quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Palavras

     - Amo-vos palavras, - brado-o, continuo, - desde da manha até à noite cair passeiam por mim, desenham-me sorrisos nas suas conjecturas de sem sentido, acordam-me para as pertinências da rotina, dão-me a mão e levam-me para longe onde nunca  a monocórdica rotina me encontrará, os seus embalos mágicos, a sua construção transcendente: tornar uma frase num ditado, numa lenda, num mito, numa lei, num aglomerado de consuetudinário, são arcanas, são mágicas, são mirabolantes, exprimir tudo o que nos vai na mente por doces e encantadas expressões é como amar alguém que ser quer: tudo parece correcto, tudo encaixa na perfeição, é como ser fragata de linha em época de monções, só no sagrado barlavento eu e elas, nada nem mais ninguém se atravessa na nossa metafísica, nós contra o mundo, a megera da sociedade pode lançar tormentos assassinos, dores, tempestades, censuras, não interessa porque tenho o meu dicionário profundamente mesclado na minha mente e brado impróprios desleais, palavras ao vento que qual pombo as leva e vos atira nelas minhas presunções, - odeio palavras, estragam tudo, quero um mundo de olhares, afinal diz o cliché: que os olhos são o espelho da alma, - todo o meu ser concorda, o nosso mundo,  nossa existência é um oceano de hipocrisias, de nada adiantam profundos ideais, é mudar ou ser morto com uma âncora presa ao pescoço, atirado para as profundezas do esquecimento do frio mar, penso isto como que possuído, parte de mim desgarra-se em espasmos e arrepende-se de proferir aquilo que todo o meu eu entende como uma blasfémia, a nossa alma pensa e cria livre e desvinculada, pura, sem pressões, mas nós quais ovelhas em pele de pastor colocamos açúcar para que o dito não brade dor aos céus, somos tolhidos pelo touro da sociedade, envolvidos em seu abraço, rendidos às suas necessidade, não duvidem meus caros a sociedade é uma megera, uma ninfomaníaca depravada, ela possui-nos e suga toda a nossa independência até que formatados estejamos, o primeiro sintoma são as palavras: em jovens gritamos sem pudores tudo o que nos visita, agora quantos de nós rendidos às amarras do destino bradam aquilo que sabem deve ser escutado, o grito de revolução, o berro de pátria ou morte perdeu-se, mesmo aqueles que persistem nem que seja numa esfera tácita a ser do contra dão por sim, subjectivamente ou não, a segurar a língua bífida atrás dos dentes amarelos, palavras matam, palavras magoam, palavras provocam, palavras movem metafísicas,
       afinal eu amo as palavras, são a nossa arma, o nosso trunfo, mas elas fogem engolidas pelo nosso ego, doce ironia, tão doce como a chuva que bate e rebate na persiana desta noite igual a tantas outras, mas da qual subsiste algo sublime, o pequeno sabor que surge e se mantém, sem norte, numa torrente incontrolável, hoje ideias nascem como a brotar da fonte onde bela e formosa o cântaro encheu, odeio e amo, doce, doce, doce metafísica, em horas pares rendo-me ao teu corpo e amo-te como se esta noite fosse a última da minha existência, nas horas ímpares espumo de raiva, subo a árvores e esmiúço terras só para ti, cerro os dentes e mordo-te imaculada Transcendência, abomino-te em todo o sentido lato da coisa, mas nada realmente importa, o ar começa a ficar mais leve à medida que o tempo passa desde o último cigarro e a minha mente mais toldada com o descer da garrafa, encontro-me a concluir que ataraxia nunca mais, loucura agora e sempre porque caros amigos, paixões, noites como esta cambiam tudo e em nada tudo se perde, mas em tudo, tudo se pode ganhar nem que seja um enorme nada.
     O calor abafado conjugado com uma chuva aparentemente tropical criava um odor que impregnava o quarto e os meus sentidos, um sono incontrolável invadia-me, caio na cama, mais pelo cansaço de não viver, de não existir do que pelo sono real, fecho os olhos sentindo nos ossos que o amanhã em nada seria diferente do hoje.



