terça-feira, 30 de abril de 2013

LXXVIII

É propício ao dia,







*My Favorite Things, John Coltrane

Tu és



- És um queles, - dizem-me uns tetrápodes bem lá ao fundo, enxergo-os através do vértice inferior direito do caixilho, encastoado na parede caiada, uns tetrápodes que sorvo com intermitências: vejo não vejo vejo não vejo, no vértice, com afinco digno de uma gaivota que insiste em defecar na única poça de água que o naufragado encontra, com afinco o algeroz verte para o vértice, e, daí o meu vejo não vejo, vejo uma gotícula que cai no vértice, vejo não vejo, vejo uma segunda gotícula, mas ainda, - és um queles, - insistem, ficam em suspenso, esperam o meu trovar indignado, eu a esticar as costuras do meu invólucro de peito inchado da infâmia que me lançam, eu, a mim um inocente, um homem que procura, e, eu procuro com afinco por mea culpas e delas nem vê-las nem uma sombra de mea culpa, nem um defeito, esperam que ruja ao vento, lhes lance predicados duros no vernáculo que invariavelmente dá à costa para dar consigo,
- estamos na língua dele outra vez,
chamam-me queles e aguardam a minha confissão, não, aguardam a minha recusa pública,
(um cenário polido,
- menino fale para a câmara quando a luz ficar vermelha, ao olhar a câmara está a olhar nos olhos de milhares de espectadores,)
esperam que repudie estas acusações lançadas por estes mui pródigos tetrápodes, acusações fundamentadas, com alicerces de aços fundidos, técnicas desenvolvidas pós 11 de Setembro, mui resistentes, argumentos temíveis, silogismos montados de forma sublime imunes, inoculados contra o vírus da falácia, tudo unido, peça com peça, tudo batido em castelo resulta num,
- és um queles,
( - menino quer um pouco de maquilhage?,
- não, - penso Acho que quero, - um pouquinho de esse pó nas bochechas minha senhora se não se importa, mas não abuse,
sentado na cadeira com três câmaras e um teleponto desligado, ao meu lado uma jornalista despida do tronco para baixo, e,
- acção,
um rufar do tambor,
- o menino é um queles?,)
todos aguardam a minha recusa, o meu encolher dos ombros resignado perante falsas acusações, um
- fui incriminado, fui incriminado, isto é uma cilada,
tetrápodes, olhos grandes, pequenos, ovais, cor avelã, amarelos, vermelhos, ou avermelhados, púrpura, cor de camelo que bebe num oásis que não é nada mais que uma miragem, sorriem, não conseguem conte-lo enquanto aguardam com a ansiedade segregada por uma manada de poros,
- queremos ver-te a sacudir como um peixe fora de água,
a saliva escorre por queixos de formas geométricas caóticas,
( - é aquela câmara menino, vá defenda-se para ali,
penso Devo chorar muito, colocar uma fronte inocente, uma máscara?, penso Raios deveria ter pensado nisso mais cedo e comprava uma máscara de inocente,
- aquela câmara, vá fale para lá menino, as pessoas lá em casa querem saber o que lhe vai na alma,)
os tetrápodes que,
- queles, és um queles, - a toda hora bradam-mo, já saboreiam a refeição, a minha luta como um atum preso na linha, irei nadar até cair de cansaço e simplesmente estrebuchar mais uma ou duas vezes antes de ser atirado para o convés e flagelado, removidas as entranhas devidamente acautelado numa arca, e à minha volta catrefadas de outros como eu,
( - olhe para ali menino,)
mas agora de perfil, pareço um que quando chegou para partir somente atirou aos ventos,
- veni, vidi, vici,
preparo a minha retórica, monto a minha defesa para desenrolar à brisa pejada de odores de felicidade que está prestes a dar à costa, como aquele cheiro do orgasmo que está ali na escada mesmo a chegar, a dois lanços de tocar à campainha e aí,
- queles, - insistem,
( - para a câmara menino, - pressionam,)
eu?, eu sou um queles?,
- de tais acusações declaro-me culpado, sou um gato vadio, um devasso boémio, um gatuno, um malandro e sorrio enquanto vocês,
- queles, queles, queles,
- sou um digno queles que vive para a próxima expressão parida da inspiração nocturna, do próximo cigarro, do próximo copo de uísque, do próximo respirar,
- queles,
- gato vadio, - acrescento, - gato vadio meus caros.




*Sem acordo.



