sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Penumbra

  Nos limites da existência, na sombra que partilha meu sorriso, meu choro, meu grito, meu amor e meu ódio, onde a sombra me invade e apaga todos os resquícios de civilidade, onde o ódio me inunda e me atira para lá do que conheço, aqui regozijo entre cadáveres pútridos e putas abandonadas, aqui engordo de mal alheio e de crias do desespero, aqui de robe escarlate aberto, de tromba pendente e flácida me flagelo em penitência.



*Sem acordo

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

LXIX

Te Saúdo,





* The Message, Grandmaster Flash & The Furious Five

Impossibilidade

  A Alice e o Tim Burton fumam paivas cumpridos, mal enroladas, com tarolinhos fofos mal queimados, 
  - parecem cheerios, - alguém atira da plateia, uma mulher loira com demasiada maquilhagem, sim, sim, daquelas que parece um quadro perfeito quando te deitas e quando acordas parece um rascunho de Van Gogh,
  - e a orelha dele?, - coerência, vá, vamos manter este comboio nos trilhos, vamos manter a coerência dos assuntos, não podemos começar agora a deambular por questões tão desmotivantes como a abertura ao ocidente da Cuba comunista; onde ia?,
  - a Alice e o Tim, - pff, já sei, 
  a Alice e o Tim Burton jogam a bisca lambida numa cidade lá no oeste, daquelas onde podemos ter o luxo de dar um bom banho à Texas,
  - desculpa?, - plateia cheia de questões, isto só a mim, vocês não sabem nada, será a ignorância tudo o que vocês trazem nessa bagagem de vida, José Mário Branco quando deambulava pelo FMI e por um zás um Manuel Alegre no Mário Soares não tinha aturar estes redundâncias cíclicas aparentemente infinitas,  - o que é um banho à Texas?, - questiona com tacto uma menina, uma mulher, morena, com salto alto que não consigo ver, mas decido imaginar: camurça vermelha, reviro os olhos impaciente, mas aqui em cima sinto-me machão, sinto-me cavalo, e sinto-o a roçar o velcro enquanto se desenvolve naquilo que os bichos do zoo usam para comer amendoins, um pendente sem fio que se segura pelo equilíbrio precário que encontra um declive entre aquilo que me prenda a vista,
  - aí que cão, - sussurra o assistente da linha lateral, não consegue ver nada, cataratas que crescem, dentes amarelos que ressoam na noite como o colete do gajo da brisa que limpa as beiras nas scuts, rói-te de inveja Chico, eu consigo ver a miúda com decote, morena, que segura um pendente como o gajo do circo faz malabarismos,  - cala-te meu palerma e regressa à tónica desta nossa sui generis metafísica, 
  - minha cara um banho à Texas pode ser definido como um acto que se executa com os primeiros tons de laranja que um qualquer sol envia para esse fatalista Estado, vamos dizer para bem da constatação da equação que ter ergues às seis da manha, nua como ovelha tosquiada, abres a porta da tua quinta e procuras um declive suave, cheio de erva, relva, coisas verdes e lanças-te a rolar como um barril, assim como um professor de matemática que outrora me abria os horizontes para a vida, enquanto rebolas sem contenção, sem âncora que te salvaguarde, teus seios a embaterem um no outro e ainda assim o pendente não cede a sua posição pitoresca, ancas abanam-se, glúteos que saltam, pedaços de corpo moldados com pele morena movem-se por todo o lado, mas enquanto catastroficamente desces o declive o orvalho lavar-te-à, ficarás fresca como as tripas depois da matança, ficarás fresca como os putos no rancho do Michael Jackson, percebeste?,
  ela anui, abana o cabelo para cair na perfeição à volta da face oval, molha os lábios com a ponta da língua, puxa os ombros para trás, enquanto espevita os seios contidos dentro de um corpete de outrora, e senta-se de perna cruzada, arre posso continuar?,
   a sala resume-se a um silêncio de quem estava ali para ver o lirismo fraco de Tony Carreira interpretado de forma desapaixonada pelo mesmo, mas aquele cabelo faz milagres, infelizmente tem que se aguentar comigo, com este monólogo acerca da importância para sociedade e cultura actual de Alice, Tim Burton e Quentin Tarantino, 
   - não queres antes enterrar-te dentro de mim, não te escondas que se nota, - e não é que se nota mesmo, o raio da morena tinha razão.



