sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Insustentável

  Quantas vezes não peguei na caneta para descarregar a raiva que sinto, a paixão fragmentada que invade este meu invólucro, centenas de milhar de sentimentos que nascem e crescem de embates no dia a dia com quem amo, com quem odeio, em verdade acredito que sem o ódio por alguém, não se pode amar, engraçado como desaguo no amor por quem odeio, agradeço a Eru Ilúvatar não ser o contrário, paixões afloram na minha pele como entidades independentes munidas de sentimentos tão forte que são impossíveis de controlar, chegam em ondas paridas de um epicentro vago e desconcentrado, meu corpo não aguenta, meu pedaço de carne rebenta pelas costuras com o que sinto, o coração dói, as mãos tremem, a cara branqueia, meus olhos vermelhos, preso em areias sentimentais, acorrentado com adamantium a traiçoeiros sentimentos, eles movem-me, assim como me quebram, eles alimentam-me, assim como eu me alimento deles, em demasia, em gula nociva, gula descontrolada,

  aqui e agora, aqui e agora este existir é apenas um passo, quantos faltam não sei, mas não existe nenhuma sombra de dúvida em mim quando digo: que o agora não passa de uma poeira na existência de um ser, do meu ser pelo menos,

  eu sou, eu existo, acima de tudo sou muito mais que este invólucro que nem paixões, raivas e ódios consegue suster sem verter líquidos segregados pelo amor, pelo ódio, pela saudade, pela paixão, pela raiva, pelo mero instinto de sentir.


*Sem acordo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

LX

Cruzei-me com ele sem procurar, ao vivo, à capela, numa sala escura,


Keso,










LIX

...






*Manel Cruz, Foge Foge Bandido, Uma historinha.

LVIII

"Elen síla lúmenn’ omentielvo"

Dois passos


  Do inicio ao fim são dois passos, curtos, endiabrados, pesados, em botas de soldado pejadas de lamas secas, leves como sabrinas, cor de rosa, cor do arco-íris, porquê?, dentro da inconstância da coisa qual a razão para me preocupar com o amanhã, quando do hoje nem com o fim me cruzarei, pois sessenta, setenta, talvez com sorte oitenta, nada mais são que uma poeira numa engrenagem de dentes decrépitos, que promove barulhos de correntes que passam entre conexões paralelas e perpendiculares, entre roldanas tortas, não me encontro aqui para me preocupar, não estou aqui para chorar, não me sento aqui em eterna imagem de condenado para me comiserar entre erros de um passado esquecido, não me olho ao espelho para minhas entranhas encrespar de nojos mal contidos, não coço minha barba a pensar na comichão que te espalha quando me ajoelho perante ti, e tu toda molhada, não tenho ponta de siso ou cio, não tenho ponto de origem, ou de término, não tenho mijo, nem sangue, não tenho nada a não ser o rescaldo na panela que é a corda bamba onde respiro em constantes desequilíbrios, mas de onde nunca caí, nada mais possuo que esta camisola branca inundada de suores frios, não interessa onde vivo, onde quero viver, pois nada mais sou que uma poeira ínfima, invisível ao olhar simples, não persisto, não conduzo, não guio. Somente crio, a cagar-me para o quê, a mandar para bem longe aquilo que deveria, e a dizer que sim a tudo que brota, qual enxurrada, dos meus órgãos mais escondidos, pois afinal do inicio ao fim são dois pequenos, para uns, pesados para outros, passos.
    Assim como do amor ao ódio são também eles passos, tudo o que lhe resta a ele, Jasmim de alma, de corpo embrulhado em jornais de ontem é a esperança que nada mais importa que uma cama onde retornar, um corpo de mulher onde se colar, e um pão com queijo para se alimentar, se mesmo assim o espírito se remói de dores inchadas de importâncias intocáveis, ali no sagrado barlavento do convés, talvez, mas somente talvez, fiques melhor enterrado, quem sou eu afinal para desaguar no sentido daquilo que prego?, mas hoje, não constato, simplesmente transmito, que nada realmente importa, amor e ódio são gémeos, sem signo, paridos de mãesputas antes do tempo começar a contar, um não subsiste sem o outro, felicidade não nasce sem infelicidade antes, depois, mas fundamentalmente durante.
    O amanhã ainda é o hoje, como o ontem será enquanto existir o hoje, o meu passado não tem arcaboiço para ser passado, o meu amanhã não tem o porte para ser um futuro, do início ao fim nada mais será que hoje. E nada mais quero que o hoje, que se fodam os preciosismos temporais, que no meio de tanta merda, de tantas inconstantes, de tantos percevejos mascarados de destino, de incontornáveis naperons fiados, no meio de coisas tão complexas que eu ignoro com a força de um corpo mole, a verdade é que vendia tudo o que possuo, que vendia tudo o que sou, somente para me encontrar debaixo de ti novamente.

 
*Sem acordo

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

LVII

Doce..., doce...,






*Rui Veloso, Logo que Passe a Monção.

Palavras naturais


  É interessante como o dizes em falas, sem palavras, é sublime como te entrelaças entre sebes mal aparadas de outros senhores de quem quiçá já foste amante, de quem em mera possibilidade já foste confidente, de que falo?, do inato, subjacente, que não pode ser aprendido quando tudo se escuta, aquilo que pedaços de engenharia soberbos não computam.
  É reconfortante ver silabas torneadas em frases, que desaguam em predicados pouco ou nada previsíveis, e aqui entre nós que ninguém nos escuta, constato quando sou levado por quem tem mais visão de que eu, ou ouvido talvez, me dá a mão e me arrasta para salas escuras, afastadas de luzes que ardem, em salas cheias de ar fresco da montanha, bem no fundo da rocha fundida e esculpida, e aí jorra pujante de tudo um pouco, tudo menos a mediocridade que quantas vezes me repugna.


  Um abraço.

  JD


*sem acordo