sexta-feira, 28 de junho de 2013

Sua cousa bubónica



(…)

            (a batuta continuava, os berros, os ecos surgiam daqui e dali, numa postura de merufo mantinha-me distante já que nada disso me perturbava neste,)
            naquele,
            (momento, as memórias são a minha única preocupação, pois na loucura do momento actual, e na senilidade da realidade elas chegam e partem a um ritmo displicente, umas frescas, outras longínquas, tento agarrá-las: uma duas, todas, mas defendem-se, funcionam como um cardume coordenado que me entende como um predador, evadem-se com movimentos tão velozes que não consigo inferir, somente vislumbro sombras da sua beleza quase hipnótica, esta simbiose entre o anestesiar dos sentidos e a senilidade, entre o passado e o presente, entre o que é e não é leva-me a um outro porto, a um outro momento, que sem uma hora, sem uma data, não deixa de ser perto do dia em que me conheci como um ser passível de ser algo mais que um autómato,)
            - nasceste do amor que há entre deus e o diabo,
            disse-me numa incerta era a minha avó, numa manhã anónima, recordo embalado pela voz e pelo escorregar do malte pela minha sequiosa garganta, numa manhã mui fria, mui distante, num gélido como nunca antes fora sentido inverno, assim nessa manhã me disse,
            - nasceste porque tinhas que nascer, era suposto nasceres, não porque eras preciso, querido ou desejado, aconteceu, tal e qual o processo duma vaca que a leva a mugir, tu nasceste,

(…)




*Sem acordo




Cumprimentos,
NR
           

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Um casaco de jó



(…)

            Atrevo-me enquanto visto a pele de jó que tão bem me assenta a tentar pintar-me numa tela de seda,
            (não por vontade dos meus pares para quem, convictamente penso, não sou mais que párea, e, mesmo aqueles que já navegam, me antecedem corrente abaixo no rio do esquecimento, também esses para mim olham e inexoravelmente relembram o que outrora fui, mesmo já tombados nas catacumbas do submundo inda encontram mesmo numa ausência do existir forças para o vértice dos seus lábios ressequidos erguerem, lábios encarquilhados, enfim, lábios de morto, de cadáver, e, mesmo esquecidos eles do que outrora foram, o que eu sou neste mísero agora contrasta de tal forma com o que fui que de mim, da minha desgraça, de minha ida rumo ao reino de Dante recordam, e assim de mim riem, no alívio descoberto aquando do término desses, no oblívio eles enxergam-me de olhos pálidos, de menina-do-olho que me espreita riem, rebolam na poeira do submundo em risos que não podem, nem querem conter e assim dou por mim  a criar algo que me retracte,)
            não sou escritor, nem mesmo um escriba, se o fosse qualquer tosco com um pedaço de carvão e um cigarro enfiado na esquina da boca o seria, escrevo como falo, como digo, como conto em resultado daquilo que sou, nem que o seja somente na retórica que prego ao mundo, sinto-me como um jogral,
            (só lamento esta putrefacta audiência a cheirar a mofo e urina,)
            conto estórias e histórias pobres em vocabulário mas ricas como judas em ideias,

(…)




*Sem acordo



Cumprimentos,
NR 

XC

Como esquecer?,









*Diversidad  (Sam the Kid, Cruzfader, Valete com a nata europeia)

terça-feira, 25 de junho de 2013

Gula



            O dia passou, ele inda e cada vez mais senhor de si, confiante em suas habilidades ditadas em letra antiga de plebiscitos entre bípedes, senhores também eles que o antecederam, incauto, alguns sugeriam que era coragem, eu dito-me por uma fé apartada da congénere acatada pelo rebanho ordinário, e, digo que tal mania, tal crença em tais habilidades dignas do apogeu incaico me soa mais a estúrdio, quantas vezes não quebraste a linha, deixas-te o meu flanco exposto, minha carne aberta para a lança de cabo macio rasgar sem oposição, quantas vezes não nos deixas-te com um buraco para cerzir enquanto tu só esbaforido no meio de mil adversários te pintavas de vermelho, no caos sorrias, bebias teus opoentes que a teus pés caíam como folhas ao vento, mulheres sonegavam suas vestes a ti, somente a ti mostravam os seios, túnicas recém enxutas, na manhã dançavam ao vento no quaradouro, agora rasgadas suas costuras à mão produzidas sob a luz pálida de luminárias que ardiam entre gorduras de tetrápodes, a ti senhor de si a glória, a nós meros pares em nome a linha, o cobrir, o proteger o irmão, o erguer o escudo de carvalho bem alto e assim proteger o elmo do irmão na primeira linha, tu que sorris, tu que ris de luxúria entre danças, eu daqui, nós daqui também munidos, envolvidos na mesma túnica escarlate te seguimos com um olho, o único que podemos dispensar, enquanto a enxurrada que pelo buraco que deixaste é a custo, um preço de sangue, de carne é a custo contida, cada vez enquanto decepas membros, cortas gargantas, arrancas orelhas, danças encantado, possuído pela essência da lâmina, sem escudo, de duas espadas de aço temperado, uma em cada mão, cada vez mais para nós insurges-te como figadal sem honra, a tua demanda pela glória que pintada de vermelho do sangue que jorra dos teu irmãos a nós nos leva a virar-te as costas, e, no fim, mesmo que com as habilidades de Aquiles te tenham temperado os músculos os deuses, a verdade, é que só, como uma rocha, também tu cederás à força dos números, também tu cravejado de seta, lança, escada e machada tombarás a aspirar o ar que resiste em inundar-te os pulmões já levados por uma maré cheia de fluídos que atravessam veias e artérias para assim te levarem para o submundo onde sem moeda te encontrarás a um passo da barca.
            