Cumprimentos,
NR

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Um abraço



            Cerro os olhos para a noite, inda que somente na noite encontre conforto, somente no seu abraço, tão semelhante a outro que me guardou o corpo em tempos de outrora, um abraço, as mãos que se cruzam no meu ventre, um abraço, as mão que descem endiabradas, mas inda assim: um abraço e o teu respirar no meu pescoço, o teu respirar estica-se, crava as garras na carpete,
            (enrolo-me, confundo-me,)
            crava as garras na minha derme, esticas-te, tua pele nua na minha, sinto-te sem te ver, endiabrado pela luxuria caio na retórica de quem deseja nada mais que cerrar os olhos para um sempre, cego para a luz, cego para ti, cego para as tuas formas, para abraçado por ti, com o sentir te ver, com o tacto do corpo de desenhar em meus sonhos, uma perfeição que nem Tu alcanças,
            (e Tu inchada de raiva,)
            seu abraço agora longe, quilómetros de distância, lá se vão as memórias no jardim do piolho, os passeios pelo palácio de cristal, as galgadas por santa catarina, tudo tão longe que no horizonte, de mão em prancha a esconder a minha visão de um sol que nem o vislumbre da memória me quer conceder,
            dai agora sem o seu abraço, somente o Teu,
            (que eu ignoro, e, um olhar irado que me vaza a alma, um brado,
            - lembra-te de mim!,
            que eu ignoro, escuta,  escuta bem,
            - eu ignoro-Te,)
            Teu abraço vazio, Teu abraço frio, o dela quente, o dela de conforto, enquanto a insónia que me come as entranhas se esvai em farrapos quando ela,
            - dorme meu amor,
            enquanto meu desejo domesticado por um toque vazio da lascívia, e um,
            - dorme meu amor,
            seu respirar que massaja meu pescoço, que leva para longe a dor de um dia rodeado de uma mediocridade que lateja a cada esquina, seu sorriso, seu olhar, sua ternura e um,
            - dorme meu amor,
            acendo um cigarro, ela acende um cigarro,
            (Tu megera imitas com uma cigarrilha,)
            olho-te, tu de perna cruzada,  o tacão a roçar o soalho, dois dedos pálidos, os meus tão amarelos, penso Como manténs esses dedos magros tão pálidos?, enquanto os meus tão sujos de tabacos que me canibalizam as entranhas, que me oferecem o fim do dia com um sorriso, um que eu retribuo,
            - dorme meu amor,
            e em seu abraço parto convicto que um amanhã chegará, um acordar quando a tua língua passeia pelo meu peito, pelo meu ventre, pelo meu sexo que insiste em começar o dia antes do meu despertar, um bom dia dado entre nós sem palavras, um cigarro, um chávena de café negro azedo como a cara do limão ao sol,
            (azedou ao sol coitado,)
            ainda assim,
            - bom dia meu amor,
            (e Tu cospes ciúme, comes Teus membros em ataques de raiva, corróis-Te de inveja,)
            agora sem o seu abraço, somente com o Teu,
            (que eu ignoro,)
            agora sem nenhum abraço a não ser o desta noite que ecoa com os barulhos nascidos do escuro: um cão que ladra, um gato em disputa por uma fêmea complicada, não se resigna a cousa, um uivar lá ao fundo, uma lua que espreita for uma frincha de quem vive só quando não há facho que a ilumine, um ou outro foguete de romarias de chicos a dançar viras e cousas estranhas vestidos em saias por cima de saias,
            e, abraço teu nunca mais, abraço Teu nunca mais, somente a noite para me consolar, só o escuro onde me encolho e súplico pelo seu respirar no meu pescoço uma vez mais.

