segunda-feira, 8 de julho de 2013

O calor atrofia-me



            O nome dele é uma incógnita virtuosa, a sombra que o lambe,
            sabe a sal, sal e um sabor um couso mais acre, sabias?, quando arrasto a minha língua,
            - olha, olha, um trilho de saliva,
            cai-me do queixo, arrasta-se pelo pescoço, corridas corpo a baixo entre a gosma da saliva e gotículas de suor,
            dói-lhe o pé, tem bolhas, bolhas do areal,
            caminhei por areia virgem, tão quente, pulei e pulei, corri rumo ao mar, e, o cabrão que me fugia,
            - estava a descer a maré?,
            nunca sei ver essas cousas, não sei ler entre as linhas, entrelinhas, sempre que me chego, snifo o mar, em demanda,
            (uma mão no bolso, uma mão que calmamente adorna-o inda pendente, a outra com uma placa em letras gordas, MARÉ CHEIA OU VAZA?, assim bem grande, para ele que é obviamente dado à bacoquice ocular consiga discernir, de olhos mal cerzidos com guita preta,)
            de pé zigotáctico de bolhas do calor, uma na palma, outra, duas acauteladas no dedo do meio,
            quando,
            - como fizeste isto,?,
            finca o pé sadio no chão, a biqueira, ou se ausente, a ponta do dedo grande do pé amarelada pelas botas com biqueira de aço,
            (made in Indonésia,)
            ergue a cara, vermelha, um balão com direitas, um nariz tão vermelho que só me,
            (no circo as contorcionistas,
            perdão, desvaneci-me por um parco momento do trilho suposto,
            regresso,
            no circo os cavalos, e, a seguir os palhaços de nariz encarnado, só apetece, arre que apetece tanto, com uma mão no bolso a adornar o inda pendente,
            - a pendência não dá  de si,
            daria, se…, daria sim se na minha frente um pendente seguro entre dois seios morenos, mas aqui…, mesmo as contorcionistas são pálidas, monocromáticas,)
            ele diria,
            - dançar nu à lua no meio de um coro de colombianas,
            ( - ass like that,
            grita o rádio,
            e,
            inda pendente,
            - está  bem, essa é boa é,)
            dispo-me
            ( - i kid i kid,)
            dispo-me de morfologias, de dermes subjacentes, arrepio caminho, olho o espelho que nasce ao fundo da sala, aponto o dedo, estica o maior de todos, de falange tesa, e puxo-o para mim, sorri-me e avança, olho-me, sorvo-me, trago-me, e, chega!, de dobrar-me entre diferentes estares, sentires, um que lhe dói a pata zigotáctica direita, outro que está no circo, o primeiro que dá consigo na praia, a custo encontra um buraco virgem no areal, ao pé-coxinho, taxa o glúteo na areia e vê um mar que durante meses lhe disse
            arre me disse,
            um mar só meu, onde de braço dado a uma morena, agora a pendência perde-se de mim enquanto marca presença um incómodo, e, coriscos para isso também já que de teclado no colo, deixo-me de teorias das cordas doutrinalmente aplicadas a um existir como se isso me fizesse vestir uma pele diferente todos os dias, quando todos os dias uma pele falsa, quando se na praia ela cheia, quando se no circo uma pergunta em voz grossa da segunda fila, em desespero,
            - palhaço, oh palhaço posso fazer popó no naiz?,
            e uma contorcionista que me colocam no colo para gáudio do pai cujo olhos brilham como uma luz forte, máximos que me ofuscam
            - estou varado,
            tento dizer enquanto uma língua me conspurca a saliva, assim como bípedes de sotaque carregado, avec para aqui, to be para ali, vaffanculo  para acolá, mas quando a água toca no dedo do pezinho,
            - foda-se que está fria,
            num tom estridente,
            a plateia bate palmas, não para o palhaço, para mim, batem palmes para mim, clap, clap, clap, horas fora, já que uma língua atrevo-me a colocar uma mão com precisão ali, removo o broche, desvio o pendente,
            e,
            levanto-me para mergulhar, o pé dói-me, uma bolha em cima da outra, montam-se e reproduzem-se, desvio-me de casais cerzidos ao solo, de crianças nuas, de bolas soltas que rebolam pela areia paridas de buracos que desaparecem no segundo a seguir, e, agora entraria um parêntese e um,
            - adoro bidés,
            mas como um só eu, mesmo que no espelho me veja, despido, vestido em carne neste invólucro, e, enquanto me sinto a chorar,
            - tem dói-dói no pé?, é?, anda que a mamã dá beijinho e passa,
            eu rio,
            o reflexo ri-se, ele não coxo, ele não com bolhas que se reproduzem num ritmo cioso similar a coelhos com esperança média de vida mui curta devido a uma dieta exclusiva em cousas verdes,
            o reflexo montado em cima de uma contorcionista, enquanto a bacia se eleva, agora quem viola com uma língua não é ela, ele que se esforça em também tornar a menina-do-olho elástica,
            (arre minha Puta é verão e onde andas?,)




*Sem acordo




Cumprimentos,
NR

7 comentários:

Eli disse...

Quando não se sai saindo, quando se ouve uma voz reconhecendo algo que não é nosso, quando rematamos da forma que mais choca, talvez todas as gentes incómodas se evaporem e desapareçam mesmo todos para que não haja ruga que assalte o porto, ou ideias de demoras. Ainda que não diga sem dizer, dizendo, há umas tantas transparências que se lêm no desejo quando se vislumbra um espelho sem dor... às vezes gostava que as reticências trouxessem algo prazeroso que não fosse fugaz.

Alonguei-me. Dá um grito (mas isso não passa assim.)

Cumprimentos.

Nilson Barcelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nilson Barcelli disse...

Não sei se é preferível "dançar nu à lua no meio de um coro de colombianas"
ou um "- foda-se que está fria".
Em qualquer caso, bem pior é um "atencion Marriá, cuidado que aí é fundo"...
Excelente texto, como sempre.
Um abraço e cuidado com as bolhas.

Bela disse...

Nelson,

consegues sempre surpreender-me, não sei onde vais buscar tantas ideias... nem o calor te corta o raciocínio! Acho que o mar inspira o teu estado cognitivo... ;O)

Um beijinho :)

Nelson Rocha disse...

Eli,

ofereceram-me um frasco que atira água, uma chinesice, e, resulta, o calor já não está,

mas o grito foi para a lista,


beijo,
NR

Nelson Rocha disse...

Nilson,

é sempre um prazer alimentar o ego com as tuas palavras,


um abraço meu caro,
NR

Nelson Rocha disse...

Bela,

o que dizes é vero, é vero,

(risos,)

beijo,
NR