*Não segue o acordo ortográfico

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sol em dias de chuva

  Nuns dias, pares presumo, acordo, ainda nu abro a persiana, abro a janela, brisa e sol, frio e quente, assim como tu, tanto me aquece quase ao ponto de ebulição como me refresca ao ponto do arrepio, assim me disponho numa janela virada para a rua às nove da manha, olho em frente enquanto me banho, nesses intrínsecos momentos de bacoquice matinal, em que o cérebro rumina entre sonhos que não recordo, ainda em estado vegetativo, desperto mais pelo cansaço de dormir do que pela necessidade, nestes momentos raros como ouro no chão da cozinha, questiono-me, dou trinta e três voltinhas por minuto matutando na exacta mesma questão,

  - porque te prefiro noite?.


*sem acordo

LXVI

Reminiscências,







*Last Resort, Papa Roach

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Comprimido para dormir

  Prefiro não estar aqui a está-lo para ser mais um mero número, mais uma fórmula na equação, numa rotina desfigurada de grados, onde somente me posso agarrar aqueles brados que solto durante as noites que agora sim são do meu gosto: frias, longas, chorosas, negras sem facho que as alimente de luz, brados que solto de cigarro enfiado na esquina da boca, brados que solto de cigarro enfiado entre minhas toscas mãos, dedos amarelos deste meu cigarro, unhas baças deste tabaco que arde e me alimenta a alma à medida que me destrói o corpo, este meu invólucro escravo de um sexo que entesa pela manhã, pelo dia, pela noite, especialmente durante estas noites frias mesmo ao meu gosto em que tu minha mulher, minha morena de cabelos encaracolados dormes só, nessa cama mesmo ao meu lado, mesmo aqui enquanto emito círculos de  fumo para o ar e desenho barcos, vagas, e aviões, ouço o teu dormir, o teu peito que sobe e desce a um ritmo certo, como se um maestro te desse com a batuta, agora inspira, agora expira, agora inspira, agora expira, umas vezes olho-te frontalmente e teus seios sobem em perfeita harmonia como quando olhamos as ondas que chegam naquela nossa praia, outras espreito-te pela esquina do meu olhar e mesmo assim ele entesa, meus testículos encrespam-se e em nada mais penso do que te acordar com meus dentes a trincarem teu ombro, com minhas unhas amarelas e roçarem tuas costas, com minhas mão a agarrarem, a puxarem, com minha boca a sugar-te, onde tu quiseres, e avanço para uma morena que dorme em minha cama em busca de também eu soltar-me das amarras da insónia e dormir comigo perfeitamente encaixado dentro de ti, 
  - não - que dizes mulher?, não?, - ainda não - então quando?, permite-me antes que eles de tão encrespados expludam como um armagedão precoce, porque me empurras?, - prova-me antes - agora entendo-te minha leoa, agora já sei, porque não te explicas melhor, tua bacia eleva-se ao mesmo tempo que em carnes tenras passeio minha língua, sem muito tempo passar sou eu que digo não,
   - não - não me olhes assim, tira essa cara que insinua que se não me enterrar no teu sexo me vais capar com a faca de trinchar o frango, não me olhes assim que não adianta, eu quero dormir, eu acordei-te porque quero dormir, quero deixar de amar esta noite, quero deixar de cantar serenatas a esta noite, sento-me naquele sofá no escuro, a fazer cigarro atrás cigarro, a tragar uísque daquele com a galinha na capa, hora após hora, enquanto tu nua dormes a um ritmo tão certo, tão perfeito, tão fácil, tão semelhante ao relógio em forma de pato que te acompanha em dueto na cabeceira, também eu quero dormir e para o ter, a ele, ao sono, tenho que ir para dentro de ti, perfurar-te carnes tenras, colar nossos peitos, morder-te no ombro, primeiro devagar, enquanto suspiras cada vez mais, cada vez mais alto, mordo com mais força, mordo até furar pele,
  no fim da noite adormeço, mesmo naquele momento em que o cabrão do sol chega para uma vez acabar minha noite, mas que interessa?, adormeci, vazio adormeci, tu cheia adormeceste e dormimos, nem que seja por dez minutos dormimos, abraçados como deve ser minha morena.