*Sem acordo.





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Está frio lá fora

  Que frio, está frio hoje, mas eu sou um escravo, não, por favor parem de revirar os olhos, não vou deambular por rumos tantas vezes tragados por mim, não vou começar a choramingar como o maricas que sou,

  expressões que fogem como cães condenados do inferno e eu como seu arauto berro que parem, que regressem, que comandem meus dedos por caminhos ainda vivos em fauna e em flora, se Régio se lançou através de falhas tectónicas em busca de florestas virgens, eu também busco algo para meu tornar, meu legado, uma merda legado, nada mais tenho a oferecer na minha contingência de nada que uma alma inebriada de tons, cores que dançam dentro da minha mente sem parar, todas as cores que abalam o que eu sou para formarem algo novo só lamento que seja tão tarde, só lamento que esta certeza não tivesse nascido mais cedo, que só agora saiba o rumo que devo tomar, lamento tanta coisa mas acima de tudo e mais importante lamento o vazio que te possui, sim tu, que me olhas do outro lado do espelho com olhos vazios, sem emoção, em busca de um significando qualquer mais profundo que o acto de respirar para o que é esta vida, quando me encolho perante o fim termino a abrir os braços e avanço para ele confiante que o amanha longe daqui será melhor, confiante que o vazio que te possui, não a mim, a ti!, pois eu enquanto danço entre estas palavras estou vivo, mais vivo do que nunca, agora neste momento o eu que me possui ruge como um leão no topo de uma montanha, de músculos tensos, de pescoço esticado, de cicatrizes distorcidas,  ruge, ruge?, rujo de alegrias que mal contenho, rujo de um mundo que desvendo a cada busca pelo ébrio que transforma o meu eu, que me divide em dois, três, quatro eus, uma para cada dia, um para cada hora, um para cada momento, um para cada companhia..., um para cada ideia solta e são milhares de ideias selvagens, indomadas desconhecidas ao homem que abalam os alicerces do que sou agora, do que sou quando me olho ao espelho e a dúvida do que serei, como parar?, para quê parar?, o amanha tão distante é o amanha de daqui a pouco e a inexorável falácia da vida ri-se para mim com lábios gretados de dentes gastos por café de saco e tabaco mascado, que devo temer?, o oblívio?, o inabalável fim?, o amanha e o esquecimento que traz com ele?, legado?, não existe, atrevo-me a dizer que poderia se eu não me tivesse deitado a tentar perceber o padrão de migração das nuvens, 

  - tão escuro, tão desfasado, porque não te sentas e escreves algo que respeita a gramática e a pontuação, porque não te sentas e fazes algo decente para variar?.



*Sem acordo

Prémio Dardos

http://2.bp.blogspot.com/-ckJpDc3bPWA/UJmfDU6ealI/AAAAAAAABj0/gPJDt4GyVzk/s1600/premio+Dardo.jpg 

  A Eli atribuiu este troféu a este blogue,
  
  nas palavras da mesma: " Pelo que percebi, este prémio começou com uma intenção nobre. O Prémio Dardos foi criado pelo escritor espanhol Alberto Zambade que, em 2008, concedeu no seu blog, Leyendas de el pequeno Dardo, os primeiros Dardos, destinados a quinze blogues, que, por sua vez indicariam outros 15 blogues. O prémio espalhou-se e tem como objectivo reconhecer o empenho e o valor de quem escreve na blogosfera mas, como é impossível conviver ou participar sem que tenhamos que obedecer a regras, cada nomeado, que queira participar e aceitar o convite, terá que:"

 
1 - Exibir o selo;
2 - Exibir a hiperligação de quem o premiou;
3 - Escolher outros blogues para indicar o prémio;
4 - Avisar os escolhidos.
  

