quarta-feira, 29 de maio de 2013

O primeiro ponto de um Conto




            De uma só estocada, de um só golpe relembro as palavras que zanzam no limiar da consciência, entre o sei, e o saberei, sei o que não digo, para somente chutar para o papiro aquilo que já esqueci, paradoxalmente confuso, perdido entre os âmagos, perco-me para dar comigo tonto, sem norte, sem dó de mim já que um norte, embora oculto entre farrapos de um nevoeiro parido da memória, melhor, permito-me a exprimir minhas intenções com um maior cuidado, com uma menor intenção falaciosa, com mais arrelio no concreto da cousa,
            inda que abutres grasnem, gaivotas, mas abutres, parecem gaivotas a grasnar, mas no cerne corvos, corvos da tormenta e esses crocitam,
            vejo-o ali enrolado entre papeis, perdido em pilhas que formam pirâmides de pó, cinzas soltas que drapejam enquanto uma janela a roçar a jardineira persiste em permanecer aberta, faça sol, caia uma chuva arrochada a janela sempre aberta, sempre, sem medo, sem soluções para o problema enquanto a enxurrada se infiltra pelo escritório adentro, uma maré que rasga o reposteiro que invade seu templo, sentado, num robe escarlate, ai nosso senhor seja bendito, inda fechado, hoje fechado, daqui, da frincha da porta, aguardo, espero, observo, diviso, enxergo enquanto a pena dança sofregamente no papel, pacientemente almejo o som, o ding qual microondas que me indique que o couso está no ponto, aqui vejo-o decrépito, quem o viu e quem o vê, relaxado, não dos músculos, mas relaxado de uma forma distinta, um corpo relaxado no senso que caiu no desuso, erodido pelo tempo, comido à virga-férrea por uma vida tonta, não de tontice, tonta de tantas voltas, recordo um eu lá atrás, num dia que já foi, décadas que rolaram cronologia fora, e, nunca serão reavidas, um eu inversamente macróbio encostado à lareira, enquanto na rua corriam homens com fuzis, lembro-me do dedo dele na minha boca e de um cheee bebé sussurrado entre as sombras lambidas pelas labaredas da fogueira, relembro as estórias, presumo estórias, já que demasiado belas, demasiado dignas de jogral para historias, daí persisto no meu estórias, relembro, contava-las noite fora, aventuras de homens e mulheres saturados, indignados por um cansaço de existir que se imbuía nos seus membros, na sua mente, nas suas vísceras, lembro-me de uma demanda por um amanhã esclarecido, lembro-me de uma busca sem grados, lembro-me de uma vida que no fim desaguou neste invólucro obscurecido pelo andamento, que no fim nada mais nos concedeu, no desenlace um só espólio, uma casa que se desfaz dos alicerces para cima, ancorada em convívio com encostas minhotas, estagnada fora do seu tempo, presa a nós, assim como nós, e, pelo qual pio lanço umas rezas por um fado diferente, presa a ela, assim como eu a minha mulher, de perna cruzada olha-me de esguelha, sempre com a resposta torta, azeda na ponta da língua, tão longe os tempos em que lhe vendi gato por lebre, me mostrei como o herdeiro digno, herdeiro inda, digno quiçá, mas de quê, de quem?, dele ali sentado, pedaços de derme rebolam do corpo para o tampo da secretária, perdão, antecipo-me antes de tombarem ficam ali, pendentes, naquele ramerrame do cai ou não despenca, arre que para dar com eles assim naquela pindérica figura era preferível que de uma só vez ruíssem e terminassem despidos de glória, espezinhados neste papel deles, neste preciso momento, nesta dada, quando sugiro dada é uma dada de pega, narrativa, o nariz em cima da folha, o dedo preso na tampa da caneta, o dente preso ao filtro de um charuto nauseabundo,  enrolado à mão por cubanas de formas voluptuosas, ele inda aqui e pelo menos de robe fechado, pelo menos tapado, pelo menos, pio oro uma segunda vez nesta manhã enquanto formulo o pensar, pelo menos flácido, lembro-me da infância, dos sonhos incutidos em mim com a violência do martelo na bigorna, visões de um todo em tons azuis, um estudo da cianometria da cousa, quando o amanhã deveria ser tão mais risonho do que o agora era, quando escondido, passos de homens de fuzis na mão corriam rua acima, rua abaixo, batiam a portas, berravam, brados que ecoavam, vozeirões aos quais a lareira reagia com um crepitar inflacionado, um som, ditongos somados e um nome destinatário do escarafunchar destes homens de camuflados e fuzis, de botas grossas e caras bonacheironas, imagino que sim, caras bonacheironas, já que todos os que dançam à batuta de um regime vigente têm, são desenhados com caras bonacheironas, não é?, um só nome,
            - Jasmim mostra-te,
            um dedo na boca, um silêncio que me pedia, um conto, uma estória interrompida enquanto,


(...)



