terça-feira, 23 de julho de 2013

A alzira em detalhe



            As nádegas abanam, despescam sobre si, enquanto ao perto, de lupa, ou de óculo graduado umas celulites pipocam reveles, com a perfeita noção que a patroa ao erguer uma das bochechas para o espelho, num esforço maior que humano, o pescoço a gingar, a estalar da pressão quando preso numa viragem de centro e oitenta graus,
            - o manel assim me pega,
            o manel na tasca entre os despojos de uma tarde, traçadinhos e minis deglutidas num só tom, naquele que o copo faz ao embater na madeira da mesa gasta pelo tempo, de rebordo inchado, os pés toscos que se apoiam tepidamente nos azulejos monocromáticos, um paq oco, e, aquele som tão normal ao engolir, o paq inda a chegar e já a garganta gritava por mais um, sempre seca, sequiosa como uma vulva viúva, a alzira,
             - o manel assim me pega,
            enquanto no espelho onde as celulites cresciam, bem visível ao olho da alzira, aumentavam em directo, cientes da sua importância, a relevância a elas oferecida numa salva pela alzira neste preciso momento no tempo contínuo, e, espetem neste estar com a teoria das cordas e um milhar de alziras,
            (um milhar de alziras minhas, só minhas,)
            que dançam de nádegas a abanar noite e dia fora, que na minha mente dançam entre estantes cheias de pós, de espanador numa mão, enfiadas com a violência do martelo na bigorna num daqueles equipamentos do fantástico juvenil vosso,
            (meu,)
            de saia curta, inda que ela dada aos ensinos consuetudinários obsoletos,
            - como quê,
            pergunta,
            minha cara alzira como a fidelidade,
            - ai o meu manel assim me pega,
            de saia curta, inda que ela dada aos ensinos consuetudinários obsoletos assim como a fidelidade, como o desejo unilateral de agradar ao manel, e, ele enfiado de tasca em tasca, a correr as capelas todos os dias, das nove às três da matina, traçadinhos, minis, tremoços e putas, o jantar dos campeões, e, quando entra em casa, sobe o dedo grande do meu pé, a custo enquanto as mão parecem guelras, e as rótulas, não uma que trepa, não duas com a vizinha que lhe faz sombra, sete a multiplicar por sete e um arroto, um cheiro a bagaço que mesmo enquanto já durmo sentado numa cadeira escarlate, num veludo felpudo que roça em mim e diz,
            - quentinho ai que bom,
            se infiltra nas narinas, me acordo e me cria secura nas amígdalas, enquanto lá dentro, atrás do diencéfalo a alzira na cama de penas de papagaio ergue também uma narina, embora pequena, ínfima, uma narina que talvez a olho nu pouco mais corpo possua que a cabeça de um alfinete inda assim o cheio de fininho, já que um corpo caquéctico para lá dentro se enfiar, abre caminho e a alzira,
            - o meu manel,
            pensa inda no espelho,
            - assim o meu manel me pega,
            para acalmar a pele de galinha,
            - vai pegar vais ver,
            agora pendurado o manel num sexo caído, um pé no umbigo, os dentes nos mamilos, um esticão no ombro, e, uma orelha à vista, umas mãos incertas, uns pés com pouca segurança e de repente cá dentro,
            a alzira que nunca pára durante o dia, numa roda viva, enquanto arruma as cousas onde têm que estar, limpa os tomos abandonados pelo tempo, mete tudo em gavetas devidamente catalogadas, por tema, por autor, por ano, por edição, cores diferentes, madeiras diferentes para cada área: ciências sociais vermelhas, matemática amarelo, política verde, desporto cor-de-rosa, literatura branco, pintura azul, música púrpura, a alzira sempre pronta, com o tony a sombrear seus ouvidos, de espanador ao alto, uma gata que mia, uma cadela que ladra, um periquito que sempre esteve no mesmo sítio, e, numa roda viva move-se dia fora, o manel levanta-se às onze sem antes roncar para o aspirador que já bulia sem aparentar ter tecto à vista, de olhos inchados, vermelhos, de dentes sujos, gengivas remoídas com tons negros pouco aconselhados pela dentista, já que quando ele de boca aberta,
            - o senhor tem que para de fumar, estes dentes estão negros, estas gengivas daqui a pouco não seguram dente algum e vai terminar os seus dias a beber por uma palhinha,
            um passo na rua, um olá do sol e um cigarro taxado no espaço entre dois incisivos, um maço de pall mall azul vazio atirado para a sarjeta, uma cuspidela no alcatrão, uma coçadela no dito, e, ginga para a capela onde em voz grossa, de sorriso branco,
            - um traçadinho, uma mini e continue a mandar vir,
            enquanto almoça a alzira olha para o espelho, enquanto dança ao som do tony e enxota moscas, libélulas, mosquitos, centopeias, teias de aranha e aranhas, enquanto enxota bichos sem nome que comem as palavras, eu procuro e acabo,
            - não sei,
            olho para dentro,
            - senhora alzira sente-se num banco se faz o favor,
            - patrão existe algum problema,
            - sabe o que é pior do catalogar mal as palavras?,
            - não patrão,
            - é deixá-las estragar, hoje questionaram-me e eu convicto que a resposta estava aqui procurei e procurei, cansei os joelhos quando de gatas não parava de abrir arrumos para finalmente desaguar sabe no quê?,
            - não patrão, para quê no quê, entendi bem,
            - alzira a minha resposta foi não sei,
            - ai patrão não me diga,
            - digo digo, já lhe disse veja lá,
            - como?,