*sem acordo


Cumprimentos,
NR



quinta-feira, 25 de abril de 2013

LXXVII



Ao pequeno almoço, ao almoço e ao jantar,


“(…) quando os factores de erosão são o corpo que não pára de expressar-se, os artelhos que engrossa, eu incapaz de correr em Tavira
- Não me apanham
e por consequência eu numa cadeirita de lona como a vizinha dois toldos adiante, os factores de erosão são o meu marido, que não me procura há um ano, no extremo oposto da cama enquanto eu às voltas com as peónias que mesmo sem chuva se dilatam, me mexem, me conduzem a mão, eu prestes a pedir-lhe ajuda
- Pedro
para que me defenda das flores, acho que acredito em Deus
(devo acreditar em Deus)
mas não me vale nunca, as plantas uma espécie de febre, o colchão infinito e o meu marido perdi-o, quer dizer se eu fora da cama notava que o colchão pequeno, se lá dentro não acabava palavra, quilómetros e quilómetros para encontrar uma respiração, um braço ao passo que o resto do apartamento, muito menor que a cama, as dimensões de sempre, as peónias tornaram tudo tão incompreensível, difícil, estes dedos lá em baixo que deixam de ser meus, os meus não tão firme, tão agudos, a desencantarem uma saliência, a insistirem na saliência, eu
- Acredito em Deus acredito em Deus
e derivado à saliência eu do tamanho da cama, maior que a cama e, mal o nervo da saliência me abandona, a cama a caber no Estoril primeiro e no apartamento depois, Deus resolveu interessar-se e nenhuns dedos, nenhum nervo
(não
- Acho que acredito
acredito, tive uma medalhinha de Nossa Senhora em miúda, um dia não a senti no pescoço, espero que Deus não se zangue)
(…)”



*Eu Hei-de Amar Uma Pedra, António Lobo Antunes

quarta-feira, 24 de abril de 2013

What's the point?.



