - porquê? - bradam nesta montagem noir muda,
  não o sei, como haveria de saber, somente batalhei pelo que achei correcto,
  - podem dizer o mesmo?,
  acreditei que era tudo acerca da moeda, que tudo se relacionava com quem detinha a batuta, como a usava, o que fazia com ela, mas agora a cada raio oriundo do sol, cada raio de luz amarelada que me toca na pele velha percebo, talvez na sapiência da velhice, ou na incontornável senilidade,
  - escolham,
  que não é nada disso, tudo se conecta com a condição humana, no fim desta estória compreendo, vejo claramente, mesmo que as chamas que dão luz enquanto este sol amarelo pousa trepidem com correntes de ar invisíveis, compreendo agora que o meu erro foi acreditar que os eus, os tus, os vós, os nós, o todos iriam ver além do óbvio e dar a vida, ou o que define a vida, a liberdade, pelo próximo, pelo vizinho, pelo estranho,
  - tão naive,
  percebo agora claramente, reflecte-se em espelhos baços abandonados por aqui, casa minha, conquistada por abutres, Onhas, Riques, todos, terminaram inundados de desapontamento, ou possuídos por dores mentais paridas da culpa, como falsos Judas, caminharam também seus calvários em busca de expiação, para no fim, no irredutível término se entregarem ao oblívio que criaram ou que encontraram em mera casualidade e aceitaram,
  - lamento meus amores,
  eles não me olham como estranhos, não encontro censuras, mas sim culpa por tanta dor, tantas cicatrizes no agora, mesmo todos estes anos depois e o mundo ainda a rebolar sob a sua barriga, vejo, melhor, compreendo enquanto olho pela esquina da janela que não rebola por bem estar, mas este meu mundo rebola sob a barriga devido a dores que ainda prevalecem, oriundas de cicatrizes feias em forma de ésses mal desenhados, mal fechadas, parecem daqui, ao longe pustulentas e meus irmãos bradam sem grado,
  - foi tudo em vão?,
  para o bem ou para o mal nem tudo pode ter sido em vão, algo subsiste, mas na minha inglória satisfação rodeado por despojos que mais não são que caliça vislumbro somente escárnio e maldizer, confusão, e um mesmo, em decalque degradé, sistema disfuncional,
  - e todos aqueles que tombaram?,
  sim, não me relembrem, suplico-vos, sacrifícios para um nada, para um igual, arrasto-me pelo pó que me cerca de meias de lã com buracos de traças mutantes, enormes como dedos polegares obesos de estadunidenses, pós e sujidades estranhas esvoaçam pelo chão de madeira tingida pelo tempo, arrastam-se como se elevados num curioso campo magnético, movendo-se numa tão estranha e curiosa leveza como se um nada atómico os, as formasse,
  - já acabas-te?,
  recolho-me num silêncio agressivo passivo, cacarejo e abro o robe escarlate deixando-o à vista dos incautos, solto, em pêndulo, flácido, morto, destituído de virilidade, moribundo, por segundos o impasse, finalmente os abutres bufam impróprios para o ar e partem, mais uma vez abandonam a sua demanda por xelins baratos, afasto-os hoje, como ontem, e em todos os outros dias: com uma loucura real em detrimento da sempre presente mas tácita, enxoto-os como abutres que são, exploradores de antigos macacos, não me deixam ir, e eu sem saber quanto tempo a barca e o barqueiro irão esperar, querem-me aqui, tal e qual como um hamster a produzir energia, corre, corre, sem parar, sem paragem.
  Busco para mim, e para vós meus amores a convicção que existe em nós algo mais do que se encontra num dia de chuva, de trovoada, naqueles dias em que os deuses batalham pela luxúria de se cortarem em marés de sangue, em banhos de cerveja quente, em lençoís de mulheres frívolas, putas, naqueles dias em que homens são bestas em rituais bárbaros, e nesses dias que parem chuvas continuas, cerradas, as sarjetas entopem, e eu agora sei que embora acredite nunca irei encontrar em nós mais do que vejo nessas imundas sarjetas.


*sem acordo ortográfico.

2 comentários:

Eli disse...

Às vezes é difícil ler-te... ou ler o que se escreve por aqui, que acabei de separar algo uno. Mas, entretanto, há um momento que, se ler muito rápido, de enfiada, quase sem pensar, consigo ter imagens e, imagino que sejas alguém que consegue ter um grande poder de observar, caso queira. Deves enconstar-te em algum lado, ou quiçá até sentar-se, imaginando tudo o que vai além do visivelmente observável.

Bem sei que estou a ousar, mas nunca deixarei de ser eu mesma, seja em que circuntância for. Com isso podes sempre contar.

James Dillon disse...

Não sei como considerar o "ás vezes é difícil ler-te...", será bom?, será mau?, não que me queixe com a tua leitura diária (também eu dancei entre o tua e sua), muito em sincero agradecimento me disponho, mas concedo que se eu contextualizasse tudo o aqui ponho subsistiria um sentido, uma direcção, mas não me permito tais coisas, o que a mente dita eu aqui exponho sem senso ou lógica que diga ou crie a mínima orientação,


uma vez mais obrigado pela tua companhia,
JD,


quanto ao observar admito em mea culpa que aquilo que mais gosto é subir num trono de madeira ruída e ver, não para julgar, pelo menos tal sentimento despótico ainda não me inundou, mas para meramente ver, ler, concluir, correcta ou incorrectamente é irrelevante, faço-o para mim e uma parte não seguro, como um copo de leite demasiado cheio, algo transborda e eu desaguo aqui a pregá-lo para quem tiver a vontade de o ler,


cumprimentos,
JD