*Sem acordo


Cumprimentos,
NR

LXXXVI


Cadência,






*Ornatos Violeta, A Dama do Sinal

terça-feira, 28 de maio de 2013

Um azul




            Vejo-o, executo nele uma cianometria, conto os pontos, reformulo a coerência do cenário, para em cada canto formar desenhos de algodão, encontro o contraste quando a brisa nos seus braços eleva folhas de um outuno que tarda, uma emoção, só uma, pura, singela, quase transparente de tão límpida, sílfide diria se possuísse um pouco mais de tino, mas penso enquanto executo nele uma cianometria, Quão vasto és, dali a ali um eterno espaço, perdoem-me, suplico-vos que me perdoem a liberdade quando emprego o eterno com o espaço, mas faltam-me atributos, ou, se porventura os tenho em mim empalidecem enquanto o céu azul se estende até onde o olhar estica, a folha que dança de mãos dadas com o algodão, que benfazejo lusco-fusco, que benfazeja decisão por mim tomada quando disse a mim mesmo,
            - vamos agora executar nele uma cianometria, sempre desejei conhecer o que pende debaixo das suas saias cor de bebé recém nado.



*Sem Acordo


Cumprimentos,
NR

LXXXV

Sobre a escrita, Lobo Antunes diz:

"Eu escrevo livros para corrigir os anteriores, E ainda tenho muito para corrigir." 

Numa outra entrevista afirmou também:

"...no fundo, a nossa vida é sempre uma luta contra a depressão e, em relação a mim, escrever é uma forma de fuga ou de equilíbrio… Por outro lado, há a sensação de qualquer coisa que nos foi dada e que temos obrigação de dar às outras pessoas: quando não trabalho sinto-me culpado. Há ainda a sensação do tempo, ou seja, ter na cabeça projectos para 200 anos e saber que não vamos viver 200 anos..."

