segunda-feira, 11 de junho de 2012

Momentos paralelos

i

  Se embora, sem embora que me arrebite do poço de luxúria por onde navego,

ii

  um sol que arranha a persiana, uma brisa que docemente beija o reposteiro, ele ainda em estado vegetativo, em nuances de acordar mais pelo cansaço de dormir, do que pelo despertar, enquanto sinagogas ao fundo, em pedras puídas em bordados dourados, ostenta-se na rua como árvore de natal,

iii

  somente te aguarda entre águas de luxurias em lembranças lá ao longe, somente sei que a saudade te adormece os sentidos, deixa-os inertes e brilhantes com a violência áspera de uma língua de gato, somente sei que sabes que não existe nenhum recanto, nenhuma pedra com muco, ou com musgo por levantar onde te possas esconder,

iv

  escarafuncham as ideias, serás ourives?, usualmente lidas com elas e crias monumentos com relevos e variados ângulos sem definição, através de ideias que batem à costa em sonhos de cansaços e suores frios, qual a sensação? não existe sensação?, maldizer para ti ó Henry Ford das ideias,

v

  ecoa nele a vontade de abraçar o nada,
  - tic - tac,
  comunga atrás dele o pássaro sem asas e com cheiros a mofo,
  - vi a tua validade e ainda estás distante, mui distante, tão distante que o horizonte se encontra em choques frontais sem a ver,
  - vi a tua validade e já expirou,
  - tic - tac,
  quem és?, quem pensas que és?, para assim me atirares para ciclos de dolorosas indefinições, pensas tu?, penso eu?, por quantas sombras ele se move, quantas vezes se virou para o lado para suspirar, mon amour, tão rude enquanto olhava entre esquinas lascadas,

vi

  raivas mal contidas que chafurdam neste charco de proveniência duvidosa, e um homem que não pára, em movimentos pendulares absurdos, o solo de madeiras inchadas de humidades antigas ginga e chia em protestos roncados, e um homem que dança de rabo em abanicos mal calculados enquanto o aspirador suga em gestos que outros pensam para corar, e um outro sentado de costas para o anterior, perdido entre apelos ao silêncio, em sons que se precipitam em escaladas por joanetes envelhecidos, de veias azuis, abandonadas, casa agora a roedores e ninho ornamentado por sedas de teias de viúvas incolores,

vii

  pinguins e gaivotas do mesmo sexo de mãos dadas em comunhão de penas e salivas, em comunhão de bens e mesas com comidas estranhas de peixes crus, olham para eles decretos bolorentos  enquanto coçam os bicos monocromáticos, decretos que tornam justo pinguim e gaivota darem as mãos, e elas sem necessidades de decretos para tornar justo o que é justo e puro, nem mais nem menos que os outros tão corriqueiros: cão e cadela, gato e gata, iguais em simetria tão absoluta, digo eu quando ele me o disse, e brado-o sem facho mas com grado com confiança que de falácia nem miragem,

viii

  musicas nuas de sonoridade agradável, mas mulheres perras elevam-se, incham os diafragmas, expandem-no para chegar aqueles agudos perto do cume do K2, os pés de camponesas de dedos largos e unhas pintadas a terra, de pé fincado no chão em elevação instintiva para mais alto e mais alto nos, te alcançarem ó grito, perdão, ó musica.




* sem acordo.

Sem comentários: