sexta-feira, 1 de junho de 2012

Noites ao contrário


   - Leva-me para longe, leva-me para a doce invicta, - e tu cruel humilhas-me e do alto da tua omnipresença dizes,
    - não, sofre meu pequeno, a dor purifica,
    - para o caralho com a dor e suas variáveis, para o caralho com tudo, arre, leva-me já ou nunca mais me ergo teso para vós – arrastas-me pelos cabelos para eu respirar de novo aquele ar, para reunir aquele grupo e de novo ser Macaquinho de Alfazema, para de novo me juntar a Rias, Aros, Onhas, Nhas, Icas, Riques e outros demais, em numero demasiado alto para soletrar tudo e todas, caralhos e putas que me rodeiam e me fazem rir e chorar, praguejar e rezar, rezar?, jamais isso jamais, e sai uma estaca em chamas, mas agora mal aterro lembro-me o quão importante é este ar munido de farrapos de nevoeiro todo o ano, e a cada esquina um pedinte único sem categoria especial, mas noutros lugares encontram-se homens e senhoras na mesma tónica: sem tecto, mas estes reúnem-se em concílios para decidir a divisão dos parques onde vão arrumar automóveis, noutras, falsos cegos pregam para munir bem mais que o salario mínimo, e ali ao fundo saltam das arruadas em combate de punhos pelo canto onde não chove, ou pelo pacote de vinho verde pingo doce, e lutam, desfraldam as bandeiras e guerreiam como Aquiles de outrora, mas encontro mais honra nesta luta sem místico envolvido de homens que tanto em paz como em guerra fazem o seu trabalho ordeiramente, sendo somente a diferença que em guerra fazem o extraordinário de forma normal, arre e sai um viva para vós,
    - cala-te,
    - cala-te tu,
    - calem-se ambos, – Onhas farta-se da merda que nos rodeia, dos discursos vazios, simples resposta ao incessante,
    - está sóbrio, – chuta alguém,
    e não é que está mesmo sóbrio que nem um pero, sacrossanta blasfémia meu herege, sai um auto de fé para o homem possuído pelo demónio da constatação social e com clara noção do real,
    - consolida amor, consolida – digo eu na minha vez de atirar achas para tal fogueira possuída, crepitante, a rua move-se mas nós parados no mesmo exacto sitio, mas calçada ou paralelo dança debaixo de nós como torrente de rio sem sitio para desaguar, abençoo-Vos por me fazeres regressar onde me visitam outros demais e me levam para incontáveis locais, insondáveis locais por mim, mas provocam-me sensações de vagar de leões para ribeira e de ribeira para reitoria e piolhos que ao fundo saltam, e ali, e acolá para setenta sete que dança ao som de musica pastosa e até o contas se junta em cotoveladas maradas de novas ideias e conceitos assim tal e qual o renascimento quebrou ideias morais, socias e familiares, ou estarei de novo na blasfémia, olha, quem diria?,
    - era a cabeça de Luís XIV, não era?, - não sou o único a ver o que não posso ver, respiro um ar que me possui e faz sorrir como nunca antes visto, rio porque mais nada me lembro de fazer, porque mais nada sei fazer neste momento, nesta cidade que me transcende, imbui-se em meu corpo como mamilo em boca de bebé, faz-me sentar de cócoras e rosnar, faz-me ser tudo um pouco que somado dá em nada, mas subtraindo a inexistência prodiga de quem vive como ninguém, e multiplicando-a pela loucura vazia de moralidades institucionalizadas o resultado é falaciosamente absoluto,
    - Macaquinho de Alfazema, - lemos e dizemos em alto em bom som, para surpresa do taxista que se desvia perante tal onda de caos em cedofeita fora de rumo, aonde quer que nossos cascos nos levem, lemos um ao outro, e outro ao terceiro para concluírmos que o mero que nos une, mais que amizade, mais que a vazia loucura, mais que o constante regar de produtos fortemente armados com melaço, o que nos reúne em irmandade desfeita somente pelos conceitos e necessidades da vida real é uma palavra que nos transcende em todos os ângulos, realidades, e noções de tempo,
    - Macaquinho de Alfazema, - diz Riques, - e não discutam,
    - mas quem iria discutir, nós?
    - olha a bófia,
    - corre pá - e fomos, e connosco uma multidão invisível de conceitos e ideias que se unem no respeito por uma esperança: de que sóbrios sejamos capazes de articular um quarto do que agora pregamos, uma réstia de luz que mesmo com as mascaras inerentes à vida em comunidade, no fim ainda seremos capazes de nos elevar acima de tantas outras semânticas diferentes,  ainda podemos acreditar naquilo que nos nutre, mas que somente nos atrevemos a pensar em dias ímpares munidos de vós ó doce fino, ou para aqueles presos aos regionalismos típico da foz, munidos de vós ó doce imperial.
    Caminhamos enquanto pensamos naquilo que nos rodeia, as árvores, o solo de areia húmida do orvalho, o frio que já penetra na capa ébria que nos protegia, a ausência dos anciões que em cruz jogavam a sueca dia fora, mas estranhamente partem quando a noite pega, sentamo-nos adornados pela putaria nas redondezas, por pérolas da economia paralela, relaxamos massajados pela aragem fria que já começa a tirar musculo do osso, e olhamo-nos e sem falar conceptualizamos aquilo que nos define,
     - Macaquinho de Alfazema,