*Sem acordo
JD

LXV

Indubitavelmente,





*Hip Hop Lives, Krs-One & Marley Marl.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Aquela garota

 Aquela garota desapareceu, ali onde  o firmamento encontra o que me parecem ser terrenos de sal, aí onde os dois dão mãos e partem para onde quer que esse tipo de gentes vai de férias, por ali, vi-lhe as costas, desenhei-lhe os ombros, mas a pergunta perdura porque ela partiu?, aparentemente partiu para não voltar, mas o cerne das mil perguntas que ecoam na minha mente é indubitavelmente: quem é essa garota?, de onde essa garota veio?, ela escreve umas linhas, e alguém disse, acho que se chamava Internet, não a garota mas quem me disse, que dá aulas num sítio qualquer, acho, não tenho a certeza, aprendi com o tempo, enquanto desaparecia, ela (a garota), não eu, que certezas só têm os palermas, as certezas estão sempre erradas, e mesmo que porventura hoje estejam certas que me adiantam?, qual é a piada sem aquela fracção na equação, sim, sim, a fracção denominada incógnita virtuosa, essa puta de incerteza que tal como sal dá aquele gostinho extra à refeição, a mim e só a mim não o saber alimenta-me a vontade de saber, um ciclo interminável em que somente procuro a minha cauda, a meu rabo branco, para nunca mais encontrar, porque pela esquina do olho vejo-o, mas depois viro, e záu, certeza de o ter visto, esvai-se, urro de frustrado, mas sorrio de: porra tenho algo para fazer, mas fujo ao ponto, como o Mefistófeles dos regadores automáticos de relvados com a incerteza que possa ser água benzida pelo falso santo padre, já agora caros incautos e incautas peço imensa desculpa que tenham sido apanhados no meio deste caos de predicados, agarrem-se às virgulas que não sei quando termina, no entanto se por acaso o sono vier, ou o suspirar de enfartamento perante tal sem sentido, sintam-se livres de se porem a mexer, pode ser?, e não deixem que a porta vos bata no rabo, fugi a sete pés ao cerne da questão, arre engrenagem que emperra, muda de direcção e acelera outra vez para bater numa porta de metal reforçado que me impede de sentir mais do que desapontamento quando digo: aquela garota desapareceu, quem era aquela garota, de onde veio aquela garota, quando partiu, e porque partiu, à porra de vida que quando um pouco de luz me faz sentir quase tão bem quando sol está alto, como me sinto quando a lua me recarrega o sexo, uivo, eu uivo tá?, de tesão feito uivo para as luas, como cão condenado a pisar merda em sarjeta de outras, porque quando me rio pela companhia anónima, fecho os olhos para passar pelas brasas e quando acordo o que vejo?, a garota desapareceu,

  sinto o teu odor puta de transcendência, tem tua mão não tem?, porque a levas-te?


*sem acordo
 JD

LXIV

 - Mil perdões,
 - então porquê?,
 - por isto: puta que pariu a nostalgia,
 - ora?,
 - ando por aqui a deambular pelos tempos do "Contas",
 - doces tempos.



 



*Fuck the System, SOAD

*Sem acordo

Capítulo I. Dia 1 de um amanhã



  Tu és minha boa pastora,

  És uma estrela que me guia,

  És o norte na minha bússola,

  - Odeio-te,

  Como posso ser um perdido?,

  Um abandonado?,

  Quando tu me guias e proteges?.