            Não se espantem, eu ainda estou boquiaberto, os maxilares chiam, ruídos agudos que me ferem a audição, protestos que murmuram, qual murmuram?, bradam aos ventos,
            - falta óleo chico,
            mas não se espantem, não desencaixem os maxilares como eu ainda tento acertar os meus, boquiaberto de espanto, espantado de surpresa e porquê?, ninguém perguntou, ninguém com vontade sabendo de antemão que já cá tenho a resposta engatada na mesma cadência como outros homens dominavam oceanos de areias soltas, onde aqueles repolhos feitos de madeiras são empurrado pelo vento ao longo da paisagem, isso aí, onde a Winchester dominava com a sua cadência, o seu engatilhar, aqui também já sabem que a anteceder a pergunta existe a resposta, e, o meu espanto foi parido entre gritos que não escuto comidos por enfermeiras gordas,
            - olha é menina,
            é um espanto, e, eu boquiaberto inda, é um espanto feminino: sem aquele pêndulo que em tão tenra idade imagino não um pêndulo, talvez uma bolota, que tantas alegrias lhe traria, que tantas vontades por buraco que nunca se encontra, inda dizem que o golfe é vazio de objectivos, coitados curtos de vistas,
            - olha é menina, - insiste a enfermeira gorda enquanto me atira para o colo uma coisa raquítica sem a cousa que deveria parecer um não pêndulo, deveria assemelhar-se a uma bolota inchada na base,
            é um espanto fêmea, não é uma espanta que isso é d’outro rosário, é um espanto fêmea este que pari de pernas abertas numa ala perdida de um ospital (sim ospital), de cara inchada e um fio de baba que me caia e eu sem ninguém para me limpar a testa do suor, o nariz da gosma que brotava às saraivadas perigosas, parecem também elas paridas agora de uma Winchester, ninguém a não ser a enfermeira gorda com bexigas na cara, imagino que sim, tapada com a máscara verde alface madura,
            - então e a sua mulher?, - qual mulher?, - a sua mulher não vêm assistir no parto da cousa, - mulher?, ela vê o meu espanto, um pequeno esgar de ah!, que me dizes?, no meio das carrancas que surgiam na minha cara escarlate sangue coalhado,
            - não há mulher,
            - …,
            - isto que está para nascer é uma imaculada cousa, fui comido por um texugo enquanto me arranjava no sofá com uma caneca de café preto sem açúcar, um cigarro na esquina da boca, pantufas farfalhudas, e, o meu querido robe, sem roupa interior, enquanto me arranjava para o início da noite que tão depressa se torna fim, ou pior, início do dia, rodava sobre mim para me aparafusar com a veemência de quem diz ai de quem me chamar pelo nome para dar de comer a papagaio, canário, galinha, ou coelho, agora que comecei a escrever o meu romance com os fumos que envio para o ar, atravessam-me o espaço entre os dentes deixando para trás nada mais que a recordação e o tom escuro que devagar, mas seguramente se vai formando, isto que está para nascer,
            que já sabemos é um espanto fêmea,
            - nada, nem ninguém semeou a semente no couso que não tenho, ninguém me deixou prenho, mas aqui estou,
            só agora me apercebi que a enfermeira gorda já fora,
            portanto, encaixo os maxilares para levantar o pano, e, a plateia aplaude, até o lince que surge de outra estória, de outra crónica, não é daqui mas ainda traz consigo o mesmo novelo que roubara havia uns dias, semanas melhor dizendo,
            enrolo-me para o início da noite a bebericar um café que me queima a língua como eu gosto, azedo como lima e digo para ninguém: aí que bom, pensando que bom era sentir o absinto a rasgar-me as veias uma vez mais, inalo o alcatrão do Ventil dizendo ai que doce sabor, pensando que bom seria o ópio onde sem esforço estaria onde não estou a fazer aquilo que não fazia ideia que gostaria de fazer, a falar com deuses de barbas a jogar as cartas com maomé, abraão, e moisés, a ler o alcorão, a bíblia e já agora o nostradamus, e, quiça a tv guia, mas fui despido desses prazeres para vestir o fato domingueiro da normalidade enquanto olho de esguelha, mas tento olhar direito, enquanto penso Não gosto de te olhar nos olhos já que acho os olhos extremamente distractivos, se te olho nos olhos como posso reparar no dedo do teu pé que tem uma verruga? ainda assim esforço-me para de esquina te olhar nos olhos e acenar enquanto me pedes para anuir perante o que afirmas,
            - agora o menino é sadio,
            então não sou, sadio como um pêro na primavera, bicha?, bicha?, nem vê-la, pode comer-me até o caroço, arre moça coma-me o caroço e verá se bicha,
            - vê bicha?,
            eu não lhe disse?, bicha nem vê-la,
            ligo a televisão daqueles modernos curtos de grossura e não sei quantas polegadas de distância entre os vértices, ligo-a e aí, nesse preciso momento, pari meu espanto, aquele que trouxe para a metafisica uns quantos parágrafos atrás,
            - what’s the point?, - diz-me um individuo com uma cara de texugo, um corpo de preguiça, e uma expressão de quem gosta do malte mais caro, não porque aprecia o malte em si, mas porque o ar de espanto das garotas sequiosas por um mecenas alimenta-lhe o espírito, qual espirito?,  o ego, medem-no, tentam imaginar o pacote,
            ele diz,
            - what’s the point?,
            embora só o facto de aplicar uma expressão externa ao que aqui dito quase em tons anacrónicos dia sim, dia não já mereça uma menção honrosa na galeria dos espantos femininos, mas o que me fez chamar a ambulância e aturar a gorda da parteira que afinal nem era enfermeira, responder com um lacónico não sei quem é a mãe quando me perguntava uma, duas, e, três vezes, como para ter a certeza que sabia bem o quão galdério era e de cada vez eu dizia,
            - não, não sei quem é a mãe,
não porque forniquei sem pedir nomes, ou forniquei e enquanto fornicava pedia às donzelas para colocarem nos ditos um papelinho com os nomes: maria, susana, mónica, e, eu acabando de ser papado olhava para elas e colocava uma estrelinha para pêndulo pequeno, duas para o médio, três para o avantajado no meu bloco de notas, não!, não fui fornicado, não, não sei quem é a mãe, da noite para o dia, no meu robe escarlate a nadar no arrependimento do que fumava ser tudo mas nunca ópio, o que bebia ser tudo mas nunca absinto ouço aquele texugo de cara vermelha,
- what’s the point?,
de me erguer todos os dias para ir guerrear com outras cousas bípedes para que uma menina gorda de tez escura possa fazer num palco qualquer o lugar de uma que quando foi criada no papel era magra e de tez pálida, um copinho de leite vá, e, ele ainda ali na televisão cozida com mui fermento,
- whats the point?,
de me erguer todos os dias para ir guerrear com outras cousas bípedes para que alguém nos dê um spider-man gay que dance entre prédios com teias que surgem miraculosamente dos pulsos, de me erguer todos os dias para ir guerrear com outras coisas bípedes para que um gay de tez negra possa fazer de superman que com um pincho salta de um prédio para o outro, que com um pincho atravessa o mundo, que naqueles pinchos que extrapolam mesmo esta piscina metafísica voam com tanto afinco que fazem o tempo regressar ao ontem que já tinha ido para nunca regressar,
 - eu já cá estive, - diz o ontem também ele com um nado espanto fêmea nos braços,
agora enquanto ela surge e me beija, um daqueles lascivos que indica que não é boa noite que deseja ainda o ouço,
- what’s the point?,
foda-se chico,
- there is no point!.

*Sem acordo.

Cumprimentos,
NR