     e aqui jazemos moribundos e despidos, eu sentado com as pernas em forma de borboleta pela primeira vez, Onhas entre saltos macabros em busca de pirilampos nunca mais encontrados, Aros em danças de maçons com moços paridos da areia de praias paradisíacas, Riques a deliciar-se com um belo exemplar de ananás, sentamo-nos entre abraços em conversas animadas e constantemente interrompidas, tudo isso sem usar a boca, tudo sem usar uma qualquer expressão física, ou quebrando o que executávamos à priori, conversamos de forma a nos entendermos quando despimos as nossas as máscaras, esperamos uma substancia que nos acorde, uma grito de rebeldia que ecoe pelo espaço e atravesse pirâmides legislativas, que rasgue a sociedade em nós e em vós, que nos acuda de um outro lugar distante e não alcançável, hoje já não nos reerguemos, quiçá amanha, mas hoje aqui ficaremos alapados com os rabos em terra molhada, e erva húmida olhando o céu e em demanda por respostas que mais ninguém aparentemente consegue encontrar em sitio algum, hoje nunca, talvez amanha,
    - hoje é o dia em que tudo cambia,
    - cala-te com essa merda que já cheira mal,
    - nada muda, nem nós, continuamos na mesma,
    - ladramos, mas nada fazemos,
    - ?,
    resmungos de verdade que ecoam, o medo de sermos mais um, de sermos mais aquela ovelha em curral abandonado, tememos não ser mais nada, tememos atirarmo-nos para a frente de forma aleatória, portanto munimo-nos de todas as respostas em forma de desculpas e alapamo-nos em cima do bom bem estar proporcionado pelo conforto da apatia,
   - abençoada ataraxia - Riques a começar o acto verbal,
   - cala-te,
   - ora porquê?,
   - não queremos ataraxia, queremos,
   - dinâmica, - terminamos em uníssono, aqui estamos e a concordância começa a desfazer-se antes mesmo de nos mexermos, começamos e paramos, como quem reabastece de forma consequente, outrora atirei-me de frente agora também eu travo e espero que meus queridos irmãos constatem a necessidade incontornável de nos munirmos de foices e berrarmos por algo mais,
    - e…,
   - arre Riques, cala-te,
   - sinceramente,
   - mas o hoje, o agora, amanhã não será mais que uma manha suja na memória,
   - o quê?,
   - isto...,
   - achas?,
   - quantas vezes acordas depois de uma noite em que é suposto termos percorrido um caminho juntos mas não te recordas?,
    - cala-te,
    - bem se assim é pelo menos continuaremos a navegar por marés brandos e estaremos seguros,
    - cala-te tu agora Aros,
    - arre os dois - consente Onhas - que já irritam,
    a força da inoperância, da mera demagogia sem sequer estar munida de retorica falaciosa, então a cepa torta aqui é nada mais do que andar em infindáveis círculos sem nunca procurar realmente um verdadeiro norte.
  O frio em calmo passo é substituído por um ameno empírico, o sol nasce e começa a mergulhar as esquinas da metrópole em luz, o nevoeiro oculto na noite começa a ser rasgado e levado para longe, perante o nosso olhar de tristeza,
    - também não é hoje que regressa,
    - quem Jasmim?,
    - D. Sebastião,
    - vero,
    Riques olha-nos enquanto assoa o nariz, arruma o lenço num quadrado geometricamente perfeito e coloca-o no bolso da camisa de padrões roxos e cinzas,
    - nós gostamos de D. Sebastião?,
   - arre homem cala-te, quando entenderes entendes, não existe propósito na mera casualidade de uma explicação, - arrebita Onhas, Riques amua de forma quase infantil e levanta-se caminhando em círculos como um leão enjaulado em busca de uma fuga, mugia no entanto, e ouviam-se engrenagens em rotatividade máxima,
   - não adianta, quando te atingir será do nada e não por pensares no assunto,
   - não são doutrinas Riques,
  - nem são ideologias, - conclui, sem vontade de conversa fiada em busca de meros conceitos transcendentes,
    erguemo-nos em uníssono em busca do sangreal, em busca de sangue santificado pela inquisição do terceiro estado, não quero nem vou alimentar mais sentimentos vãos, se todo este caos dentro de mim irá desaparecer como Riques prega de que me adianta matar-me em concessões maradas, não sei onde vou nem para onde vou, sei somente de onde regresso, sei que em certos dias como agora busco uma demanda suicida sei que em outros em que o meu hálito não se encontra em estado explosivo procuro a ataraxia referida e censurada por meus pares, busco o quê e quando, defini-o sem certezas relativas ou absolutas, caminho agora de braço entrelaçado a outro que me transcende e a Rua do Almada corre-me os sentidos, as pequenas lojas familiares, as outrora pujantes industrias, agora resumidas ao pequeno comercio e ao biscate ocasional, em paralelo torto e malfeito, têm má vontade os pequenos, em busca dos Aliados em descida lisa e equilibrada e são bento, perto, já cheira a óleo e fumos pesados, e agora penso que os comboios darão boa cama, pois meus pés em comunhão comigo não querem regressar a casa longe, onde já estive hoje, mas fui levado.
     Quando acordar sei que não relembrarei, Riques foi castigado, mas em verdade não falhou em tudo, agora sei que talvez tivesse razão em alguns pontos, não todos todavia, mas sei que agora pensando no todo em vez do tudo,
    - não faças isso jasmim,
    - cala-te Onhas,
    desconfio que agora como já outrora ocorreu me irei levantar e não recordar meu pensamento, voltarei, enquanto o sol brilha, a ser uma velha ovelha sob jugo de pastor.




*sem acordo

 

2 comentários:

Eli disse...

Li tudo, mas não percebi (bem) e talvez fosse esse o objetivo... deambular... que tantas vezes (me) permito (também).

James Dillon disse...

Só pelo facto de leres tal massa incogruente de texto de lés a lés me curvo, se não percebes-te tudo quer dizer que percebeste algo, o que já é mais do que posso dizer de mim,

um obrigado,
JD