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Fado



            É como uma febre, um corrupio que escava pelas minhas entranhas, me abre o corpo em dois, do ventre inchado uma cabeça com uma expressão, nela um riso para mim, mesmo eu curvado pelas dores, prevalece o corrupio, meu pecado capital, minha sina é viver em mim o bicho, um bicho que imagina, é uma entidade, uma puta de transcendência que renasce de dentro para fora a cada hora, e, eu seguro com as pontas dos dedos nos momentos menos propícios, meu fado é o crime que cometo cada vez que sonego a vontade de derrapar entre os predicados que esfarelam pão à mesa, sendo a mesa um eu, sentado, deitado para mesa ser tornar, pergunto-me,  questiono-me até ao âmago, uma eterna questão que se forma sem fim, cerco-me em trinta e três voltinhas, não ladro, recuso a ladrar para não cair no cliché, sei, sei, mas não sei, quando sei vivo como mais um, das sete às cinco, monocordicamente sentado atrás do bólide, entre semáforos mudos, entre passadeiras imóveis, mas…, quando as entranhas se levantam em ondas incontornáveis, aí nesse momento, no banho, a saltar à corda no jardim, a observar o efeito de condensação no copo que pousa diante de mim e com ele uns olhos lassos vazios de corpo que espreitam, ai de mim, ai desta loucura, olhos que pestanejam, que anuem perante uma vontade que nasce pura, não concebo pensar marginalmente em nada mais que tentar seguir o ritmo, sabes… percebes o que quero dizer?, não sei se consegues acompanhar as equações cognitivas que formo, sabes fazes-me lembrar o dantas, coitado do dantas…, sabes uma coisa, não consigo parar, sabes, visto a minha capa, e, torno-me num bicho bípede, quase sempre bípede cingido por uma capa, segura por um broche, no cerne do broche uma biojóia de tons esmeralda, na esmeralda uma pedra de âmbar no centro, no centro da pedra de âmbar uma lagrima, sabes dantas…, sabes se a lágrima é minha?, sabes quando caiu…?, sabes porque caiu?, sabes…,
            é como uma dor crónica que me come o fígado, à dentada digna traga-o, enquanto no chão, na cama, no sofá me contorno de dores que, na falta de talento lírico, sou incapaz de colocar em palavras, e, Prometeu tu ententes?, e, cresce, o fígado cresce uma vez mais, por uns dias caminho como uma cousa normal, vou às finanças e olho à minha volta enquanto seres desolados também graúdos, sabes dantas eu sou crescido vou às finanças, à farmácia da senhora cristiana, à tasca do senhor necas, percebes dantas?, sou graúdo, sou peixe grande, e, sento-me nos bancos frios da sala das finanças enquanto soluços caem ao chão a ritmo displicente, e, ninguém com vontade de os apanhar, caem como pedras de todas as filas que se acumulam ao longo da sala, caem como pedras sem charco, ainda assim no cimento, ondas que elevam os mosaicos caros, eu como gente grande espero a minha vez para assim cumprir a minha penitência,
            - ora menino isso resolve-se com duas avé marias, quatro padres-nossos, e cole na coisa mais uns credos só para ter a certeza?,
             - não dá para trocar isso por uma nota de cinco?,
            - mas com certeza meu caro, assim até me facilita o trabalho,
            é uma doença aquilo que me rouba a vida, em troca me oferece um instinto para desenhar palavras coxas nascidas de nada mais que uma vontade que me viola a carne, uma doença blasfema, sento-me nesta cadeira, lá em baixo uma multidão que rejubila, eu sei, eu sei já que escuto os gritos esbaforidos,
            eu não pedi este corrupio que me carrega os botões, que me interrompe o cigarro, as palavras cruzadas no publico, eu não pedi por nada mais que a normalidade, mas inda assim, aqui me ergo, inda que sentado, aqui me ergo despido de roupas e dignidades, embora com um fio, no fio uma biojóia, no centro da biojóia uma lagrima, não uma lágrima, pólvora, aqui me disponho retirado do monocromático ramerrame para uma vez mais despejar cousas que fazem sentido de mim para mim, enquanto outros coçam a cabeça e dizem cousas feias que eu escuto e rio, na falta de melhor resposto olho, e, no olhar um rir concedido,
            - feliz natal dantas,
            a multidão rejubila com o cheiro a carne que queima, com o imaginar do que cheirará a carne queimada, já que eu inda sentado neste meu autoproclamado auto de fé, sabias tão bem quanto eu dantas que era uma questão de tempo,
            a multidão guincha em concordância e a mim só me nascem palavras perdidas disparadas de uma qualquer letra estrangeira, i need a doctor,  nunca tal me soou tão propicio, um doutor que me cure as peles inda sãs, mas, labaredas que escalam meu corpo, meus pês que borbulham, e, o cheiro, o cheiro que me inunda os pulmões, se, não fossem estes pés que lentamente se desfazem e caem em pregas de pele que escorrem lentamente, se…, arre se não fosse esta cousa irritante da dor, quem sabe, sabes dantas?, fecharia os olhos e inalaria, talvez…, mas somente talvez fosse como um cigarro logo de manhã,
            levanto-me, sento-me na berma da cama, olho para trás e abro a persiana da janela que sempre permanece aberta para assim nunca impedir tuas visitas doce transcendência, da persiana uma tangerineira, um pássaro num galho que me dá um bom dia com manias de peito inchado, na cabeceira um livro, um copo de uísque vazio, um maço de tabaco quase comido, uma garrafa tombada no chão, observo-me no espelho e sorrio perante o inexorável fim, acendo o cigarro, o tesão que persiste em fazer-se presente, reacendo o cigarro, e ele, bom dia meu amor, e tu, bom dia meu cabrão, deitada ao meu lado, entraste pela janela, sempre aberta para ti, para nada, para tudo, para pelo menos me adocicares o cigarro com esse tão doce bom dia meu cabrão, resta-me aguardar,
            as labaredas levam-me o ventre a cair em pedaços esponjosos, agora desespero pelo oblívio, agora prego, oro a deuses, a cousas que deviam ser deusas, putas e valquírias, escandinavos, helénicos, maias, aborígenes, todos o que recordo até á garrafa de JB no chão ao lado da cabeceira atiro umas rezas saídas do pânico da dor, promessas vazias enquanto busco o fim que tarda, no meu pescoço uma faúlha mais fogosa que se chega e aterra no pendente, na esmeralda com a lágrima, perdão, na biojóia que parece uma esmeralda e que no centro guarda a pólvora,
            com um corrupio sento-me aqui empurrado por forças que não controlo para cuspir o que brota das entranhas sem filtro que as contenha, que as guarde para refinar, já, que na doutrina me dada, me incutida à virga-férrea, com a violência do martelo na bigorna nada prevalece como o que é naturalmente cuspido, com um corrupio aqui me sentei para gravar com letras e runas em papel branco profecias e redundâncias cíclicas aparentemente sem tecto à vista, da mesma forma que me sento agora, engolido por labaredas que me levam o corpo, o involucro e me libertam a mente, esta mente que olha o que a rodeia para murmurar com pesares, ai que sou tão anacrónica, com um corrupio aqui me sentei para te dizer isto dantas, aqui cuspido por um povo, num auto de fé aguardo o…,
            com um corrupio a pólvora que me cerca o pescoço liberta-se e com ela o meu fim, com ela a minha mente vive, enquanto onde outrora fora guardada voa, se espalha, como uma bomba suja se espalha pela plateia que agora eclode em celebração.


*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR