terça-feira, 19 de junho de 2012

A lua que o muda

  (lamento sinto-me um tudo nada agressivo)

  Ontem calcei umas botas de vaqueiro e andei por ai, mal o sol se pousou no ninho de palhas seca onde ronrona entre fodas com outros coisas quentes que não percebo, calcei minhas botas e sai porta fora com a violência de um martelo na bigorna,
  - debandou, - dizem uns sem caras, ou de cem caras ao fundo em prédios anónimos, 
  empurram-se entre orgias em honra a Baco de uma outra estória, mas interrompem coitos e outros assuntos para espreitarem entre cortinas e persianas, quando o barulho do metal da minha porta se propaga entre farrapos pela noite, espreitam na perfeita segurança de quem pensa que não é visto, e não é em facto, mas é sentido, aqueles olhares promíscuos, não mais que os meus, não menos que os meus, somente tão promíscuos e vis como os meus, arrepiam-me os pelos do pescoço, da mesma forma que um gato se curva em desafio,
  - onde vai?, - também me questiono, assim como eles que olham tolhidos pelas sombras ainda montados uns nos outros, homem com homem, mulher com mulher, homem com homem, homens e mulheres que conheço, que compram detergentes e sabonetes na mesma loja tradicional da esquina que eu, e dizem sempre bom dia mesmo quando sabem que eu não digo bom dia, mas agora deitam-se uns nos outros, comendo-se em carnes e espíritos enquanto os fluídos de um acabam dentro doutro em perfeito caos de tesões que nascem simplesmente porque têm que nascer, e enfiar-se onde se possam enfiar,
  (debandei de mim próprio),
  mas ando agora rumo a um portão, com minhas botas de vaqueiro que chiam da novidade do movimento, protestam para mim a violência do meu pé largo de mindinho petulante e desnecessário, resmungam e entreguem preces com cheiro a cabedal a seus deuses para que eu tombe antes de chegar ao paralelo da rua.
  Ninguém sai mais à rua, todos temem o escuro tal e qual o que os faz temer o escuro temem coisas com alho, com cheiro de alho, com sabor de alho,
  - não te rias, - sussurro para mim quando sinto o encrespar dos músculos rumo ao riso aberto, eles andam por aí, entre pútridas fodas esquina sim, esquina não, agarram-se à carne como se fosse liquido no deserto, correm corpos estranhos com línguas secas, colam corpos frios a corpos que ardem de luxurias que surpreendem quem as sente, cravam dentes enquanto comem sensações e sugam-nos entre suspiros e arranhares de carne, bafejam brisas de um outro mundo no pescoço oferecido, tingido de escarlate, em brilho de diamante entre suores, e um,
  - ai que é tão bom isso, mais,- é parido dos crimes, dos criminosos em possessões mundanas muito ao género,
  - tu és minha, agora abre as penas, - ou, - tu és meu agora empina-te para mim, ergue-te, - comem corações que ainda fumegam de calores mornos da carne viva de onde foram arrancados, lambem os dedos enlameados de tons vermelhos, correm tão depressa que não os vejo, fodem como bestas de um outro sítio,
   - é verdade que conseguem aguentar um tesão seis horas?,
   tão naive, 
  - não eras fodida, eras estripada, - ri-se, quem imagino ri-se, - porque te ris?,
  ando de botas enquanto sinto movimentos e sons de coisas que estalam, de ventos criados por não vivos, arrasto meus passos e abano um pau bem à minha frente, ando sem oposição, somente aguardando com antecipação o momento em que algo ou alguém irá rasgar a minha traqueia, ou algo me irá violar colocar no chão e rasgar-me, prostrar-me da dignidade e me possuir, mas desde que não toquem nas botas,
  - então?,
  que mais poderia eu esperar neste dia de lua pesada, ao sair de casa em botas de vaqueiro?

*não segue o acordo ortográfico.

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