sábado, 3 de agosto de 2013

O manel



            O homem tinha mulher em casa, uma esposa entregue ao amor, uma esposa que procurava nas horas vagas cumprir os seus desejos, que sem perguntas, sem pedidos se prostrava de joelhos e se entregava com afinco ao que ela via como obrigação, e nunca dele chegou um,
            - mas querida não precisas,
            nem um,
            - que bom amor,
            enquanto ela…, ele entregue a um silêncio digno, a um estar mal parado, um ficar onde está que vive a antecipar o momento em que partirá para a tasca, durante os dias de sol senta-se no talhante, numa posição precária, molhado pela espuma das marés que quebram a seus pés e num chapéu roto de palha, imita quem pesca, toscamente copia os seus reflexos da superfície do oceano, com uma navalha escoa a terra que vive debaixo das suas unhas baças enquanto assobia para o ar, durante a noite entre minis e traçadinhos vê pernas de mulheres que não são putas nem nada, são pernas de mulheres que vê entre o nevoeiro parido de traçadinhos tragados a um só golpe, 
            na janela ele sabe que ela olha a rua através da janela numa vigília ansiosa, ele sabe que ao chegar terá que negar o convite uma vez mais já que ele incapaz de amar quando o nevoeiro já lhe ocupa a vista,
            ao manel,
            - só vais saber o que perdeste quando for demasiado tarde,
            ele encolhe os ombros e corta o ás com um duque de trunfo,
            - sabes como é, ela tem estrias.




*Sem acordo.




Cumprimentos,
NR

2 comentários:

Bela disse...

É caso para dizer que as estrias não permitem que a "cousa" desenrole... ;O)
Enfim, desassossegos do manel.

Um beijinho, Nelson! :)

Eli disse...

Aposto que ele tem estrias em sítios impossíveis de operar, de tapar, porque estão vincadas de tal forma que nem um Ás trunfo as poderá cortar!

Diria semelhante aos manéis por aí, que só aprendem por norma tarde demais na vida que a mulher é um todo, que não é a celulite, as estrias e companhias que as define (se bem que assim se passa com os homens).

Bem sei que este comentário parece desfazado, mas saiu-me, porque ao detalhe herdaria as partes comuns da alzira que se retém nos mais básicos e comuns defeitos que não se escolhe ter. Ou se aceitam ou não se aceitam!

:))

(Espero ter-me feito entender. Corro o risco de ser mal interpretada e de me fazer menos entender que um certo ente... )

;)

Beijo :P