Quantas vezes não me disseram que isto era um diário, quantas e quantas, indeferidas, redundantes, vazias vezes mo disseram, sem dó nem piedade que isto era um romance, quantas verdades poderiam ser recontadas entre alusões a uma qualquer metafísica, mas sem dó estes homens e mulheres que rastejam num chão imundo me encontram de cântico na garganta,
- é diário?,
- não, – redundante, suplicante, destituído de qualquer formato real, nunca saberei o que é até ao dia em que perecer, nunca ninguém o saberá até ao dia predestinado: aquele em que navego no Lete, antes desse exacto minuto ninguém saberá, nem mesmo eu, o que isto, na falta de melhor vocábulo, é, no entanto sem querer ser mais um daqueles que só concluem inocuidades: é tudo menos um diário,
- é romance?,
- não, – não se calam, insípidos observadores cegos, – não é romance, – destituído de grande parte da minha força de espírito já nem sei o que digo, ergo o maxilar e olho-os, olho-vos, como um homem, despido de alma, não perdida, mas afogada numa avalanche de enfado cognitivo,
do nada pergunta um mundo em uníssono,
- isso é o quê?, – arre, raivas mal contidas brotam de poros aleatórios, que habitam nesta minha pele cheia de pós nas pregas que teimosas pendem, quando uma pergunta tem uma resposta óbvia, a resposta surge mesmo com pólvora molhada, sem cesso, sem olhar para trás, aqui e agora meus caros, a solução ao enigma é: uma incógnita virtuosa, porque em verdade vos digo que sem deixar de ser algo totalmente inócuo, atrevo-me na loucura que me inunda, parida desta raiva que não contenho, a insinuar que este isto é algo muito maior que meu mero diário, ou meu mero romance,
olho para os molhos de folhas na minha frente, em minha secretária, que não é mais que um monte de terra molhada toscamente moldada por minhas rudes mãos tão pouco calejadas, neste vislumbre de realidade pálidas como se censuradas, sem povo para tal penúrias, habituadas às dores de mimos, pouco habituadas ao trabalho de escriba, galguei meio mundo numa demanda egoísta, através de desertos, senti durante o caminhar uma necessidade inerente a qualquer ovelha tresmalhada, a qualquer mamífero sem tecto: dar uma de pensamentos, reunir imagens e sons e coloca-los toscamente em algo que se assemelhe a um manuscrito,
não sou escritor,
se o fosse qualquer tosco com uma caneca ou um pedaço de carvão se denominaria Camões, escrevo como falo, como digo, como conto, sou o que sou, e assim me tornei o que sou nem que o seja somente na retórica que prego ao mundo, amigos, conhecidos, a verdade é que sou um jogral, um contador de estórias, um prodígio de palavras, pobre em vocabulário, mas rico como Judas em ideias, quem me conheceu e está a passar os olhos por este musgo linguístico sorrirá ironicamente, nos seus sofás, esticados como gatos capados, em poltronas de pele, a fazerem aquele som que roça o peido e que assusta a fauna, perto das suas lareiras, de pantufas e robes enfiados, a expelir fumo para o ar, com uma estante de livros atrás, livros que nunca lerá mas sempre terá, tudo isso aliado a um ar de erudição passiva, aquele ar de quem sabe mais do que todos os outros, eles irão rir porque superficialmente me conhecem e com um ar pomposo atiram uma bola de espesso fumo para o ar e entre dentes,
 – inventas cada uma,
assim sendo meus caros, na religiosidade própria de um cão condenado de nada me adianta acreditar em Vós, nada espero da Vossa magnânima presença, nada me será oferecido, mesmo assim não Vos questiono divindade, Ignoro-vos, ferozmente e sem eloquências prodigiosas ignoro-A, desfaso-me de meandros horripilantes e atiro-A para a sarjeta, não penso em Si como um gato chamado Jack não pensa de onde provêm a sua comida, não quero saber, não me interessa, pois eu vivo para perecer, embora não seja homem suficiente para enfiar um balázio na têmpora e acabar com o suplício, ou quiçá seja um pouco mais do que me desenho, pois desistir seria fácil, demasiado fácil na sua dificuldade intrínseca, deveras simples terminar empapado em sangue e meus próprios dejectos, numa cave esquecida, servindo de banquete para ratos e outros que tal, não sou, no entanto, desligado de tudo o que me rodeia, dou comigo sumptuosamente conectado aos pequenos caprichos que equaciono enquanto procuro um sentido, irritante Transcendência esta que me guia, mas que eu ignoro com veemência, sou a chacota das fiandeiras do destino, manco em corrida, fugo da brasa que me queima sem nada adiantar porque onde pisarei amanhã chamas brotam do chão hoje,