            o manel sentado enquanto trocava euros por dólares, e uma manada de notas de um dólar na mão, traçadinhos sem conta, as minis esgotaram e o George Washington que olhava o manel,
            - és bem boa,
            o manel para a nota enquanto a atirava para o palco, do outro lado um olhar de esguelha como quem,
            - só isto?,
            a alzira era boa moça, é boa moça, vive na mente de um tolo, trabalha como uma burra de carga, já que enquanto olho os pinheiros, não olho somente, constato variantes maradas que a deixam confusa e tonta, inda assim cerra os dentes e sem um protesto faz das tripas coração e lança-se à empreitada com uma coragem de leoa, dia e noite arruma como pode o que guardo a chave de ouro, o que sei, o que irei concluir, o que descobri, dia e noite, nas parcas horas vagas olha-se ao espelho, aperta mais o corpete, os seios cuspidos quase para fora do corpo, observa cada centímetro tudo com o desejo singelo, honesto de que quando o manel sem mais notas de um dólar para pagar traçadinhos, minis e putas regresse a casa, e com as botarras pesadas pejadas de insectos que despencavam da minha orelha, para onde foram varridos à cousa pequena de meia dúzia de segundas pela boa alzira e sem cuidado de novo devolvidos ao quente pelo manel, e, mesmo assim um sorriso na boca suja, ou pintada à espera dele, inda assim esperança derramada dos poros, uma esperança que o manel ao dar à costa, quando já passam das três da matina,
            - alzira poe-te a jeito que me apetece pegar-te bem,
            mas de lá um arroto, um jorrar de vomitado, uma golfada prodigiosa admito em cima da prateleira do Platão, do Cícero, do Aristóteles,
            (enquanto me amanho com esquecimentos súbitos, enquanto me perco entre doutrinas, quando dentro duma e de repente ao relento sem saber como, quando e porquê,)
            e o,
            - assim o manel não me pega,
            sai-lhe da boca, mesmo quando o manel em nada poderia pegar já que o bicho estava à muito comatoso, entupido de tanto traçadinho e tremoço,
            inda assim quando já passam das três da matina, a alzira troca o corpete e as ligas pelo fato caricato de empregada latina, coloca a capa do cliché, pega no espanador, liga o aspirador, aumenta o volume do tony, acorda a cadela, o gato, e, mesmo o periquito que quando dorme está na mesma pose que quando acordado, e acomete-se ao manel, a custo atira-o  para a cama despe-lhe a roupa com aquele fedor a triste, a álcool com vontade de papar uma puta comprada com duas notas de um dólar, aquele aroma a frustração e existência vaga, um odor a maratonista de capelas, uma mistela de suor com orgasmos vagos, orgasmos que são uma cópia pirata do quebrar das ondas numa praia fluvial, tira-lhe as cuecas onde não esconde um olhar glutão ao couso raquítico comido por uma penugem velha e de pontas espigadas, inda assim um olhar glutão, afinal a alzira dedica-se com um afinco de proletária a todas as suas tarefas e deveres, já o manel devidamente acautelado, o chá pronto para quando despertar, os comprimidos da ressaca na cabeceira num pires ao lado de um copo de água meia vazio numa espera no topo de um guardanapo de papel folha dupla, já de joelhos a esfregar o que secava em cima dos ditongos dos clássicos que desapareciam da minha memória,
            (sabes alzira és um cliché mas sem ti a mente deambulava por ramos perdidos, e, navegava numa  eterna espera para encontrar o verbo certo, a definição concreta para o que me questionam, quando via os pinheiros numa aldeia perdida no tempo sem ti veria velhos velhacos, rudes nas arestas, contigo vejo uma aldeia que parada no tempo papa tradições com uma vontade de suster uma avalanche de novos ares e ideias, sem ti em Moledo veria um mar de rochas, e, no topo uma montanha sem vulcão, contigo vejo um ser vivo que respira, que enche e foge humilde, ausente a noção durante este verão do poder que encerra nos seus braços, vejo rochas que acumulam anos como o  manel cascas de tremoços, vejo uma montanha que visita as nuvens, e, durante as tardes aborrecidas  senta-se num sofá de perna cruzada e se diverte a pedir-lhes que emitem coelhos em cópula, gafanhotos em cópula, sem ti alzira era tão mais obtuso, mas confesso que em ti, quando a menina-do-olho aponta para fora e a ti te vejo, um ponto, um borrão na lente, inda assim sei que és tu, e, quando te vejo sei o que és, és uma tara, és um broche de uma freira, um broche de uma irmã carmelita que nas horas vagas me oferece saber, um mojito, um broche e um tomo de Tchekhov.)





*Sem acordo.





Cumprimentos,
NR
           

6 comentários:

Eli disse...

Detalhes compreendidos e assinalados... Há quem se sinta "bem", seguro, nas repetições. Um fim no manel e zás, passa a ex-manel!!! :P

Nelson Rocha disse...

(risos,)

Eli,

se a alzira conseguisse, se a alzira...,


NR

Bela disse...

Nelson,

fiquei traumatizada! Só esqueceste de indexar a Alzira... tadinha dela. Deve andar a "arder" aí numa qualquer estante, quiçá! ;O)

Um bejinho :)

Nilson Barcelli disse...

Será que a Alzira ainda apanha o papel passado do Manel...?
Se isso vier a acontecer (parece que vais continuar a história), talvez a Alzira ainda chegue longe...
Excelente, meu amigo. As tuas "crónicas" pertencem ao domínio da excelência.
Um abraço.

Nelson Rocha disse...

Bela,

a alzira nunca arde, nunca perde a compostura, nunca perde o norte à cousa,

(risos,)


beijo Bela.


NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

meu caro os teus elogios deixam-me sempre com um ego relaxado, um obrigado pela visita e pelas simpáticas palavras,

abraço.

NR