sexta-feira, 15 de junho de 2012

Primeiro Dia

  Um homem caminha com a companhia do eco dos seus passos, seus olhos tragam o escuro em busca de um farrapo de luz para o guiar para onde o escuro não alcança, suas mãos com cortes vermelhos, de onde uma substância escorre, rasgadas de fricções com caras de surpresa, apalpam paredes de relevos agressivos em busca do ponto em que terminam.
  Uma mulher que navega por um universo de brancos, de olhos cerrados incapazes de sorverem mais raios iluminados, passo a passo em busca do seu eco, para não o ouvir, enquanto o som se propaga por infinitos sem término, seu mundo: um nada de luz sem quebras de página, de mãos brancas como cal erguidas em  sonar de tactos, e uma demanda pelo seu fim, em abraços de alma, entre rezas rasgadas do ventre liso para Hádes e a sua sombra, uma mulher que procura entre aspirares sôfregos de ar reluzente por um contacto sólido, seja parede, humano, ou animal, talvez vegetal ou outro ainda não qualificável, gritos que sobem em tom, brados rasgados de ódios passivos, enquanto a incompreensão e a desorientação são sucedidas por uma loucura pura, enquanto luzes concentradas a despem de tecidos brancos, seios brotam entre farpas fumegantes de um vestido em trapos.
  Uma criança ali, pensa um velho grisalho entre paisagens verdes, a copa das árvores centenárias concedem uma sombra onde se senta para nada mais que escutar e imaginar o que vê: uma criança em lado nenhum, um homem entre sombras, uma mulher tenra e bela com farrapos que fumegam perdida numa charneca de luz contínua, o velho de barbas grisalhas, de lábios grossos e húmidos, de nariz achatado, com um longo cabelo grisalho de sujidades, apoiado num cajado com estranhos espinhos pontiagudos embutidos, que furariam carnes de todos, mas não furam as dele, como quem presta vassalagem a seu mestre, coça a barba num trejeito de quem vê algo que os outros não compreendem, move-se para o sol lhe bater, iluminar sua pele ondulada, onde entre pregas secas de epiderme se escondem segredos perdidos de outras realidades, sentindo-se em cima de uma muralha enquanto vê aquele homem, aquela mulher e aquela criança que (ainda) não corre entre campos de cereais que (ainda) não foram semeados, o tempo não percorre seu destino preso num vácuo parido da vontade não perceptível por nós que (ainda) não existimos.
  Encantamentos arcanos surgem enquanto o ar dança ao ritmo de palavras incompreensíveis, palavras ornamentadas por malmequeres, palavras com cheiros de incensos tolos movidos por vontades que transcendem os ingredientes, seres desconhecidos, (mesmo agora), de onde vos descrevo, voam em círculos rectos, parecem gaivotas, parecem noivas, não fosse a juba, parecem leoas não fossem as penas, parecem sapos, não crocitassem, e o homem apoiado num cajado que nos oferece luzes sem cores definidas, a copa das árvores abanam-se mesmo neste vácuo de elementos naturais, enquanto ao longe, tão longe que não consigo ver mas alguém me o disse, e esse alguém, corrijo, essa alguém não se engana, embora se comporte em relação a mim como uma ninfomaníaca em busca do amor dos mortais, ela me disse e eu acredito que a sombra onde o homem caíra em posição fetal, ao mesmo tempo que gritava desesperos em impróprios linguísticos para o horizonte que não existe (ainda), com uma loucura tácita a remar com a violência de Viquingues em rumos de conquista, loucura que dança ao mesmo ritmo que as palavras arcanas são soltas dos lábios grossos do velho apoiado no cajado, disse-me que a mulher corria também em desespero tentando cair no solo sem nunca o encontrar, corria em loucura tentado evitar a luz que lhe queima a pele branca como nuvens de verão, a luz abanava alicerces de um nada que somente consigo imaginar, e a sombra move-se em bloco enquanto silabas inalcançáveis se juntam em palavras que não compreendo, quem nem ela, minha puta de transcendência consegue discernir, ao longe escuto as fundações de ferros raros e metais preciosos deste meu mundo serem movidas e a luz a rasgar a sombra com a violência de um ariete movido por homens portadores da essência da lâmina, homens largos e belos de outros tempos (que ainda não aconteceram), mistura-se tudo, o que é escuro com o que é somente luz, tudo numa mistela vanguardista, tudo numa unidade impossível de absorver pela mera visão de um mortal, mas ela vê, olha de frente para o escuro que dança com a luz enquanto homem cobre com seu corpo mutilado uma mulher banhada em sangues seus, tudo se junta, o idoso agora de joelhos e com um sorriso desenhado a lápis de cera por uma criança que (ainda) não existe, abre-se de braços bem abertos, de penas separadas com uma túnica de mil cores, e,
  - bang,
  tudo se conjuga em algo e encontro-me ali a caminhar por estradas em becos sem fim, por florestas e mares no vosso dorso ò doce transcendência e vejo vales, e penínsulas, e cordilheiras, um mundo sob um caldeirão que fumega e (ainda) está vivo, onde homem e mulher unidos se perdem propositadamente num tango que não começou (ainda) mas nunca termina, e uma criança ali à frente corre em rios de magma, e quando espirra, meu, vosso mundo move-se entre crostas que estalam.
  Eu aqui no alto enquanto observo o que floresce, enquanto vejo mulheres, homens e crianças que lutam todos os dias para atingir o fim do dia e rasgar pão para o dividir entre todos, árvores que abanam dentro do tempo, mares que se erguem em caos sublime, olho para vós minha doce transcendência, lágrimas correm livres em sulcos somente meus, 
  - assim nasceu uma perfeição que conspurcamos a cada acto livre de respirar.



*sem acordo


**Participação de Junho na Fábrica de Letras

2 comentários:

Eli disse...

É caso para perguntar: "Onde estás?" ao autor do texto. Eu já participei, em tempos, na Fábrica de Letras...

James Dillon disse...

Aqui,

cumprimentos,
JD