Sem qualquer ordem específica as minhas escolhas,
  4 - Avançando
  5 - Chez George Sand 
  6 - Devolvo a atenção, O amor acontece?


   Infelizmente a minha lista de autor não pode ser alongada, não visito mais casas com a regularidade necessária para me sentir confortável, penintencio-me por isso, mas contingências impedem-me de passar mais tempo a deambular e a sujar tapetes de outros, todavia o meu gesto para enriquecer a cadeia de uma ideia rica e nobre encontra-se aqui mesmo que eliminado por não o oferecer a quinze outros,

cumprimentos,
JD
 
   

terça-feira, 6 de novembro de 2012

LXVIII

.





*Eminem, Dr. Dre, I Need a Doctor

Só hoje

  As mesmas sinceras desculpas por tamanha presunção, por tamanho desfaso da norma social, mas hoje não me encontro de joelhos diante de vós ò mania do consuetudinário de estar sóbrio, em perfeito controlo das minhas emoções, de sair de casa às sete da manha com o frio de amarelar os dentes, hoje não quero saber do fato feito por medida que me aguarda, daquele sorriso que desenho toscamente nos meus lábios enquanto digo,
  - bom dia caro doutor, como está?, a família está boa?, ainda bem meu caro, logo vamos assistir a um jogo de golfe enquanto degustamos um vinho de rara casta e ouvimos Beethoven?, - para o caralho com a mania de ter que andar com ananás enfiado no dito, de enterrar na sarjeta a criatividade, de ter que esconder todas as ideias que se afloram nesta pele morena dia após dia,
  - meu caro doutor não acha que essa barba não está muito grande?, meu caro esse cabelo precisa de ser escovado, essa camisa está mal engomada trate disso pode ser?, esse tabaco de enrola não tem o status quo necessário comece a comprar este que é enrolado à mão por mulheres pretas, mulheres que são fodidas à vez por capatazes com a bandeira da União tatuada nos genitais, em terras sem nome, de unhas negras como a noite, por mulheres de seios ao léu, lá naquelas terras onde tabaco é melhor, compre este para a próxima ou então podemos necessitar de cancelar a sua assinatura neste nosso mui pródigo clube da mão fria, - o meu sorriso toscamente desenhado com lápis de cera importados, dança rudemente, ameaça desfalecer e revelar mil vagas de raiva dignas da Indonésia, de cansaço, só me apetece despir o fato e mandar tudo e todos para o caralho, 
   
   (as minhas sinceras desculpas pelo caudal insensível que aflora a este meu corpo, tento como tantas centenas vezes contê-lo, colocar uma rolha, de onde saem as palavras, da mente que cria esta raiva, tento fechar os olhos e recontar os números que já sei, iguais à ultima vez, mil e um, mil e dois, mil e três, mil quatro, que se foda, grito, como macaco ergo-me digno e orgulhoso do que sou quando sou e como sou, lanço palavras vis ao dia em que cedi à necessidade de estar aqui a fazer o que me disseram que era bom a fazer, e os cabrões orgulhosos das suas ideias me disseram com confiança mentirosa nas suas expressões de quem suposto me ama,
  - e vais ser feliz a fazê-lo, - meus amores também vos digo,
  - para o caralho convosco,)

  hoje encontro-me tão longe, o filtro natural que me faz pensar antes de dizer, antes de escrever, aquele filtro que homens vestidos de preto colocam na mente depois de fazeres oito anos, que te faz pensar mas não dizer, que a cada curva prende tua língua bífida atrás dos dentes, hoje removi-o, o juízo de tê-lo foi substituído pela necessidade da loucura que dia após dia bate na minha costa, bate e arrebita latente, preciso dela presente, porque hoje não quero saber do lugar montado para mim nesta megera de sociedade, não quero saber do caudal de merda que desagua em mim pelo que profiro, por isso te digo de peito eriçado, de peito inchado, grito aos ventos de forma mais alta que consigo,
  - vai-te foder sociedade, 

  não me interessa o que tenho, o dinheiro que todo o mês tilinta na minha conta podes ficar com ele, a casa que coloquei sobre a minha cabeça podes derrubá-la, o carro que dança por estrada entre riscos contínuos penhora-o minha puta, porque eu, porque eu, porque eu, nada mais tenho a conter, corrijo-me, nada mais posso conter, corrijo-me, nada mais quero conter, cansei-me, só hoje, cansei de ser mais um carneiro neste mundo em que os pastores dançam entre mulheres que se despem, cansei-me de ser um mero número, desisto de desenhar falsas expressões, de dizer olá quando penso morre, de dizer ainda bem que a gripe já lhe passou, quando tudo o que sonho é ver-te palerma a dançar sem a cabeça como as galinha na casa da minha avó naqueles dias em que nada me filtravam, à tantos anos,

   suplico o vosso perdão, de olhos marejados de lágrimas salgadas que sabem a mar morto, lamento que vossa visão avance por esta cavalgada, mas vossa ofensa podem pegar nela e colocá-la onde bem sabem, a vossa ofensa, tão digna, vocês montados em cavalos de belo porte, no alto de de montanhas naturais, alimentados de tetas nascidas do chão como couves, onde me julgam, e resmungam, não quero saber, não me importo, a vós vos digo,
  - nada mais interessa se serei mais um, nada mais quero saber se isto é o que é, estou aqui o quê?, umas miseras oito décadas, seis quiçá capaz de pensar claramente, e não posso fumar porque mata?, idiotas, não comes carne porque mata?, idiota, não fodes porque mata?, palerma, nada mais tenho a dizer, deixem-me fumar, alimentar minha cirrose e fornicar como um coelho com a doença das vacas loucas pela simples razão que o tempo que estou aqui é tão pouco porque não ter um pouco de diversão, quando no fim, se fizeres a aritmética a factura equivale a uma ou duas décadas que irias passar com a próstata inchada, a fazer diálise, e a ver o Goucha a insinuar que é homossexual
  - já sabemos, sempre soubemos,

  perguntam-se vocês, enquanto se questionam pela minha sanidade física e mental,
  - qual é o teu ponto?,
  - não existe cambada de bacocos, todos os dias me ergo para fazer aquilo que é suposto fazer, enquanto o que eu quero é o oposto, alimento-me do que o capitalismo me proporciona, tudo o que quero em troca de anos e décadas é uma semana livre de vós megera de sociedade, livre de vós preconceitos, livre de vós moralidade vigente que me capas o tesão, me agarres pelos testículos e me fazes ganir, tudo o que eu quero é dizer boa noite, quando o sol nasce, e santinho quando te devia dizer olá, tudo o que eu quero tirar a máscara e entregar-me ao caudal que corre sob esta minha pele, sem interrupções, ideias, palavras que se desenham, hieróglifos que parem da cópula apaixonada entre meus neurónios, tudo o que eu quero é um pedaço de papel e uma caneta, tudo o que eu quero é a minha solidão, tudo o que eu quero é uma queca para descarregar frustrações, tudo o que eu quero é o que tu puta de sociedade não me deixas ter porque para te fazer feliz tenho vestir a capa e dizer, bom dia doutor,

  se o mundo não muda, e eu não mudo este braço de ferro termina inexoravelmente comigo enfiado numa cave a dançar sem vida de corda no pescoço enquanto insectos se alimentam do que antes fora meu invólucro, mas onde quer que me sente e olhe te digo também sem tacto,
   - vai para o caralho!


*Sem acordo


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

LXVII

Utopicamente encantado?,




*Ernesto Guevara, UN, 1964