quinta-feira, 7 de junho de 2012

Não sei como aconteceu

  Não sei como aconteceu, o quando talvez consiga precisar, mas o tempo, como grão de areia que tomba de um tambor para outro na ampulheta torna-se irrelevante para mim, em detrimento de uma cumplicidade encontrada através da leitura mutua, não sei como aconteceu, mas dou comigo a sentir, a saborear, a cheirar, a absorver com as mãos tudo o que os meus sentidos captam daquela saraivada de palavras, linhas que explodem como a bordada de um galeão espanhol, um navio almirante de cem canhões, os meus olhos massajam cada sentença, esforçam-me muito acima dos limites, focam-nas com violência, actos de instinto nascidos do medo presente de algo se perder, de alguma sílaba cair no oblívio, e ai de mim ter a necessidade de me lançar infrutuosamente em queda livre, em queda sem tecto à vista, cruzo-me com seres retirados do tapete de Tolkien, seres escuros cujos os nomes não profiro mesmo com o sol a puxar-me os folhos do vestido através da janela, são nomes cujas sílabas abanam as fundações desta minha conspurcada terra, atravesso níveis que somente Dante vira, e eu atrás daquele sílaba, daquela tónica que me oferecerá em agradecimento por tal acto heróico o sentido que busco, me presenteará com a capacidade para compreender como aconteceu.


*sem acordo

2 comentários:

Eli disse...

Tal ignorância é justificada por empatias deveras invulgares. Pertenço-me entre foguetes, que detesto e insignificâncias que sobrevivo. Porque vivem-se as palavras. Apenas... e exercitam-se os seres. :)

James Dillon disse...

Anuo em cumplicidade,

cumprimentos,
JD

:)