desde que emancipei de Vós doce Transcendência embarquei em caminhos que abandonei ao primeiro sinal de emboscada por parte do destino: tentei entoar cantos revolucionários, desmistificar suposições Tolkianas, encantar palavras imbuídas na mesma fonte do arcanismo macabro inerente a  mundos de fantasia, de nada me adiantou, no entanto, trilhar os caminhos outrora abertos por mentes muito mais vastas, ricas e cultas que a minha, de nada me adianta agora, embora sonhe com virtuosismos sou um poço de nefasto, entoei sonhos em menino: cargas prodigiosas de cavalaria apontadas a escudos de infantaria, o sonho de vencer o impossível, muita coisa me foi dita, muitas querelas assombraram meu espírito enquanto divagava na crista de sonhos perdidos mas nada escutei,
– quem és tu?, – perguntam-me com símbolos homens e mulheres através de um espelho baço, no entanto o que se deve questionar e eu faço-o a mim próprio, sem dúvida a derradeira pergunta que me aterroriza nos meus mais macabros sonhos é simplesmente,
 – para onde vou?, – será que sou assim tão diferente dos carneirinhos que possuem este mundo, presumi, ainda presumo que sim, vivo agora, como sempre o fiz: com desejo de respirar noutra época, fecho os olhos por um momento, levo assim a minha mente a trespassar o cheiro a sarjeta no ar que cobre esta já hedionda metafísica, dou por mim muito longe: entre lutas de falanges, onde honra e glória eram a faísca do viver, encontro paisagens que transcendem muito a realidade onde a sarjeta impregna o ar, muitos dizem-me, talvez devesse acatar e simplesmente dizer que sim,
 – nasceste fora de época, – ou então, – nasceste na realidade errada – aquiesço sem nada dizer, continuam, – o teu lugar era no meio de uma horda Viquingue,
 – será?, - fugiu-me, para meu espanto,
imagino, sinto a minha pele arrepiada só de surripiar o vislumbre imaginário que a minha mente cria, o som da tromba a ecoar pelo vale, o toque de carga, mas quem no seu perfeito juízo poderia sonhar estar no meio de tal barbárie?,de algo que pode ser definido como suicídio?,
aparentemente..., mas bem, afinal a vida é a merda que os deuses dispõem,
agora estou velho, com um pé na barca do Letes e outro ainda em terras mortais, quem me cerca, quem procura a minha sapiente, imagino eu, companhia diz-me, com um tom de quem pensa que me pode ordenar,
 – devias pensar em escrever as tuas memórias velhote, – tolos que só sabem martirizar o meu descanso, interrompem-me sempre quando estou a seduzir o velho barqueiro com uma garrafa de uísque, a arma de caça, ou alguma pólvora para a fogueira, tão cansado de ser inquietado, em desespero, dei comigo a acenar em concordância, sempre fiz o que o meu instinto me ditou: mandei à merda pareceres judiciais, sintaxes mórbidas de autoridade e opiniões de estranhos, considerei a moralidade a maior megera, a autoridade de um estado  maior anedota, a força do executivo um hino à fraqueza, ironicamente fui chamado mais vezes do que consigo relembrar de anarquista, mesmo agora, só consigo sorrir, pois nunca soube como definir a palavra anarquista, nunca soube o que sou, não vou começar agora na praia da senilidade,
Arre,
por estas e tantas outras razões incontáveis ou intransmitiveis pelos meus parcos atributos literários nunca tentei iniciar um manuscrito, sempre achei que iria começar a andar em círculos, iria enxovalhar tudo e perder-me no meio de predicados marados,
 – a tua experiencia de vida, – dizem aqueles que são família, – daria um bom livro, – eu sorrio e tento, de novo, embarcar no rio do esquecimento, agarram-me e dizem, – não, – aqui estou e fico para não partir, o tempo escoa muito lentamente e cedi, na velhice cedi, tento agora escrever o que não pode ser passado para papel: um sem número de sensações de um vasto leque de cores, não conseguirei, se, hipoteticamente, tal divague recheado de vicissitudes morais saísse para olhos incautos lerem, em verdade vos digo, além de morrer bacoco e espezinhado, morreria um herege prostituto, um macaco sem galho, um revolucionário sem revolução, um humanista homicida,
arre Vós ò Transcendência,
mas por mais que tente somente encontro incoerentes nefastas memorias, nada de concreto se aflora, tento sofregamente apaziguar as ondas oriundas desta pedra que atirei para o charco da minha mente, preciosismos ou não, como descrever cada acontecimento com a devida precisão?, não sou escritor e não penso em mim como um, sou um mero homem sem nenhum dote em especial, um homem que viveu cada ano da sua vida sob a égide: este é o ano em que tudo cambia (1),
cada história, enfim, deve pelo menos começar pelo princípio, mesmo que arranque pelo fim, o princípio surgira no meio para o meio ocupar a conclusão e a conclusão remeter-nos-à para o início que é o fim, fui claro?, assim sendo começarei pelo inicio, tentarei ser linear, não sou escritor como já referi, o inicio será o principio daquilo que me lembro e do que me recordo, a partir daquele momento que embora não seja o primeiro da minha existência, é talvez o primeiro que recordo e onde pensei e respirei por mim e não como um autómato,
espero sinceramente estar morto quando alguém ler esta camada de musgo e não me podia interessar menos a vossa opinião, simplesmente quero partir, ir para não mais voltar.



