quarta-feira, 6 de junho de 2012

Insónia e fumos

  Cigarro atrás de cigarro de mãos dadas com estilhaços de promessas de um Ventil por dia, enquanto me deito nesta cama larga, demasiado larga, de corpo nu, de pele arrepiada enquanto melodias agudas e graves de um violoncelo me inundam a audição paridos do génio que quiçá busco em certas dias mas nunca alcanço, recosto-me no comodismo insatisfeito, de um corpo nu que geme face ao esforço do descanso, relembro, enquanto penso no quão nu estou e na vergonha que deveria sentir nesta cama larga, desligo a luz munido de inocências que pensei dispersas para um sempre, e as luzes de uma televisão muda agora banham-me em padrões lunares que imagino de lua minha, dançam em formas exóticas, na minha mente lascivas, como mulheres belas pintadas a cores escuras por sóis tórridos de terras exóticas lá daquele oriente que me parece tão sui generis, em danças do ventre, em roupa que cobre o que eu imagino mais belo em tantas formas  do que o é se realmente o vir, sem o engodo, sem a decepção do movimento pastoso, do movimento réptil, em contacto frívolo de corpo com tecido leve mas justo, e eu nu aqui e agora, acendo um cigarro numa cadência incessante, enquanto meus dedos aceleram a ritmo displicente levados por vontades muito maiores que as minhas, letras são comprimidas em estranhos caracteres por um objecto informático não meu, um suspiro que esvoaça,  e eu nu, ao lado, do meu lado, nesta cama larga, e quem será?, alguém suspira em afagos tórridos e melosos, em monólogos de sossego entregue à paz de quem pode dormir, uma mulher, que suspira de suores em noite estranhamente quente para noite encoberta, para noite em que lua se esconde para não me perseguir, para não me banhar à janela a pele nua, arrepiada por melodias ora graves, ora agudas, e eu em desespero faço da televisão minha luz, lençóis rotos que sobem e descem enquanto a sua respiração espaçada sucede, e eu roído de invejas injustas enquanto papo cigarros e deambulo por predicados, munido de nada mais que a nudez e a insónia, a luz banha-me e por momentos sei, que me banha somente a mim enquanto ali de onde é parida o Bismarck passa entre conquistas do passado, em ode triste, em ode de povo alemão em busca de falácias e ideias de massacre, hoje como ontem nu e sem uma erecção que me devolva vida ao corpo nu, com mulher bela que respira inundada por sonhos ao meu lado, e esta luz, esta viagem sem cesso de luzes que me empurram, que me fazem imaginar, que me fazem querer explodir em milhares de partículas ínfimas, e eu aqui como vós minha doce transcendência com desejos sem computação física de empalar mulher bela, como ontem ou no dia anterior, mas meu corpo melado, nu, quente, nu, arrepiado, nu, eu de olhos largos, de língua murcha e amarelada, de dentes sujos, de cigarro na mão, de unhas amarelas pelo doce tabaco, como noutros dias encosto-me em melodias belas como se fossem mulheres de um outro lugar, de uma outra hora como se fossem virgens de pensar e me encaminho, enquanto neste meu lado mulher tisnada pelo sol dormita entre afagos de noite quente em noite nublada. 

  Nada mais perdura em mim que desejo de tê-la, como mais nada perdura em mim que o desejo de me esvair em suor e desaparecer, mas agora nada mais subsiste que a incapacidade de suprimir o ritmo com o qual pressiono teclas de aparelho tosco e grosso, nada mais realmente importa que o meu desejo vil de possui-la, de possuir-Vos,
  - quem?, qual?,
  entre palavras encantadas, sentidas, paridas do embate de corpos sequiosos, de bacias elevadas, de corpos em arcos, de esgares incontroláveis de prazer lascivo, de suplicas por mais, entre temores e receios de partir, de me esvair demasiado cedo, de sucessão, de cadência sem cesso como sedento se arrasta para um oásis, é real?, é miragem?,
  - quem?, qual?,

  Cansado acendo o ultimo ventil em meticuloso ritmo, numa sucessão de gestos técnicos paridos da repetição, vozes inundam-me, vozes másculas que me acordam as sensações, vozes femininas nasaladas, e as putas das fiandeiras confusas pois isto não se encontra, estes divagues, não se encontram em seus naperons, pensam que caí no limite do mundo quando não me encontram a seguir as runas atiradas pelo o oráculo nórdico cego e mudo, e eu aqui em busca de nada mais do que onde pousar meu amor tenebroso, meus sentidos amorfos, enquanto repuxo em busca da ultima gota que me inunda o corpo, do ultimo gole de fumo de este pequeno bastardo parido da seres negros e fogosos, aqui e agora em busca de tesão para viver, para foder, para correr mas mais nada faço do que espremer-me em posição fecal sem largar este pedaço de tecnologia e continuo, progrido, enquanto o lençol sobe e desce e dorme em doce sono, e esta insónia que não me larga, e eu com duvidas, a atirar berros ocos a Vós minha doce transcendência.

  A luz massaja-me a pele arrepiada, acalma-me as dores, a luz desta lua minha em forma de Hood a cruzar o atlântico agora,
  - doce transcendência pressiona o reiniciar por favor,
  (silêncio texano, rolos de plantas secas esvoaçam ao longo da estrada de terra
  batida, ao fundo uma aldeia caquéctica inundada de pós e o xerife caminha por ali com a cara roubada de Clint Eastwood),
  - puta de transcendência vamos começar de novo,
  (estalinhos nas orelhas), 
  - deixa-me dormir, deixa-me estar só sem tesões, deixa-me viver da minha ataraxia, deixa-me estar a nutrir-me no desprezo que resvala de mim para mim. 


*não segue o digno acordo.

4 comentários:

Eli disse...

Difícil ter tudo cá dentro, na mente e no corpo, quando o vazio nos assalta o espaço tomando tudo à nossa volta. Desta vez gostaria de dizer que não entendi, mas a mentira não entra nas minhas palavras, mesmo que a dúvida assuma os mais parvos mortais humanos, nos quais me incluo. Sem dúvidas, agora, te digo que por vezes é preciso desligar mesmo de tudo, perante tais insónias.

James Dillon disse...

Na adversidade crio, na pasmaceira do "estar bem" não, sou amorfo como um figo seco,

portanto devo desligar, estar bem e ser amorfo?, ou deixar-me estar entre sentimentos agressivos que me permitem, bem ou mal, é irrelevante, construir predicados que ao fim do dia, ou no dia seguinte me fazem sorrir?,


cumprimentos Eli,
JD

Ciara disse...

É do "sofrimento" que nascem as melhores obras..
Não tem que agradecer..

Ciara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.