domingo, 3 de junho de 2012

XXXIX

"...

a Photo Royal Lda do Beato e a sua montra de noivas alternando com bebés nus em almofadas, diante do mesmo castelo e do mesmo lago que nós mas num formato maior e sem polegar, com o tempo decifravam-se mal as nossas caras, a boca para os sinais já não
- Perdão?
não boca ainda que a Princesa continue a remar, o pingo  no meu joelho dissolvendo-se
(dissolvi-me)
ficou parte da gola e o telão uma névoa, suponho que a Photo Royal Lda uma névoa também, uma névoa o empregado de mãos amarelas dos ácidos que nos arrumou na cadeira, uma névoa o espelho com uma escova e um pente de acertar carrapitos, melenas, o Beato mudado, prédios a esconderem o rio que o tempo dissolvia igualmente, eu a escorregar da minha mãe e o empregado ajustando lentes, invisível a seguir as caixas, arcos voltaicos, panos, a desordem de porão de bastidores
- aguente-o madame

 ..."


*Excerto retirado de Eu Hei-de Amar Uma Pedra, de António Lobo Antunes

2 comentários:

Eli disse...

Por que é que há leituras que nos embalam?!... :)

James Dillon disse...

São leituras em que palavras doces, palavras azedas, palavras duras e palavras moles se unem de forma displicente, a ritmo frenético, me fazem sorrir, me fazem chorar, me deixam com desejos sujos, me deixam com vontades puras, mas no fim só me apetece pedir mais uma garrafa e jogar conversa fora com alguém que tanto faz pelo meu estar e sentir sem o saber,

cumprimentos,
JD