*1. Dealema

*Sem acordo

domingo, 7 de outubro de 2012

LXIII

^^




*8 Mile

Um Ponto

  Alguém me oferece um bom vinho para acompanhar a melancolia?, a chuva passeia de pés leves na persiana, o céu grunhe num despertar violento, enquanto nuvens cinzentas se roçam em seu corpo, e eu aqui a pensar o quão bom seria estar noutro lado a fazer um não sei o quê diferente deste daqui.


Cumprimentos,
JD

*Sem acordo

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

LXII

Bushido,








*Shogun Total War II

Falo como digo

  As esperanças alimentam-me, simultâneamente envenenam-me. O amor faz-me sorrir, ao mesmo tempo que rasga de mim pedaços imensos do que me definem como um eu único. Detesto o ponto final mas acabo a usá-lo, como detesto ser taxativo e final, mas o sou agora enquanto danço meus dados pelo teclado. Vamos (ponto). Corremos (ponto). Sentado (ponto). Tão mecânico como as engrenagens de um motor em que A mais B promove invariavelmente o movimento, tão óbvio como o efeito de lançar este camião que visualizo contra aquele monte de caliça que também tento ver, mas custa, torna-se demasiado original para este meu eu de sentenças curtas e finais.

  Escrever é um prazer, talvez o derradeiro, como o faço: instintivo, despreocupado com o correcto ou errado gramaticalmente é algo que me retira de um invólucro carnal escravo de emoções e desejos carnais, de um corpo que se mostra todos os dias desfasado daquilo que sou, quando o de mais simples e básico me faz a mente divagar por corpos de mulheres despidas em camas de cetins escarlates, mulheres de tez morena, de olhos avelã, de cabelos longos e selvagens, mulheres que declamam  Florbela Espanca debaixo de um tecto onde a lua nova, rainha do firmamento, grita palavras em Sindarin,
  - Elen síla lúmenn’ omentielvo, - diz ela,

   desejos irrelevantes na longa caminhada que promovo para mim mesmo, preocupo-me com a minha língua, tento salvaguardá-la de abusos e violações por conquistadores patéticos, mas a gramática é minha para violar, é minha para abusar, é minha para a usar como amante neste labirinto de sentidos cruzados, é minha irmã nas trocas que promovo entre o que digo e penso, 

  se escrevo bem ou mal é irrelevante, pois nestes lugares por onde deambulo acabam por me dar o que preciso para despejar minhas pequenas parábolas, meus pequenos mundos, para criar meus pequenos companheiros que falam em minha mente, e discutem em minha mente, as regras existem como eu existo em contínua relativização do que é suposto, até ao âmago me questiono acerca das mais simples acções, só tenho pena que sem a imortalidade me ficarei pelas questões mais singelas, mais óbvias, pelas desconstruções mais directas,

  tempo, se ao menos parasse este tempo, se ao menos te dobrasse meu universo em dois e te visse, a mim, do outro lado do espelho, se ao menos estas minhas frases me proporcionassem o sustento, me perderia neste mundo que crio para mim, aqui, onde em cada dia crio novas janelas, e paredes, novos tectos, compro mobília e sento pessoas velhas, novas, anãs, gigantes, trago seres retirados do folclore de mentes tenebrosas de tão geniais e trago heróis de Valhalla para aqui se sentarem, aqui onde me sinto em casa,

  é irrelevante se o que escrevo é lido, não sendo porventura modesto o suficiente, ou falso o suficiente para não oferecer a quem realmente visita um sincero obrigado, pois nada vos posso dar além do meu retirar do chapéu, apagar do cigarro, e vénia , talvez um dia quando andar por estes sítios se tornar tão controlado como o que vejo da janela da Almeida Garrett  vos convide a uma visita a minha praia e vos deixe sentar à volta de minha fogueira,

  é irrelevante se escrevo bem ou mal, nasce do instinto de o fazer e na eterna demanda por satisfação pessoal, naquela incessante busca por um próximo sorriso,

  confesso que agora sorrio, todavia controlador e paranóico que sou, tenho que lamentar as raivas que ainda assim brotam mesmo quando bem me encontro, raivas porque aqui não posso fumar, enquanto Garrett tosse de loucura tresmalhada parida por fanáticos, também o sendo no outro lado da barricada, deixem-me inclinar sob meu portátil, enquanto ouço algo pastoso, raspo meu rabo na cadeira ao ritmo, e penso no quão bom, enquanto atiro barro a esta parede invisível, seria massajar minha língua com golfadas de fumo nocivo e mortal.