*Sem acordo.


Cumprimentos,
NR

quinta-feira, 20 de junho de 2013

RIP Tony




*Sopranos

Delatado



            És tão,
            (não, não começa assim, não o disse um eu, não o pensei, não o imaginei eu, nem outro qualquer que vista este invólucro, por isso, não, não começa assim,)
            - és tão,
            (sim, assim parece-me no limiar de um algo veras, assim anuo e permito-me, concedo-me a bênção, ou a cruz de progredir,)
            - és tão descaroável,
            diz-me uma vizinha enquanto passo, em larga passada pensando Será que contei as estrelas todas ontem, ou alguma se escapuliu, alguma se escondeu atrás doutra, e, não é então que uma voz…, uma voz…,
            (foge-me a forma correcta da descrever, não quero, não me permito, não me concedo a liberdade de oferecer numa bandeja de maça na boca a razão a incautos, ou a esta incauta em particular, não quero eu, este eu vestir a dada pele de um ser descaroável, não quero enquanto cerro os olhos em espera para a noite tragar, cerzidos a guita para assim esta noite não se desaforar entre as pestanas, aguardo assim com esperança que o sempre presente a cada esquina, aquele meu fado inegável, incontornável, aquele temível tom nasardo que tanto me arrelia não seja parido nesta noite em particular, daí o meu hesitar para categorizar uma mera voz isolada entre os crocitos sempre presentes daqueles que voam em círculo lá em cima, em constante observar, não quero durante sonhos ser perseguido pela razão em forma de cabeçudos a gritarem em tons nasardos,
            - descaroável,
            - descaroável,
            - descaroável,
            enquanto o público enlouquece, alguns pensam nos Beatles enquanto arrancam cabelos à molhada e os atiram para mim, tomates que embatem, saladas fora de validade, repolhos putrefactos, batatas roídas pela bicha,
            quero fugir a esta pele dada que cresce já sobre a minha derme natural, a este rótulo chutado para mim numa voz…,)
            - és tão descaroável,
            (quero despir o casaco que à força me vestem, pendurá-lo no armário ao lado do de cabrão, do de queles, do de tetrápode sem decência, do de porco, do de filho da puta, do de louco, do de ignorante, do de maricas,)
            assim,
            cedo-me aqui a uma censura auto imposta, cedo-me a uma censura também ela de cariz público, inda que esse tácito, cedo-me a suprimir a raiva que me inunda e se segrega por poros semi obstruídos, cedo os meus princípios para garantir o meu bem pessoal, por isso confesso-vos, um burburinho que vos atiro, a mais não me atrevo, mais não posso entregar devido ao receio de uma visita daquela trinca da demência sempre presente, ofendida pela minha simpatia,
            (ofendida pela minha mentira,)
            assim,
            num só trago, num hálito mal nutrido de ares, quase desinchado de vida,
            assim,
            vos digo quando,
            - és tão descaroável,
            ele, eu, talvez vestido de caraolho, sorriu, sorri, e retorquiu, retruco,
            - que voz… que voz… que voz sagaz,
            (em mil tormentas, em mil demências que enfrentei noite e dia, dias e semanas, semanas e meses, meses e anos, nenhuma dor surgiu de forma tão tremenda, nenhuma entrada em palco me marcou de tal forma, nenhum ferro em brasa galgou minha pele, criou vales, encostas, rios, lagoas e oceanos com tamanha violência como a mentira que proferi, como a traição que cometi,
            no outro lado, no lado oposto, naquele antípoda donde me encontro o Jaquim ergue-se do banco, com ou sem nome, com ou sem identidade, largando ao vento putrefactas expressões para assim amaldiçoar sua sorte com estranhos e obscuros encantamentos, mas inda assim, um de fado marcado por um nome sem norte cospe no chão de desprezo ao me ver,)
            - que voz… que voz… que voz sagaz,
            (deste lado,
             temi o tom nasardo da verdade nos meus sonhos, mesmo de olhos cerzidos a guita, de tudo para assim evitar o desaforar do sono, para assim pedir a deuses a ida e não volta de sonhos macabros marcados, dobrados por vozes naquele tom que me arrebita as orelhas em incómodo latente, pedi, cedi, menti para dormir, para acabar, aqui e agora, enrolado sobre mim mesmo, com as falanges engaiadas pelas unhas em estranhos ângulos, a boca entreaberta como quem busca, como quem exige retroceder a um antes e assim firmar vela no rumo certo, dou por mim a derreter-me de mim para o chão, a minha pele incandescente a esticar-se, e, enquanto se estica a soltar-se, a cair numa pasta, algo como magma, já que o ar deixou de existir, assim como eu caminho para uma cousa diferente do viver, tudo a partir de um momento, aquele em que me traí, aquele em que levei o Jaquim a sair da personagem, a irritar-se com algo mais que o nome que lhe marca o cartão do cidadão, tudo porque aceitei o julgamento popular e decidi soprar o oboé em concordância com a batuta do maestro, decidi balir a horas marcadas como os outros e,
            quando,)
            - és tão descaroável,
            (uma raiva, um tsunami de sensações, um crânio a sofrer o embate de uma pedra anónima, uma beata na menina-do-olho, uma adaga no peito, uma guilhotina no pescoço, uma corda, uma asfixia, já que a piedade, a puta da piedade deixou a vivenda, daí asfixia, daí uma mala, dentro da mala uma vizinha, a mala na mala de um carro, o carro no fundo do oceano, um despertador, um acordar, oxigénio que a sustêm enquanto lá fora seres de gelatina dançam valsas vienenses,
            perdoem-me quando,)
            - que voz sagaz minha cara.





*Sem acordo.




Cumprimentos,
NR