  Cumprimentos,
  JD


*Sem acordo

terça-feira, 2 de outubro de 2012

N.A.

Por favor reduzam o termóstato da Biblioteca Almeida Garrett, estou a derreter até uma pasta, como aquele molho de comida Indiana tão forte que a galinha nem se sente, só de pensar o meu estômago dá um pincho com o terror bem presente que volte a mergulhar naquela piscina de fluídos.

LXI

  Acorda-me, todos os dias, de olhos lassos, perdidos, inundados de uma mágoa que persiste, te peço acorda-me, desperta-me com essa tua voz,






*Pacman, Manel Cruz

Amoralidade Vigente

             Te digo,

       - resiste, suporta, cerra esses dentes, emite esgares de tensão, - folhas de pele tesas de endiabradas sensações que crispam em costas minhas, de oceanos meus, em dunas onde amo aquelas a quem roubo o corpo, a inocência, o amor próprio, também a elas digo, - resistam, suportem, - pensando melhor, - uivem de joelhos a uma lua em tons de laranja – nasceu hoje a puta, nasceu de amores entre quem se odeia, mas se come, de joelhos colados, em cópula, em concha que permanece imutável, entre meus e nossos dias,  vos digo, a elas, a quem chaves para minhas dunas dei, únicas se pensavam, acordam e perguntam-se de cara pálida como pó de arroz, de lábios cortados, de mãos sujas, de unhas partidas, imundas, com as costas cortadas por fios vermelhos da nádega ao pescoço, com pescoço marcado por meus dedos, que como ferro em brasa, - vos marquei, - e por isso meus amores, em minhas dunas, a olharem oceanos meus, nesta costa minha em que aquele escudo dança, assim como o verdadeiro James Dillon dançou na coberta de uma Sophie Inglesa para terminar com um buraco negro de pólvora no lugar onde antes batera um coração Irlandês  - peço desculpa, tirem esse olhar morto, dispam a surpresa e o espanto por em cima de vós me ter colocado para não mais sair enquanto não me senti sozinho cá dentro, até meus ditos não mais estivessem encrespados, perdoem-me, - arre vá!, - perdoem-me por me ter saciado em vossos seios, perdoem-me por garrafas de uísque rasca que traguei de vossos seios, de vosso umbigo, de vosso sexo, desculpem o cabelo que vos arranquei, a roupa que vos rasguei, o ar que vos roubei, os suspiros que vos proporcionei, perdoem-me os gemidos, os gritos que despejei no ar frio da maresia, suplico-vos que esqueçam o quanto vos sujei,
             no fim do dia,
            - resistam,
           pois eu não mais o farei, o monocórdico da coisa não parte para um outro lugar, assim como eu não me torno aquilo que me salvaria, para isso antes a forca, para isso antes a guilhotina, para isso antes o alçapão, antes terminar do que acabar como eles, aqueles autómatos que nunca se questionam com o pavor da luz que poderá um dia apagar, e o certo deixa de ser certo, o absoluto torna-se relativo e o relativo torna-se um nada com caprichos de coisa,
            - resistam, resistam meus amores, em praias, em terras altas, em planícies resistam, que se o ser é isto é tão patético como o nada ser, se nada mais  subiste para quê vos abandonar meus amores de uma noite, de uma só duna, uma em cada,
           não se envergonhem da lingerie rasgada, não se envergonhem de meu flácido sexo abandonado no meio da areia, não escondam a cara, olhem-me bem aqui no centro e escutem, só o digo agora,
            - não o lamento, mas perdoem-me, não o compreendo, mas peço-vos: não se envergonhem, quando o decoro vos inundar como uma rameira ciosa, lembrem-se: que se foda a moralidade vigente.


*Sem acordo